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segunda-feira, 17 de março de 2008

Seguinte: o preço da vaca é cento e vinte

Recebi um convite para participar de uma licitação do tipo menor preço. Quer dizer, convidaram umas quantas pessoas, cada uma dá sua cotação, quem cobrar menos leva.

Não vou apresentar proposta: não participo de licitações em que o único critério para decisão é o preço e acabou a história.

É mediante convite, está bem, já melhora um pouco. Dizem que só convidaram gente boa. Pode ser, mas essa coisa de menor preço, sabe, abre o envelope e diz Alfa: R$ 10,00; Beta: R$ 9,00; Gama: R$ 8.00. Gama ganha, não me desce bem.

A proposta não deve dizer nada mais que Seguinte, o preço da vaca é cento e vinte. Não vai falar nada de métodos de controle de qualidade, de tratamento das emendas ao texto de partida (que certamente vão surgir, porque é um texto dinâmico, sujeito a alterações antes de estar terminada a tradução), de como vão ser tratadas as sugestões do cliente, de preparação de glossários, de nada. Só preço: Seguinte, o preço da vaca é cento e vinte. Não fala de prazo de entrega, de forma de entrega, de apresentação, de nada que não seja Seguinte, o preço da vaca é cento e vinte. Todo o resto, a gente vê depois. Quanto você cobra?

Quero ver se fariam isso para escolher pediatra para o filho deles. Dr. Alfa: R$ 10,00; Dr. Beta: R$ 9,00; Dr. Gama: R$ 8.00. Dr. Gama ganha e cuida do moleque! Meus parabéns!

Diz lá o convite, a folhas tantas, que o vencedor se compromete a executar o serviço e entregar o material de acordo com as especificações fornecidas pelo [CLIENTE]. Agora, ainda que mal pergunte, como raio vou cotar preço primeiro e ver as especificações depois? E se o cliente quiser algo que eu ache absurdo ou completamente em desacordo com o preço cotado?

A gente está sempre reclamando dessas coisas e há muito pouco que possamos fazer: se o cliente pensa assim, que pense, direito dele, mas eu não me meto nessa. Agradeço o convite e tal, mas não vou apresentar proposta.

Não faltará quem apresente. Não há nada que eu possa fazer quanto a isso: cada um é cada um, cada um tem seus problemas. Mas eu simplesmente me nego a participar dessas coisas. Para minha felicidade, já não preciso correr atrás de todos os serviços que me aparecem pela frente. Essa situação privilegiada me confere a obrigação, perante meus colegas, de não me candidatar a certos serviços. Há certas obrigações que é um prazer cumprir.

(Dois artigos num dia só. Estou inspirado, hoje.)

Catástrofes tradutórias

Então, como eu vinha prometendo, a catástrofe tradutória.

Catástrofes profissionais raramente têm um só motivo. É uma porção de coisas que se junta.

Começou com o efeito conjunto de vários serviços complicados que foram comendo a folga que mantenho para desgraças em geral: meia hora aqui, uma hora lá, e a folga se foi. Estava, então apertado, justo.

Dava para fazer o serviço, se tudo desse certo, mas uma porção de coisas deu errado. Não estou me justificando: profissional tem que trabalhar direito e, quando as coisas dão errado, azar meu, não tem nada que ficar se justificando. Mas, embora nem tudo tenha uma justificativa, tudo tem uma explicação: justificativas exoneram da culpa, explicações, quando muito, indicam o caminho para evitar a repetição do erro.

Além de problemas extraprofissionais, coisas do tipo fadiga aqui e doença lá, interrupções e mais mil coisas, houve os estritamente profissionais: arquivos esquisitíssimos, digitados por gente que não conhecia MSWord e que deram um trabalhão, porque programas de memória de tradução, que meu contrato me obrigava a usar, nem sempre perdoam textos digitados por incompetentes. Arrumei o texto, mas o arquivo ficou muito pesado e nem Trados nem WF davam conta. Simplifiquei a diagramação, de modo a poder trabalhar, para depois arrumar de novo. Tudo isso leva tempo – e o tempo não dá marcha a ré.

Para finalizar, acho que eu estava num dia triplo negativo, como se dizia no tempo em que falar em biorritimo era moda, um daqueles dias em que teria sido melhor ficar na cama, quietinho e quentinho, em vez de me meter a tradutor.

Para encurtar a história: a tradução saiu uma porcaria, fato que a revisora, amiga de muitos anos, mas que nunca tinha feito uma revisão de texto meu, não deixou de me apontar, aliás, com toda a razão. Numa das mensagens, manifestou sua surpresa e decepção por ver uma tradução tão mal feita saindo da minha mão.

A bem dizer, nada de admirar: não existem bons tradutores, existem boas traduções. Qualquer um de nós, por experiente e capaz que seja, pode ter um mau momento, seja lá por que motivo for, e fazer uma meleca tradutória de terceiro grau com cobertura de patê de lacraia. Ninguém está livre disso, muito menos eu. Por isso, contratar um tradutor experiente aumenta as probabilidades de se receber uma boa tradução, mas não garante nada. Tradução é como pudim: a gente sabe se ficou bom só quando prova.

Esses maus momentos devem sempre levar a reflexão e medidas corretivas. Não adianta ficar histérico e começar a gritar – Eu tenho X anos de experiência, fiz isto, aquilo e aquele outro!Sou isto e mais aquilo! Quem é você para me criticar? – todos nós, de vez em quando, fazemos uma grande besteira, por que iria eu ser a exceção? Se começar a acontecer muito, está na hora de tirar o time de campo, claro.

E só agora, quando a fervura baixou, é que, examinando o serviço que mandei para a revisora, vi a extensão do problema. De fato, eta serviço porco, meu São Jerônimo! Mas, quando entreguei, parecia até que direitinho. Não brilhante, mas bonzinho. Quer dizer, ninguém é bom juiz de sua própria obra – pelo menos no momento em que a termina. Um tempo depois, ainda pode ser. Mas na hora que terminou, acha que está uma beleza e entrega com o peito estufado de orgulho. Por isso é sempre bom alguém examinar o documento, seja com o propósito específico de revisar, seja simplesmente para ver se está bom. Às vezes, não está.

domingo, 16 de março de 2008

Os prazos curtos, de novo

O problema dos prazos curtos é que não deixam ensancha (*) para resolver problemas. Quando tudo dá certo, ótimo; quando temos um problema, a coisa complica. E, muitas vezes, o serviço vai indo bonitinho, dentro do cronograma e, quando falta meia hora para entregar, surge uma encrenca qualquer. Pode ser problema de computador, pode ser arquivo bichado, pode ser texto enrolado, termo desconhecido, empastelamento (**), quebranto, espinhela caída, bucho virado, o diabo. Mas em meia hora não dá para resolver.

Nos tempos de editora, era mais simples, porque eu corria como doido para entregar o serviço antes do prazo e sempre sobrava uma folguinha para fazer a limpeza final. Com as coisas que faço agora, servicinhos que chegam de manhã e vão embora de tarde, é muito complicado.

Então, a gente reza, reza para as duas santas às quais temos de recorrer, porque São Jerônimo, nessa hora, não serve de muito: Nossa Senhora da Última Hora e Santa Maria do Último Dia. Costumam resolver, mas às vezes o rolo é grande demais. Então, dá meleca.

O pior é que as complicações tendem a vir em fases. Você pega meia dúzia de serviços em seguida, cada um pior que o outro. Dorme menos, descansa menos, trabalha sobre pressão, fica irritado – e a qualidade vai caindo.

Lá pelas tantas, você faz alguma bobagem grossa. E aí, danou. Aí, o cliente que te pediu de joelhos para aceitar o serviço naquele prazo exíguo, porque só você poderia fazer, lembra, altivo, que foi você quem aceitou e, portanto, tinha obrigação de fazer direito.

O melhor, mesmo, é recusar. Ser realista, lembrar que "encaixar" mais este servicinho vai colocar você na zona de alto risco, que você já está exausto, que já não está mais distinguindo a natureza da selva da Ana Teresa da Silva, nem a testa do médico do atestado médico, e dizer não.

Lamentavelmente, de vez em quando a gente se atrapalha, principalmente quando faz muitos pequenos serviços. Se confunde e acaba aceitando alguma coisa a mais do que deveria, no momento em que já estava absolutamente superlotado. E se essa "alguma coisa" der problema, a catástrofe é certa. No próximo artigo, conto uma catástrofe que aconteceu comigo.

(*) Fala a verdade, ensancha é uma palavrinha porreta, não?

(**) Empastelado é um termo que está desaparecendo. Diz-se do texto que ficou bagunçado na composição (atualmente na editoração eletrônica) e, por isso, perdeu o sentido.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Prazos apertados

Tem aí em baixo um comentário da Camilinha dizendo que na área dela é tudo para ontem. Não duvido nem me surpreende. O que me surpreende é ela achar que o para ontem é peculiar a área dela.

Todo serviço de tradução é para ontem. Até as editoras, atualmente, têm prazos apertados, embora ninguém peça a tradução de um livro de 100.000 palavras para hoje de tarde. Ainda não chegaram a tanto.

Só duas vezes na minha vida de tradutor (e olha que já se vão 37 anos) recebi serviços que não eram urgentes. Um deles, jamais foi feito; o outro, o cliente me cobrou depois de 48 horas. Uma vez, recebi um fax dizendo precisamos desta tradução impreterivelmente até 14 horas. Mas o fax tinha sido enviado às 15 horas. Lamentavelmente, perdi essa jóia.

Traduzo notícias financeiras e o serviço é feito por uma equipe de uma meia dúzia de tradutores, que trabalham com a mesma memória de tradução. Quem pegar primeiro, faz. O texto em inglês sai num dia, a gente traduz e vai para a revisão e, depois, para a editoração eletrônica. Tenho a impressão de que é distribuído aos leitores no dia seguinte.

Por que toda tradução é urgente?

Primeiro porque todo serviço, por natureza, é urgente: a gente não leva o carro ao mecânico e diz olha, fica aí, você dá uma olhada quando tiver tempo. Nem diz para o encanador tem um entupimento aqui, quando sobrar um dia aí no teu calendário, vem ver para mim.

Segundo, que a tradução é um dos últimos elos de qualquer cadeia: primeiro você levanta os fatos, depois discute, faz isto, aquilo e, por fim, o relatório que vai ter de ser traduzido. Em cada estágio, há um atraso e, quando chega na nossa mão o serviço, espera-se que tiremos todo o atraso.

Por fim, tem o fato de que pedir urgência não custa nada. Dizer que precisa para ontem, não custa nada. Por isso a turma pede. Durante muito tempo, cobrei taxa de urgência. Quer para amanhã? Dez. Para depois de amanhã? Oito. Depois, acabei embutindo a taxa de urgência no preço. Ou dá para fazer, ou não dá – e acabou a história.

A gente precisa se acostumar a lidar com isso. Mas, de vez em quando, dá meleca. Vamos ver se consigo contar uma história de meleca amanhã.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Prazos - respondendo o recacadinho da Raquel

A Raquel comentou o prazo de entrega mencionado no artigo anterior. O comentário dela vale a pena ler. Mas aqui me estendo sobre o assunto. O cliente parte do princípio – ou finge que parte – de que nós estamos com as mãos abanando e podemos pegar o serviço deles na hora da aprovação e levar até o fim sem parar. Então, um serviço de doze horas, liberado às cinco da tarde, deve ser entregue na manhã seguinte.

Não é assim que funciona, claro. Nós dormimos, comemos e temos outros compromissos. Já que tantas vezes trabalhamos nos fins de semana, coisas como supermercado e até uma volta no shopping para espairecer ficam para o meio da semana. Tem também médico, mãe doente, filho na escola, carro no mecânico e mais mil coisas. Não estamos acorrentados ao computador como dizem que certos soldados foram acorrentados às suas metralhadoras na segunda guerra mundial.

Finalmente, tem também os outros serviços, claro. O cliente te manda cinco laudas e diz, pelo amor de Deus, você não precisa de mais de duas horas para fazer isso. Mas o fato é que você, totalmente lotado, não tem duas horas de jeito nenhum. E o serviço de duas horas precisa de dois dias.

O cliente se irrita – ou faz de contra que se irrita – mas é assim mesmo. Você chama o encanador e ele diz só posso ir depois de amanhã, estou no meio de outro serviço e não posso largar vala aberta e esgoto entupido. Se ele disser isso e realmente vier depois de amanhã, ótimo. O duro é quando diz que vem depois de amanhã e desaparece para sempre na voragem dos tempos.

Ao cotar o prazo, estava, simplesmente, frisando o fato de que a gente só começa quando o cliente aprova o orçamento e pensando na pessoa cuja consulta tinha dado origem ao artigo, uma principiante com zero de serviço. Mas deveria ter sido mais específico. Do lado positivo, temos que a minha falha engendrou um recadinho da Raquel.

Mas, ainda que mal pergunte, como cotar prazos, então? Pode ser do jeito que a Raquel sugeriu, mas eu não gosto, porque meus clientes não costumam aprovar sem ter uma idéia de prazo. Quer dizer, ficamos andando em círculos.

O que eu costumo fazer é dizer algo assim: Esta cotação é válida por trinta dias. O prazo de entrega varia de acordo com a minha carga de trabalho no momento em que a aprovação for recebida. Se for recebida até o fim do expediente de hoje, o prazo será de X dias. Ai o cliente escreve dizendo preciso de três dias para aprovar. E eu respondo sem problema, mas não posso passar três dias recusando serviço enquanto vocês decidem se vão fazer o serviço comigo ou com outro. Nesses três dias pode aparecer um serviço enorme, que inviabilize esse prazo e não posso recusar. Essas coisas mudam de minuto em minuto. O máximo que posso dar de garantia de prazo é três horas.

Também nós temos nossos meiozinhos de pressão.

terça-feira, 11 de março de 2008

Combinar, a gente combina antes

Já faz tempo que não encontro o Tércio. O Tércio tem trauma de tradução. Há muitos anos, quando nós dois andávamos desempregados, alguém pediu a ele uma tradução. Você faz para mim? Eu não sei nada de inglês. Depois você me diz quanto é.

O Tércio fez, caprichadinho. Fez a mão, bateu a limpo na máquina de escrever portátil que tinha em casa (estou dizendo que a historia é velha). Caprichou como pode, leu releu, revisou e trevisou. Foi encontrar o amigo para entregar. Chegou lá, o amigo, todo sorridente, disse Terminou, que bom! Estava esperando. Quanto é?

O Tércio tinha coçado a cabeça para determinar o preço. Pesou e mediu mil fatores, até que chegou a um valor que lhe pareceu justo.

Não me lembro quanto era e nem faz diferença, porque era ainda coisa de cruzeiros e ninguém mais sabe o que isso significa. Mas ele deu lá o preço dele e o amigo respondeu, na lata: Muito caro, não quero. Virou as costas e foi embora, deixando o coitado do Tércio com a tradução na mão e se sentido um perfeito idiota.

Tinha cometido um erro fatal, que muitos iniciantes cometem. Muitos de nós, principalmente os principiantes, se sentem constrangidos quando temos de cotar preço é adiamos a hora o máximo. Quando você entrega o serviço, não tem mais como adiar: aí precisa dizer mesmo. E, por mais justo ou camarada que você considere o preço, quem pediu pode achar um absurdo, um roubo. Ou pode achar que, para ele, não compensa.

Então, a gente combina. Combinar, combina-se antes, quer dizer, antes de começar. Não se pode combinar depois de pronto. Primeiro combina, quer dizer, você diz quanto vai custar e o cliente diz que concorda em pagar, e, depois, você começa.

Jamais traduza uma linha, uma que seja, sem antes ter a aprovação do cliente para o preço. Se for pessoa física, diga que vai dar uma olhada no serviço em casa e passa a cotação via e-mail. E escreva uma mensagenzinha assim Oi, Beta, a tradução das páginas 10-17 do livro "Teeth -Brushing Techniques for Quadriplegic Hens" vai custar R$ X, que eu espero receber contra a entrega da tradução. Entrego a tradução pronta 10 dias depois de você me responder este e-mail dizendo que está de acordo com o preço. Obrigado pelo interesse pelos meus serviços e um beijo.

Quanto mais amigo, bacana, legal, gente fina, "cool", quase uma irmã for a pessoa, maior é a necessidade de sermos formais e profissionais. Se você um dia encontrar o Tércio por aí, ele vai concordar.

Como faturar um cliente no exterior

De vez em quando alguém me pede um modelito de "invoice". Aqui vai uma sugestão, que pode ser modificada à vontade. Depois de preenchida, pode ser convertida em pdf para remessa ao cliente. Os números entre colchetes remetem às observações no fim do texto. Não vá botar esses números na fatura, por favor.

Hortelino Trocaletra [1]
Quality translations – Brazilian Portuguese
accounting, finance, taxation, corporate law [2]

Rua que Sobe e Desce, Número que não Aparece [3]
São Judas Perdeu as Botas
Mato Grosso do Oeste
13131-313

Brazil

Voice: +55 99 9999 9999 [4]
Fax: +55 99 9999 9999
skype: Htrocaletra


Invoice # ACME 01/08 [5]

Date: January 31, 2008 [6]
Customer:
Acme Translation Co.

555 Orchard Street, 10th Floor
New York, NY 10041

Job Name

Job # / PO #

Type of Service

Language

Rate

Hour /Word

Extended

PO Date

Report

499/
ny877

Editing

Portuguese

40.00

12

480.00

12/27/07

Total

480.00


Payment intructions [7]


Payee: Hortelino Trocaletra
Bank: Second Bank of Podunk
Address:
13 East 13th Street
Podunk NY
10022

USA
ABA # 113 113 113
Account # 182 503

Thanks for the assignments!

Notas

[1] É provável que seu cliente no exterior queira pagar você como pessoa física, não juridical. Discuta isso com ele.

[2] Breve descrição dos tipos de service que você presta

[3] Seu endereço postal. Só o "Brazil" vai em ingles. O resto fica em português mesmo

[4] Telefones à moda internacional: um sinal de +, indicando que o cara tem que digitar o que que que se digite onde ele está para fazer ligações internacionais; seguido de 55, que significa Brasil, mais o seu DDD e o número de seu telefone.

[5] Um código de identificação da fatura, dado por você, à sua moda, mas sempre dizendo INVOICE.

[6] Data, nome do cliente, como consta no pedido que você recebeu, seguidos da descrição do service, como estiver no pedido. Varia muito de cliente para cliente. Caso você não saiba "extended" significa "preço total", quer dizer, sua taxa ("rate") multiplicada pelo número de horas, palavras ou o que seja.

[7] Nas instruções para pagamento, os seus próprios dados. Se o banco for no Brasil, precisa do código SWIFT do banco, que só o próprio banco pode informar e que pode variar de uma agência para outra. Se for para enviar cheque, please mail check to … e complete com seu endereço postal. Se for Paypal, é só dar o nome de sua conta.

Não anexe nota fiscal nem RPA, não mande seu RG, CPF nem nada disso.

domingo, 9 de março de 2008

Meu preço é…

A voz no telefone era educada, de alguém com menos de trinta anos. Conhecia meus glossários, tinha lido meus artigos, isto e aquilo, a empresa dele tinha um serviço na minha área, queriam atender bem o cliente, sabia que eu era especialista, essas coisas. Perguntou se eu topava. São situações constrangedoras: o rapaz me cumulava de cortesias e elogios, mas eu sabia onde ia emperrar o carro: no preço. Elogio faz bem para o ego, mas não paga a conta do supermercado. Então, para adiantar assunto, na primeira oportunidade fui logo cantando a bola dos meus preços.

O rapaz levou um susto: como ele ia fazer para me pagar se o que eu cobrava era o mesmo que a empresa dele? Contou uma história, que eu sei ser bastante verdadeira: ele tinha uma empresa no Brasil (recusava-se, como a maioria, a chamar sua empresa de agência. Agência, como todos sabem, é onde trabalha a mãe de quem falou, porque as agências e tal e coisa, aquela conversa que já se sabe). Sua empresa catava serviço no exterior, geralmente de agências (os outros têm agências, ele tinha uma empresa), e repassava no Brasil. Quer dizer, recebia lá o preço que normalmente se paga aos tradutores, tirava uma fatia para pagar as despesas dele e ficar com algum no bolso, e pagava aqui um preço que era, para os meus padrões, baixo demais. Pediu para que eu entendesse a situação, entendesse que não podia pagar mais e pediu que reconsiderasse minha taxa.

Sim, entendo perfeitamente a situação. Mas o fato é que eu tenho uma linha direta com as agências lá fora e, por isso, recebo a taxa integral, sem a fatia do intermediário. Cada vez que aceitasse um serviço dele, estaria rasgando dinheiro, num valor exatamente igual à parcela que ele retinha – que não era pequena. Há quem diga que sou maluco, mas maluco de rasgar dinheiro, já é pior do que sou.

Um ponto aqui fica meio frouxo: essa postura só vale porque tenho bastante serviço. Se tivesse pouco, poderia encaixar o serviço dele na folgas, de acordo com a filosofia de que ganhar pouco é bem melhor que ganhar nada.

Por isso é que fica sempre o conselho: procure serviço sempre, intensamente. Com o tempo, você fica em posição de poder dispensar os que pagam menos. Nada tenho contra quem oferece R$ 0,03 por palavra, mas prefiro trabalhar por quem paga mais pelo meu tempo. Então, peninha, peninha, mas não dá.

O rapaz ficou chateado, comentando que, se todos fossem iguais a mim, ele não teria como manter a empresas aberta. Pois é, talvez não. Mas o fato é que meu problema não é viabilizar a empresa dele, mas sim maximizar os meus rendimentos. Não pedi que ele entendesse isso: seria demais.

Obrigado pela visita. Tomei hoje uma decisões aqui, porque precisava tirar este blog do abandono. Vamos ver se consigo.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Notícia importante para quem escreve inglês

Recebi, repasso

We are pleased to announce the initial release of the 360 million word "BYU Corpus of American English" (1990-2007), which is freely available online (http://www.americancorpus.org). New texts will be added at least two times each year from this point on (20 million new words each year; 4 million words in each of the five genres), and it will thus serve as a unique linguistic history of American English since 1990.

CONTENT

The corpus is composed of more than 360 million words in nearly 150,000 texts, including 20 million words each year from 1990-2007. For each year (and therefore overall, as well), the corpus is evenly divided between the five genres of spoken, fiction, popular magazines, newspapers, and academic journals. The texts come from a variety of sources:

Spoken: (76+ million words) Transcripts of unscripted conversation from nearly 150 different TV and radio programs (examples: All Things Considered (NPR), Newshour (PBS), Good Morning America (ABC), Today Show (NBC), 60 Minutes (CBS), Hannity and Colmes (Fox), Jerry Springer, etc).

Fiction: (70 million words) Short stories and plays from literary magazines, children's magazines, popular magazines, first chapters of first edition books 1990-present, and movie scripts.

Popular Magazines: (78+ million words) Nearly 100 different magazines, with a good mix (overall, and by year) between specific domains (news, health, home and gardening, women, financial, religion, sports, etc). A few examples are Time, Men's Health, Good Housekeeping, Cosmopolitan, Christian Century, Fortune, Sports Illustrated, etc.

Newspapers: (73+ million words) Ten newspapers from across the US, including: USA Today, New York Times, Atlanta Journal Constitution, San Francisco Chronicle, etc. There is also a good mix between different sections of the newspapers, such as local news, opinion, sports, financial, etc.

Academic Journals: (73+ million words) Nearly 100 different peer-reviewed journals. These were selected to cover the entire range of the Library of Congress classification system (e.g. a certain percentage from B (philosophy, psychology, religion), D (world history), K (education), T (technology), etc.), both overall and by number of words per year

QUERIES

-- The interface is the same as the interface for the 100 million word British National Corpus and 100 million word TIME Magazine corpus (see http://corpus.byu.edu/)

-- Queries by word, phrase, alternates, substring, part of speech, lemma, synonyms (see below), and customized lists (see below)

-- The corpus is tagged by CLAWS, the same tagger that was used for the BNC and the TIME corpus

-- Chart listings (totals for all matching forms in each genre or year, 1990-present, as well as for sub-genres) and table listings (frequency for each matching form in each genre or year)

-- Full collocates searching (up to ten words left and right of node word)

-- Comparisons between genres or time periods (e.g. collocates of 'chair' in fiction or academic, nouns with 'break the [N]' in newspapers or academic, adjectives that occur primarily in sports magazines, or verbs that are more common 2004-2007 than previously)

-- One-step comparisons of collocates of related words, to study semantic or cultural differences between words (e.g. comparison of collocates of 'small' and 'little', or 'men' and 'women', or 'rob' vs 'steal')

-- Include semantic information from a 60,000 entry thesaurus directly as part of the query syntax (e.g. frequency and distribution of synonyms of 'beautiful', synonyms of 'strong' occurring in fiction but not academic, synonyms of 'clean' + noun ('clean the floor', 'washed the dishes')

-- Create your own 'customized' word lists, and then re-use these as part of subsequent queries (e.g. lists related to a particular semantic category (clothes, foods, emotions), or a user-defined part of speech)

NOTE

Due to copyright and licensing issues, the corpus is not available in full-text form. Rather, as with our interface to the BNC and TIME, all access will be via the web interface, which allows full frequency and distributional charts, and limited KWIC displays (up to 100 words per entry)

O piloto automático

Ainda falando de fail, como o piloto automático manda traduzir fail como falhar, o fail to acaba sendo traduzido metodicamente por falhou em, o que é um absurdo.

He failed to come significa ele não veio – só isso. Ele falhou em vir existe, é bom português, mas significa outra coisa, significa que ele veio, mas isso foi uma falha. Mas, em um texto traduzido ele falhou em vir, geralmente significa que o inglês tem he failed to come.

Quem traduz no piloto automático acaba cometendo essas e outras e está correndo sério risco de, mais dia menos dia, se vir substituído por um tradutor eletrônico. Não se engane: Babelfish é uma droga, mas há coisas melhores e estão cada vez melhores.

Como conclusão, repito aqui o comentário do Fabio ao item anterior, cujo original você pode ler rolando um pouco a tela, se quiser:

O problema do "piloto automático" é uma das coisas que me impedem de achar que seja possível traduzir com qualidade quando se tem uma produção diária de, sei lá, 5.000 palavras ou mais (sem grandes repetições). Qualidade exige tempo, e quem liga o piloto automático não está a fim de gastar o tempo necessário para buscar essa qualidade.

Pois é, Fabio (sem acento mesmo?), conheço gente que acha 10.000 palavras por dia perfeitamente normal. Não duvido. Mas traduzir 10.000 palavras por dia como norma e produzir um texto de qualidade me parece tarefa para heróis.

Parece que vou começar a atualizar este blog todos os dias. Se você for do tipo religioso e gostar de ler estas coisas, reze por mim. Mas reza braba, por favor. Volte amanhã que tem mais.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O piloto automático

O piloto automático é um dos nossos maiores inimigos. O maior é o excesso de confiança em glossários, mas isso é outra conversa.

O piloto automático é aquele mau conselheiro que faz a gente traduzir um termo sempre do mesmo jeito sem pensar bem no que ele significa em português naquele contexto – ou se significa alguma coisa. Por exemplo, você já pensou em fail/failure? O piloto automático manda traduzir como falhar/falha/falência. E, às vezes, dá certo. Mas, na maioria das vezes, não funciona. Veja estes exemplos

As a writer, he was a complete failure.
Como escritor, foi um fracasso completo.

John failed both Math and Chemistry.
John foi reprovado em matemática e química.

Mary failed in her attempt to regain the world title
Mary não conseguiu recuperar o título mundial.

Note que conseguir implica na existência de uma tentativa, portanto, a tradução para attempt fica implícita. Não conseguir, muitas vezes, é uma grande tradução. Veja

Many people tried to quit smoking and failed misarably
Muita gente tentou parar de fumar e fracassou completamente.

If all else fails…
Se nada mais funcionar…

Aqui, estou usando o processo chamado modulação, em que se troca o ponto de vista. Quer dizer, onde o inglês diz tudo fracassar, eu digo nada funcionar. Note que a expressão inglesa convencional e, por isso, cabe traduzir pela convencional correspondente no português.

Por agora, é só. Estou botando o blog nos eixos de novo e vou continuar este assunto amanhã.

Obrigado pela visita, volte sempre e torça para que eu consiga manter esta coisa toda funcionando.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Você está com excesso de serviço?

Deixa fazer uma pergunta: o que você faz quando está com falta de serviço? Aceita serviço ruim, certo? Serviço ruim quer dizer serviço a preço baixo, serviço de cliente chato, serviço de cliente que demora a pagar. Então, quando a coisa está braba, o que cai na rede é peixe.

Mas, assim como as vacas emagrecem, engordam de novo. Não engordam para todos ao mesmo tempo nem na mesma velocidade, mas nós estamos falando de você, agora. Suas vacas estão engordando? Quer dizer, você está com excesso de serviço? Muitos de nós estão. Tem gente trabalhando sete dias por semana, adoidadamente, e, mesmo assim, não sem conseguir dar conta do recado.

Trabalhar demais é um problema, porque cansa o corpo e a qualidade cai. E o cliente que pediu pelo amor de Deus para você aceitar um serviço num momento em que você estava com lotação total é exatamente aquele que reclama que o serviço foi picaretado. Então, bom, então, tem que ter um limite. Tradutor é metido a herói: traduzi um livro de duzentas páginas em uma semana! Pois não devia, pronto. Fez besteira!

Melhor, quando há excesso de serviço, começar a usar a palavra mágica. A palavra mágica, não, as frases mágicas, porque são duas.

A primeira é não. Um não educado, mas firme, sem cair na defensiva. Dez mil palavras para sexta-feira que vem? Desculpe, não posso, estou de serviço até as orelhas. Não, não dá para encaixar, já estou com todos os encaixes encaixados. Fica para a próxima. Essa se aplica aos chatos, aos que demoram mais tempo para pagar do que o justificável.

A segunda frase mágica é por esse preço, não dá. Meu mínimo é X. Você não tem que explicar porque sua taxa, que era Y, agora é X. Você trabalha por conta própria, cobra o que quer. E vai saindo da conversa. Quanto menos discussão, melhor. Não precisa falar do preço da batatinha, do colégio das crianças, do sapateiro, de quanto tempo faz que você não aumenta. Nada. Para cada explicação que você der, o cliente tem duas respostas e a conversa dura um século, sem levar a lugar nenhum. Lembre-se: VOCÊ TRABALHA POR CONTA PRÓPRIA E SÓ TEM OBRIGAÇÃO DE CUMPRIR A PALAVRA EMPENHADA. PELO SEU SERVIÇO, VOCÊ COBRA O QUE QUISER.

Ah,desculpe, mas nós aqui temos a tabela da casa, sabe, não dá para mexer. Não autorizam. Vê lá o que você pode fazer por mim. Você já fez tanto serviço para nós a esse preço! Por que não pode fazer mais um?

Vá plantar batatas, para não dizer coisas pior. A tabela da casa não é problema meu e nem eu vou comer menos para ajudar os outros. Eu tenho que fazer pela minha família, não pelos outros. Já fez serviço demais àquele preço, está na hora de ter um aumento, raios!

Mas não é isso o que você deve dizer, claro: boa educação, sempre. Não baixe o nível, mesmo que o cliente procure baixar. Você tem a tua tabela, eu tenho a minha. Você não pode subir a sua, não posso baixar a minha. Os outros clientes estão aceitando numa boa, não faz sentido reduzir. Se, em vez de trabalhar para os outros por doze, eu trabalhar para você por dez, estou pagando para trabalhar. Não dá.

Você vai ver quantas vezes o cliente vai reclamar, resmungar, mas aceitar o preço maior. Alguns não vão aceitar, claro. E isso vai reduzir o fluxo do serviço. Mas você vai ver quantos aceitam.

Aliás, contra o conselho de vários colegas, estou aumentando meus preços. Até agora, todos aceitaram numa boa. Vou ter que arrumar outro jeito para reduzir o fluxo de serviço.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Volta à Vida

Acho que, finalmente, a partir da semana que vem, este blog vai entrar em ação de novo, depois de vários tropeços, topadas e tropicões. Minha vida deu umas guinadas e tive de repensiocinar (verbo cunhado por mim, mistura de "pensar" com "raciocinar", com o prefixo re-) uma porção de coisas. A ver se dá tudo certo.

Por hoje, fica o aviso da Reunião na Sala 7

A próxima, grátis como as anteriores, será no sábado, dia 16 de fevereiro de 2008, às 14 horas, sempre via Aulavox.

O tema será "Ferramentas de Tradução Assistida por Computador". Vamos falar não só dos programas básicos, como Wordfast, Trados e semelhantes, como de utilitários grátis, que poucos conhecem, como xBench, AndoTools, PlusToyz e quetais, para certas tarefas específicas de controle de qualidade e organização de glossários.

Como é um programa à distância, via web, você pode participar de sua própria casa, independentemente de onde estiver. O evento é absolutamente grátis e ninguém vai ficar atormentando os participantes para comprar ou pagar qualquer coisa que seja.

Todos são bem-vindos.

Para participar, clique aqui.

O sistema Aulavox funciona a preceito em PCs e Windows. Não é necessário ter microfone, mas alto-falante é indispensável. As perguntas são feitas pelo bate-papo e eu respondo à medida que forem surgindo.

Por favor, divulgue para outros interessados.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Traduções amadoras, um perigo?

A revista Língua Portuguesa publicou matéria cotejando uma tradução pirata de Harry Potter com o trabalho da tradutora oficial, nossa colega e minha particular amiga, Lia Wyler, chegando à irrefutável conclusão de que, embora os amadores não fossem de todo ruins, a Lia traduz melhor. Entretanto, nem todos os tradutores profissionais são tão competentes com a Lia. Fosse outro o profissional encarregado do HP, os amadores poderia ter ganho a parada da qualidade.

Não, espera, estou me adiantando. Preciso primeiro definir o que quero dizer com tradutor profissional. Pelo menos aqui, tradutor profissional significa aquele que traduz a troco de uma remuneração compatível com a média do mercado para traduções semelhantes. Todos nós achamos que ganhamos mal e a maioria acha que quem cobra menos que eu avilta o mercado. Mas isso é outra conversa, para outro dia. O que quero dizer é que se as editoras pagam, em média R$ X por lauda e nossa colega Beta traduz para uma editora e recebe RX$ por lauda, ou mesmo um pouco menos (por isso falo em média), então é tradutora profissional. E há mais de um profissional que eu conheço e que traduz pior, bem pior, do que o bando de amadores enveredou pela aventura de traduzir Harry Potter.

Estará chegando ao fim a tradução profissional? Eis a pergunta intraqüilizadora que perpassa toda a conversa surgida em vários grupos de tradutores. Vamos agora ser substituídos por bandos de adolescentes ou de aposentados?

Creio que não. Gente traduzindo por nada ou quase nada, sempre houve. E, diga-se de passagem, gente muito boa. Conheci vários daqueles tradutores e tradutoras que brilham nos cadernos literários dos nossos jornais e a grande maioria deles trabalha de graça ou por valor meramente simbólico, garantindo o rancho com outras fontes de renda. Não traduzem por dinheiro: como os adolescentes que traduzem Harry Potter, traduzem por prazer ou pela aventura, por prestígio ou até para fazer currículo.

O fato é que esses amadores e amadoras, por bons que sejam, traduzem o que bem entendem, como bem entendem, quando bem entendem. O profissional traduz o que é preciso, como necessário, dentro do prazo estabelecido, uma postura que faz uma diferença danada para quem precisa de serviços de tradução. Conheci, há anos, um psicólogo que traduzia, a preço de banana e muitas vezes gratuitamente, os trabalhos do professor com que estudara nos EUA. Mas certamente não traduziria 50 laudos preparados por algum colega ou mesmo um estudo preparado por alguém que seguisse outra linha de psicologia: coisas que não lhe interessavam, mas essas coisas precisam ser traduzidas. Aí, então, entra o profissional.

Amador traduz o que quer traduzir, profissional traduz o que precisa ser traduzido. Faz uma baita duma diferença.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Afobado queima a boca ou come cru

Diversas vezes, nos últimos tempos, apareceram casos de gente que pegou traduções sem tomar as precauções necessárias. Mas isso não é de hoje. Tem gente que pega qualquer serviço, de qualquer área, com qualquer prazo, em quaisquer condições e volta para casa todo lampeiro e pimpão, peito estufado de orgulho. Depois, vem a ressaca.

A maioria dos afoitos combina preços na doce ilusão de que, entregue o serviço, o cliente vai enfiar a mão no bolso, pegar umas quantas notas, pagar o serviço e agradecer. Quando o cliente diz manda a fatura, começa o pânico. Tem gente que nem sabe o que é fatura. Há muito tempo, uma moça postou uma mensagem indignada em uma lista, dizendo que tinha grau de tradutora, não de contadora e não era obrigação dela saber dessas coisas. Santa ingenuidade. Se quer ser tradutora profissional, tem que saber dessas coisas, sim senhora.

Outro pega um site para verter e descobre que não tem a mais remota idéia de como se faz isso. Recebe um monte de arquivos com umas coisas esquisitas, que nunca viu e vem a descobrir que é html. No livro do Venuti não falava disso e ele não sabe o que fazer.

Uma vez, me apareceu para revisar um arquivo em formato TradosTWB totalmente estuporado. Avisei a agência e o gerente de projeto ficou a própria arara: ele tinha perguntado à tradutora se ela sabia lidar com Trados e a moça garantiu que sabia. Certamente era mentira, porque pegou um arquivo preparado e fez dele um lixo sem rival. Na afoiteza de pegar o trabalho, foi dizendo sim para tudo e acabou se danando.

Tem também a turma que espera ser paga contra entrega e chama o cliente de ladrão porque, além de querer nota fiscal ou querer descontar imposto de renda do RPA, ainda quer quinze dias para quitação. E tem aquela amiga minha que pegou um serviço, fez um precinho baratinho, varou as férias do escritório onde era secretária dando duro na tradução e, por fim, descobriu que o cliente queria nota fiscal. Saiu doida atrás de alguém que lhe vendesse uma nota (o que é crime contra a ordem tributária) e descobriu, para seu horror, que o preço incluía um valor alto para os impostos, que ia engolir boa parte do valor combinado pela tradução.

Nosso mundinho está cheio desses casos, a maioria tristes. Muita gente acha que ser tradutor é uma coisa assim, meio romântica. Não, não é. Tradução profissional, quer dizer, onde há dinheiro trocando de mãos, é coisa séria. O cliente presume que você seja profissional e que tenha condições de atuar conforme a lei. Se, na hora da entrega, você demonstrar falta de profissionalismo, azar seu.

O cliente até pode ter pena e pagar pelo caixa dois, mas esse é um cliente que não vai durar muito: qualquer tradutor que emita uma notinha fiscal de pessoa jurídica maneira ganha o cliente.

O mesmo acontece com coisas do tipo arquivos html, Trados, memórias tmx, planilhas de Excel, audivisuais para dublagem e legendagem e tudo aquilo que escapa ao famoso arquivo MSWord que é só ir traduzindinho. É preciso aprender a lidar com essas coisas ou avisar o cliente antecipadamente que não tem experiência com elas.

Afobado, como você sabe, queima a boca ou come cru.

domingo, 20 de janeiro de 2008

A responsabilidade do tradutor

Você notou que o blog andou meio morto, não é? Espero que sim.

Na verdade, faltou tempo, mas, principalmente, faltou inspiração. Fico me perguntando o que seria minha vida se vivesse de escrever e, de repente, olhasse para a tela do computador e não tivesse idéia nenhuma. Poderia, talvez, fazer como muitos cronistas de jornal que, na mesma situação, escrevem uma crônica inteira sobre a falta de inspiração.

Mas, em minha salvação, veio a palestra de ontem para a Editora SBS. Fui obrigado a preparar a apresentação, porque não tinha cara de chegar lá e dizer desculpe, minha gente, faltou inspiração, não tenho o que dizer, outro dia eu falo. Então, a responsabilidade falou mais alto, Sentei na frente da tela e bolei lá uma tal de palestra. Antes da palestra, uma conversa solta com algumas colegas me deu mais algumas idéias e pretendo desenvolver tudo isto por aqui nas próximas semanas – se o tempo o permitir.

Mas veja que a responsabilidade por preparar a palestra foi criada por mim ao aceitar a incumbência: convidaram, eu aceitei, então era obrigado a fazer o melhor que pudesse. Não sou empregado da SBS e tinha todo o direito de recusar o convite.

Esse ponto é mais importante do que parece. Todos nós somos obrigados a cumprir nossos compromissos. Se você prometeu entregar a tradução na segunda-feira, pelo amor de Deus, entregue na segunda-feira, como prometido. Porém, se você, como eu e tantos outros, trabalha por conta própria, não é obrigada a assumir o compromisso de entregar na segunda-feira.

Quer dizer, liga o cliente e pede alguma coisa que você não possa fazer, ou porque o prazo é curto demais, ou porque está já com sobrecarga de trabalho, ou porque o preço é baixo demais, ou porque não é a sua área, ou seja lá porque for, não é sua obrigação aceitar e ponto final. Se puder recomendar quem faça, tanto melhor, mas isso também não é sua obrigação.

Muitos clientes usam o mas você tem que… para tentar fazer com que nós aceitemos a obrigação, obrigação de fazer, de aceitar, de arranjar quem faça, qualquer coisa. Não se deixe intimidar. Você só tem que fazer o que prometeu, mas não tem que prometer nada. Às vezes, faz promessas do tipo se você ajudar a gente agora…Jamais acredite nessas promessas. Outras vezes, apela para a chantagem, falando de nossa parceria. Parceria essa que vai durar até ele encontrar alguém que lhe pareça melhor.

Nessas horas, o cliente também quer saber por que você está se recusando. Não é direito dele saber, nem sequer fazer a pergunta. Você não é empregada nem muito menos escrava dele. Ele não tem que te dar satisfações quando encarrega outros de algum serviço, você não tem que dar satisfações quando recusa um serviço.

Na hora da recusa, cortesia é essencial: se oferecerem serviço a um preço vil, diga meu mínimo é X. Não faça uma arenga inflamada sobre os exploradores dos tradutores, por mais prazer que discursar possa dar e por mais aplausos que a ladainha posa gerar entre os seus colegas: o cliente nem vai ouvir. Ele quer o serviço, só isso.

Talvez a recusa se dê até por motivos pessoais e não muito importantes: você combinou ir à praia com as amigas neste fim de semana, está cansada demais para trabalhar, é casamento da sua irmã e você quer dar uma mão, seu filho está com dor de barriga e você quer fazer companhia, mas tudo isso é coisa sua, não é da conta de ninguém. E você tem o direito de guardar essas coisas para você e recusar o serviço com um educado, agradável, mas firme, obrigado, mas não vai dar.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Cantadas batidas, respostas criativas

Você cota o preço e lá vem uma cantada para dar um desconto. Eu tenho raiva, horror de pechincha. O cara vai ao restaurante, olha o preço na porta e, se calhar, nem isso, come, bebe, pede a conta e paga o que está escrito. O cara vai cortar o cabelo, vê o preço na entrada do salão; se achar caro, não entra; se achar o preço razoável, entra, corta o cabelo, paga, deixa gorjeta e vai embora. Tradutor cota preço, ele pede desconto. Coisa chata, parece que a gente está vendendo camelo num bazar oriental. E o pior é que as cantadas se repetem. Faz mais de trinta anos que estou ouvindo as mesmas e o cara ainda acha que está sendo original.

Ando sem paciência para essas discussões de preços. Para acabar logo, costumo dizer que é o preço que cobro de todos os meus clientes e nenhum deles acha caro. Pronto, acabou. O cliente, que esperava outra reação, perde o pé de apoio. Nem sempre funciona, mas, ao menos, é divertido. E, de qualquer forma, nenhuma estratégia funciona sempre.

Tem outra interessante. Eu coto, digamos, mil reais e, no dia seguinte, vem lá o cliente dizendo que tem quem cobre setecentos. Fico quieto. O cliente diz alô, está ouvindo? Claro que estou. Pergunta o que eu tenho a dizer. Bom, ele pediu, não é? Eu estava caladinho, no meu canto, e ele pediu minha opinião, certo? Então, não reclama:

Independentemente de quanto eu cote, sempre vai haver quem cobre menos. Você encontrou um que cobra setecentos, poderia ter encontrado por menos, bem menos. É só procurar um pouco. Cabe a você, agora, decidir se quer o serviço do colega por setecentos ou o meu por mil. Toda decisão envolve riscos, não é só esta. E é uma decisão sua, inteiramente sua, como também é sua a responsabilidade pelo resultado. Não há nada que eu possa fazer. Se você optar pelo colega de setecentos e o serviço for bem feito, você economizou trezentos para a sua empresa. Se fizer um serviço mal feito, você desperdiçou setecentos e pode perder muito mais, sei lá, quanto vale esse texto para você.

Quer dizer, jogo o problema no colo dele de novo. Mas não vou dar desconto pelo simples motivo de que ele disse que tem alguém que cobre menos. Nem que eu tivesse certeza de que era verdade. Aliás, se ele tem quem faça mais barato, porque não faz com o outro logo de uma vez?

domingo, 6 de janeiro de 2008

O mistério de Invanhoé, cada vez mais misterioso

Este blog entrou em recesso de fim de ano meio forçado: ele, que adquiriu vida própria, não queria parar e eu não queria que parasse. Mas a vida quis que parasse e parou.

Reabre hoje e reabre com chave de ouro, com uma mensagem recebida do Saulo von Randow Júnior, o homem que está levantando o maior escândalo do mundo tradutório brasileiro: o plágio de traduções por atacado, feito pelas nossas editoras. O início da história você encontra aqui, se é que ainda não conhece, está aqui. O desenrolar é assustador: não é uma, não são duas as traduções plagiadas: parece que a praxe é mais comum do que temíamos.

Uma historinha sórdida. Vamos insistir e, um dia, as editoras vão ter de se manifestar – ou individualmente, ou através da Câmara Brasileira do Livro. Cabe a nós, com os meios de que dispomos, chamar a atenção de todos para o problema e obrigar os editores agir corretamente.

Esse plágio por atacado me fere profundamente, embora nada do que eu tenha feito tenha sido plagiado. Sou amante de música clássica e a maior parte do que ouço já está no domínio público há anos. Quer dizer, para tocar ou reimprimir a quinta Sinfonia de Beethoven, não é necessário pagar direitos autorais. Como Beethoven não tem sucessores com direito intelectual sobre sua obra, se um maluco mandar imprimir a partitura da uma sinfonia dele e publicar como de sua autoria, não há como me processar. Mas a grita vai ser enorme, principalmente por parte dos músicos e editores honestos. Espero que as editoras honestas se juntem também ao nosso clamor.

Se você sabe de alguma coisa que possa nos ajudar, escreva para mim. Se você pedir, seu nome será mantido em segredo, mas a informação será pesquisada e pode ajudar a dar um pouco mais de dignidade à nossa profissão. Não vou publicar informações, assinadas ou anônimas, sem pesquisar.

Agora, fala Saulo!

Danilo,

Gostaria de colocá-lo a par, bem como aos leitores do seu "blog", sobre a repercussão do artigo "O Mistério de Ivanhoé: alguns dias após a publicação da matéria no seu sítio, fui contactado pela, também tradutora, Denise Bottmann, a qual queria saber mais sobre o assunto.

Ela disse ter tomado conhecimento do caso num grupo de debates do "Yahoo" conhecido como "Litterati", onde o assunto foi levantado. Como dispunha, assim como eu, das 2 edições do livro "Ivanhoé" , ela partiu para o cotejo dos livros e ficou assombrada com o que encontrou. Como também possuía 2 edições do "Fausto" e "Werther" de Goethe, ela resolveu aprofundar as investigações e, aí também, encontrou vestígios de plágio.

A Denise, então, tentou entrar em contato umas 3 ou 4 vezes com a Nova Cultural e, ao mesmo tempo, escreveu um e-mail para a seção Folha Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, os quais se interessaram sobre o assunto e publicaram uma matéria sobre o caso.

Logo em seguida, partindo de uma matéria publicada pela Revista Veja sobre o lançamento, na época, sobre a coleção "Obras-Primas" da Editora Nova Cultural, começamos um trabalho de cotejo dessa coleção com os livros dos mesmos autores de outras editoras, principalmente os da Editora Abril Cultural.

Nesse ínterim, a repercussão dos plágios deu origem a um abaixo-assinado por parte dos tradutores, fazendo com que o mesmo ganhasse as páginas do jornal Folha de S.Paulo como matéria digna de nota. Como eu possuía alguns desses livros (Ana Karênina, Tom Jones, Crime e Castigo) de ambas as editoras e a Denise possuía outros, passamos a publicar nossos "achados" junto ao "blog" que destaca o abaixo-assinado acima referido as nossas descobertas.

Atualmente, eu e a Denise estamos trabalhando para separar o joio do trigo: com o apoio de algumas pessoas que são proprietárias de sebos, estamos trabalhando para saber quais obras foram vilipendiadas nesse processo de plágio descarado (direto) e, também, por um sistema de tradução por sinonímia, sem qualquer respeito ao trabalho do tradutor original da obra em questão.

Na ocasião, gostaria de manifestar o meu agradecimento ao Danilo por seu empenho na busca de solução para esse que começou como "O Mistério" e que, agora, já se traduz em vários "Mistérios".

Cordialmente,

Saulo von Randow Júnior

O abaixo assinado de que o Saulo fala está aqui. É só clicar.

domingo, 23 de dezembro de 2007

O estranho caso do teste pago

Nossa colega Alfa enviou seu currículo para uma agência e recebeu a proposta de fazer um teste. O teste era a revisão de um uma tradução automática de 22.000 palavras, no prazo de dois dias, por R$ 0,01 por palavra. Alfa descobriu que nossa colega Beta, sua amiga, tinha também enviado currículo para a agência e recebido proposta praticamente idêntica, com a diferença de que o texto a revisar era outro capítulo do mesmo livro. Desconfiada de que se tratava de uma trama para conseguir a tradução de um livro inteiro quase que gratuitamente, Alfa postou uma mensagem em uma lista de tradutores, gerando uma longa fieira de comentários. Até eu postei o meu, mas tive de abandonar a discussão porque estava atulhado de trabalho. Um dos comentaristas foi nosso colega Omega, que se identifica como proprietário da agência.

Estou usando nomes fictícios aqui não para proteger a identidade de ninguém, visto que a discussão foi mais que pública, com acesso fácil para os mais de dois mil assinantes da lista trad-prt. Quem não é assinante, pode se inscrever grátis e vai ganhar acesso quase imediato aos arquivos. Os nomes fictícios são para podermos restringir a discussão aos fatos, sem fulanizações.

Não enviar CV sem antes obter referências da agência solicitante foi uma das recomendações. O objetivo era evitar que agências mal intencionadas fizessem mau uso das informações. É inócuo: nossos CVs voam por aí, de mão em mão e eu já recebi mais de uma proposta de gente que tinha o meu sem que eu jamais o tivesse enviado a àquela pessoa. Sem contar o fato de que muitos de nós têm CV na Internet.

A remuneração do teste atraiu atenção por ser baixa. Reclamaram de um centavo por palavra. Entretanto, o que me surpreende é o terem oferecido remuneração. Por que alguém pagaria por algo que pode obter grátis? O mundo está cheio de gente disposta a fazer testes para tradutor sem ganhar nada. Será que a agência ficou boazinha, agora? Já deveria dar margem a uma que outra perguntinha.

O porte do teste é uma questão ainda mais interessante. Para dizer a verdade, acho que todo teste para o tradutor fazer em casa, grande ou pequeno, é bobagem. É mais que comum o candidato a emprego pedir "uma olhadinha" a um colega e o que a agência recebe é o teste do colega, não do candidato. Mas, enfim, as agências usam o teste como aquela famosa e provavelmente apócrifa história do homem que deu Sal de Fructa Eno para o filho que quebrara a perna: alguma coisa tinha que fazer e fez o que lhe era possível. Mas o porte do teste surpreende. Eu certamente recusaria um teste desses. Faço testes e a maioria deles fica em torno de 250 palavras, alguns um pouco maiores. Jamais fiz um teste de mil palavras. Maior que isso, nem pensar.

O tipo de teste é ainda mais estranho. A colega se candidatou a um lugar de tradutora, não de revisora, ao que tudo indica. E, mais que isso, não a revisora de tradução automática. O valor da tradução automática é questão controversa, mas podemos ter como certo que o sistema só funciona mesmo com textos de redação controlada, processados por programas de alta qualidade, devidamente "ensinados" por quem entende do riscado. Esses programas não se baixam com e-mule nem se compram no supermercado. Além disso, "ensinar" um programa desses é tarefa para cachorro grande. Revisar 22.000 palavras traduzidas automaticamente assim, a seco, em dois dias é tarefa hercúlea, uma verdadeira limpeza dos Estábulos de Áugias. Se a Alfa e a Beta, nessas condições, conseguem produzir algo que preste, são duas heroínas. Quer dizer, mais um motivo para recusar o teste.

A agência ia usar o resultado do teste? Não sei. Omega diz que ele tem lá seus métodos de selecionar tradutores e quanto a isso não deve satisfação a ninguém, no que está totalmente certo. Como ele seleciona tradutores é problema dele, não meu. Não gosto que se metam na minha vida, procuro não me meter na dos outros. Por outro lado, o tal teste era remunerado e, no meu entender, o pagamento, por pouco que seja, dá o direito de usar o teste como quiser, SALVO SE tiver explicitamente prometido não fazer uso comercial do material recebido. Na verdade, embora eu não saiba exatamente onde Omega queria ir, parece que tudo não passou de uma artimanha algo simplória para conseguir uma tradução barata. Há outras, muitas delas usadas por gente que a maioria dos tradutores consideraria honesta. Já mil vezes me pediram um desconto porque é o primeiro serviço e queremos testar sua capacidade, não tem fins lucrativos, o orçamento estourou, vai vir mais serviço depois, é para mim, é para minha tese e o que mais seja. Para mim, a agência que paga pouco por um serviço a pretexto de ser um teste não é nem melhor nem pior que os espertinhos acima – SALVO SE TIVER EXPLICITAMENTE GARANTIDO QUE NÃO VAI REUTILIZAR O SERVIÇO.

Mas, a bem dizer, simplória como é, quase funciona com a Alfa e a Beta e talvez tenha funcionado com outros. Espero que você escape dessas.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Por que eu tenho que pagar o pato?

Esta história aconteceu comigo, há muitos anos, mas ainda é exemplar.

Uma empresa me pediu para eu dar uma olhadinha numa tradução para o inglês, para ver se havia alguma coisinha a mudar, porque podia ter passado algum errinho de revisão. Era o tempo do papel-que-vai, papel-que-vem e, quando abri, em uma página a esmo, me aparece the refectory counts with natural illumination. O resto era do mesmo quilate. Liguei para o cliente e disse, na lata, que o serviço tinha de ser refeito e cotei o preço.

Fez aquele teatrinho normal, fingindo-se surpreso com o valor. Disse que não podiam pagar tanto, que já tinham pagado um tradutor, e pagado muito, não poderiam pagar de novo. Essa é uma das choradas mais batidas.

Achei que era hora de levar na gozação. Aleguei quem deveria pagar o meu trabalho era o funcionário que tinha errado ao contratar um incompetente para o serviço. O homem disse que era inviável. Como segunda opção, sugeri que ele não pagasse o primeiro tradutor, porque o serviço era inútil. Também inviável.

Finalmente, pedi para o homem imaginar o seguinte: você está dirigindo seu carro com todo cuidado e vê que o guarda está anotando a sua placa. Para, pergunta qual é o problema e o guarda responde que um maluco tinha passado pelo sinal vermelho a uma velocidade tal que não tinha dado para anotar a chapa. Como solução, estava multando o primeiro carro que passou tão devagar que ele conseguiu ler a placa.

Resumo da ópera: um incompetente contratou outro incompetente e queriam que eu pagasse o pato.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Microsserviços de tradução

Pipocou ontem uma discussão interessante numa das listas. Um colega recebe de um cliente o encargo de traduzir fragmentos de textos. O resto do texto já foi traduzido por alguém, não sei em que circunstâncias.

Do meu ponto de vista, o cliente tem o direito de distribuir o trabalho da maneira que acha conveniente. Se o cliente quer dividir o texto entre diversos tradutores, é direito dele. Se esse procedimento vai dar alguma vantagem, não me cabe julgar. Aparentemente, o cliente traduz internamente o mais fácil e encomenda do nosso colega os trechos mais difíceis. Poderia ser, também, que o cliente simplesmente quisesse a tradução de meia dúzia de parágrafos necessários para atualizar um documento, mas, ao que tudo indica, não é o caso do nosso colega.

Nosso colega não gosta muito do sistema. Por minha parte, estou tão acostumado que não me importo. Muito do meu serviço e do serviço de outros tradutores é traduzir partes de documentos.

Há mil razões para o cliente nos pedir a tradução de trechos isolados: pode ser uma atualização de um documento já traduzido, pode ser uma única cláusula de um contrato, para uso de um advogado. Pode ser, inclusive, como observa o colega, um "em casa a gente faz o fácil, o difícil a gente manda fazer fora". Não importa.

Quando recebo um pedido de tradução, levanto três questões. A primeira é ética: posso aceitar aquele tipo de serviço daquele cliente? Se puder, passo ao tempo: tenho como atender o cliente no prazo especificado? Se tiver, passo ao terceiro quesito: a que preço me convém aceitar o encargo? Essas três perguntas cabe exclusivamente a mim responder. Posso até consultar colegas, mas a decisão final é minha.

O problema de preço é crucial e muitos de nós começam a solução estabelecendo uma taxa mínima. Tanto por palavra, por lauda, por toque ou o que quer que seja, e o mínimo é X. Esse X deve corresponder a aproximadamente o ganho em uma hora de trabalho e é esse o mínimo que você cobra por qualquer pedido. Uma linha, que seja. Mais ou menos como a taxa de visita do eletricista ou encanador.

Isso vai estimular o cliente a agrupar os fragmentos e mandar coisinhas maiores. Se não estimular, tudo bem: traduzir duas linhas pela taxa mínima é mais que compensador.

Se o cliente mandar o filé para um tradutor menos experiente e os ossos para você, simplesmente ajuste suas tarifas. Sem problema, sem queixa, sem ressentimento. Sua tarifa normal é X, para textos de dificuldade média. Para textos de alta dificuldade, há um acréscimo de Y%. Todo texto fragmentário tem, por natureza, dificuldade maior e, ao enviar parte para um tradutor menos experiente e o resto para você, é o cliente que está dizendo que está te mandando os ossos, não o filé.

Se vai convir ao cliente continuar mandando linhazinhas soltas ou mandar o documento inteiro, não sei – nem é da minha conta. Dos negócios dele, sabe ele, não eu.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

E o que vale o meu diploma?

Numa faculdade, uma sala cheia de gente querendo saber como é isso de traduzir como profissão. Eu lá, dizendo as coisas que sempre digo, mesmo porque não tenho outras a dizer. Fala-que-te-fala, a lengalenga de sempre, uma voz irada se levanta lá do fundo: – E o nosso diploma, não vale nada?

Não sei se já contei essa história aqui. Tenho um arquivo dos artigos publicados e a história não está lá. Mas posso ter me equivocado. Paciência. Quem sabe publiquei e você não leu.

O bruaá na platéia indicava que estava se iniciando um daqueles famosos movimentos de revolta contra as pessoas que traduzem sem a devida qualificação profissional e tal. E eu, lá, que nunca fiz faculdade, deitando falação – que contradição, meu São Jerônimo! Os professores que estavam na mesa começaram a se coçar, o que indicava um tanto de mal-estar quanto à situação.

Respondi que o diploma, a bem dizer, não valia nada. No máximo, se bonito, poderia ornar uma parede. Para muito mais, não servia.

Irritação crescente, mãos de professores se estendendo para pegar o microfone e apartear, mas se contendo em tempo. Alunos de mãos crispadas. Gosto de viver perigosamente.

O que importava, na realidade, era o que se aprende na faculdade. Porque o diploma meramente certifica que você concluiu o curso com sucesso, o que não chega a ser de todo difícil. Cola-se, toma-se carona em trabalhos alheios, reciclam-se trabalhos antigos de outros alunos, coisas assim. Tive acesso a um grupo no yahoogroups onde a principal atividade era programar faltas coletivas, assim "ninguém saia prejudicado". Quando há falta coletiva, todos saem prejudicados. Tem gente que passa mais tempo no bar da esquina que na sala de aula. Claro, não são todos, eu sei e já sabia antes de você dizer.

O mercado não quer saber do seu diploma. O mercado quer saber se você agüenta o tranco. E o diploma não diz nada sobre isso. Digo mais, você pode ter certeza de que mesmo que tenha feito faculdade a sério, isso não garante que você vá agüentar o tranco. Só a experiência pode provar. Como diz o inglês, o teste do pudim é provar um pedaço.

Mas tenha certeza: se fizer a faculdade a sério, na melhor tradição CDF, suas possibilidades de sucesso vão ser muito maiores que a do pessoal mais esperto, que ficava no bar e só voltava à sala de aula quando o celular dava um toquinho. Faculdade é como bufê de restaurante: os pratos estão na mesa, você se serve. Fazer um bom prato e comer tudinho, sem deixar nada, é responsabilidade sua. Só o professor pode ensinar – mas só o aluno pode aprender.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O tradutor e o contrabaixo

Do ponto de vista do pessoal que faz música clássica, as vozes se dividem em soprano, meio-soprano, contralto, tenor, barítono e baixo. Soprano é a mais aguda. Os mesmos nomes são aplicados, com alguma liberdade, a famílias de instrumentos fabricados em diversos tamanhos, como os saxofones. Existem saxofones sopranino, soprano, alto, tenor, barítono, baixo e contrabaixo. Se você nunca viu ou ouviu um saxofone contrabaixo, clique aqui.

Tentaram fazer um sax subcontrabaixo, ainda maior e mais grave que o contrabaixo, mas não deu muito certo e essa história não importa para nós agora. Importa que contrabaixo é, de modo geral, o instrumento mais grave de uma família.

Muitas vezes, esses termos são usados, por metonímia (creio eu, nunca entendi muito bem essas coisas), em substituição ao nome inteiro do instrumento. Esse procedimento é comum: a gente fala em vestibular, não exame vestibular; os advogados falam em inicial, não em petição inicial; ou o gerente do banco fala em promissória, em vez de nota promissória. É necessário completar mentalmente: dizer que Coleman Hawkins tocava tenor, quer dizer que toca saxofone (ou simplesmente "sax") tenor.

Assim, o instrumento mais grave entre os arcos ficou conhecido por contrabaixo, do italiano violone contrabasso. Contrabaixo é aquele gigantesco violino que se toca em pé. O pessoal da música popular foi truncando para baixo e é comum dizer que Luís Chaves é o baixo do Zimbo Trio.

Contrabaixos são instrumentos problemáticos e alguém teve a idéia de construir um contrabaixo elétrico, que, a bem dizer, é um contrabaixo de guitarra, não de violino. Entretanto, muita gente que tocava contrabaixo passou para o instrumento elétrico e, hoje, baixo normalmente significa o instrumento elétrico, nos meios não-clássicos. Nesse caso, cada vez mais, o instrumento tradicional se conhece por baixo acústico. Quer dizer, o nome do instrumento tradicional ganha um apêndice esclarecedor. O nome do instrumento mais moderno dispensa o qualificativo, por ser o mais comum.

O mesmo está acontecendo conosco, os tradutores. Quando inventaram aqueles programas que traduzem, eles se chamavam tradutores eletrônicos, tradutores automáticos, programas de tradução ou coisa que o valha. Atualmente, viraram tradutores, como indica a quantidade de pessoas que cai aqui no blog em busca de tradutores, mas não quer saber nem de mim nem de você, mas sim de um programinha porreta que dê conta de uma tradução na hora, com perfeição e, claro, grátis.

Logo, logo, assim como já há músicos dizendo que tocam baixo acústico, vamos nós dizer que somos tradutores humanos. Ainda bem que somos humanos, não é?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Busdoor e quotaholder

Então, estava a turma reclamando da invasão americana. Isso, porque o barzinho tinha delivery e self-service. Por que não entrega em domicílio e auto-serviço? E logo veio alguém falando do tal busdoor, que sem ser português, também não é inglês, embora Oswald de Andrade provavelmente aplaudisse como exemplo de antropofagia. Aí, eu lembrei do tal do quotaholder, que é o ataque tupiniquim à língua inglesa.

Gozado como tantos tradutores brasileiros defendem essa gárgula lingüística com unhas e dentes. O número de pessoas que tentou me explicar a diferença entre ação e cota, como seu eu não soubesse, é enorme. Acham que, se temos duas palavras em português, havemos de ter duas em inglês. Mais ou menos como se, por termos salsicha e lingüiça, houvéssemos de ter em inglês sausage e linguosage, coisa assim.

Implico com o termo desde que comecei a traduzir, em 1970. Não está no Black's, nem em nenhum outro dicionário uma definição de quota que justificasse o tal do quotaholder. Quota existe em inglês, mas não significa cota no sentido de participação no capital social, mas sim no sentido de ração, limite quantitativo e, para quem não está acostumado com tupiniquinglish, quotaholder dá a impressão de que significa titular de uma cota/ração, mais ou menos como havia nos tempos de racionamento.

O argumento, entretanto, era imbatível: não há sociedades limitadas no direito anglo-americano e é importante usar um termo especial para indicar uma realidade totalmente brasileira. Jamais concordei. Achei que deveríamos proceder por analogia, mas, enfim, era uma coisa meio difícil de decidir.

Minha posição ganhou sustança com o advento das LLC - Limited Liability Companies, que são muito parecidas com as nossas Sociedades Limitadas, ambas inspiradas na GmbH alemã. Isso já é coisa do século passado, entenda. E os titulares de participações nessas sociedades são members, e os members são titulares de membership units ou até mesmo de shares, como neste documento da própria SEC, entre outros

Quando digo essas coisas, as reações dos colegas se dividem. Alguns concordam comigo, mas dizem continuar usando quotaholder, porque "os outros" não aceitariam a mudança. Ah, "os outros", essa conveniente legião de seres malignos, responsável por todos os erros deste mundo, cujos largos ombros tantas vezes carregam o peso de nossa própria inércia! Como se não fôssemos nós os outros dos outros! Outros colegas respondem com as duas mãos espalmadas, naquela posição clássica de orante, e respondem – Não, Danilo, mas pô!

E, pelo menos em São Paulo, mas pô! é o argumento final, irretorquível, aquele para o qual ninguém tem resposta.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Tradução é uma estiva

Tradução é uma estiva, acho que quem falou foi Ivan Lessa, no tempo da máquina de escrever – e era verdade. Podia ser fácil ou difícil, não importava. Tinha que bater aquilo tudo, letra após letra, página após página. Havia ainda os números, uma desgraça para nós, que traduzimos finanças. O corpo ficava moído: doía perna, doía braço, doíam costas, doía tudo. Além disso, sempre faltava um parágrafo no meio e a gente tinha que montar com tesoura e cola. Depois, era revisar, mexer e remexer, até ficar bom.

Dava dó, a sujeira que ficava. Precisava passar a limpo. Às vezes, quem passava a limpo era a secretária do cliente. Outras vezes uma datilógrafa autônoma. De um jeito ou de outro, tinha que revisar a datilografia e devolver para fazer as emendas. Um tempão para datilografar, um trabalhão para revisar, às vezes um dinheirão de datilografia – e o serviço era urgente.

Muito disso acabaria se eu usasse um micro. Por exemplo, poderia mexer e remexer enquanto traduzia. Depois era só imprimir. Nunca mais ia precisar passar a limpo. Eu sonhava com um micro, mas faltava dinheiro: computador era caro e impressora, caríssima.

Um dia, veio uma encomenda muito grande. Brincando, disse ao cliente que, no prazo que ele queria, nem com um computador: precisava de dois, um para mim, outro para minha mulher, que trabalha comigo. Depois, fui ficando tão entusiasmado, que ele acabou financiando as máquinas.

Fomos dos primeiros a usar computador e eu exibia orgulhoso os trabalhos feitos com MicroEngenho2 e Mônica. Hoje, quase todo tradutor tem micro e nós sonhamos trocar os 386 por 486 e a LaserJetIIIp por uma que imprima em cores – mas falta dinheiro. Não pagamos mais datilógrafa, mas o que gastamos de equipamento, programas e livros não é pouco.

O trabalho ficou melhor e mais fácil: é só digitar o texto, mexer e remexer sem dó, tirar os erros piores com o revisor ortográfico, imprimir, mandar ao cliente por fax, alterar o que ele pedir, imprimir de novo e entregar junto com o disquete.

Ficamos mais exigentes: antes, não tendo erros, chegava. Agora, passamos horas polindo estilos e diagramando balanços, até ficarem como queremos. O cliente também está mais exigente e acomodado: copia nosso trabalho diretamente em seu papel timbrado, para poupar custo e tempo. Por isso, pede para alterar a diagramação ou reimprimir meia dúzia de páginas porque quer mudar algum dado no original – e é urgente.

No fim do da, o corpo está moído, dói perna, dói braço, doem costas, dó tudo – e os olhos ardem. O micro mudou nossos métodos e nosso produto. Mas tradução ainda é uma estiva.

O texto acima foi escrito por mim e publicado pelo Estadão, no dia 2 de agosto de 1993, no Caderno de Informática, que então saía nas segundas feiras. Numa arrumação de papelada, topei com ele e achei que valia a pena reciclar aqui. Agora, 14 anos depois, não se manda mais serviço para aprovação via fax nem se entrega a forma final em disquete: vai tudo via Internet. Entretanto, no fim do da, o corpo está moído, dói perna, dói braço, doem costas, dó tudo – e os olhos ardem. O micro mudou nossos métodos e nosso produto. Mas tradução ainda é uma estiva.

sábado, 1 de dezembro de 2007

De estagiários e escraviários

O uso e abuso do trabalho de estagiárias apareceu em dois pontos de encontro virtuais que freqüento. A lei que permite contratar estagiários a um custo muito baixo facilitou a vida de muita gente, não só de quem precisava de um estágio de tradução para conseguir seu diploma.

Um estagiário não é simplesmente um tradutor "mais em conta". Um estagiário não é um tradutor. Entretanto, vemos empresas encarregando estagiários de tarefas que estão acima das capacidades de um estagiário e também da capacidade de um profissional experiente.

Algumas dessas empresas agem assim por ingenuidade. Muita gente subestima o trabalho de tradução e pensa que dar conta de 10.000 palavras por dia, cinco dias por semana – e sem erros, por favor – é absolutamente normal. Ou que traduzir textos xls ou ppt é coisa simples, só escrever por cima. Ou que a podridão computatória que ninguém mais aceita usar é mais do que boa para uma estagiária que "só digita texto".

Outras empresas simplesmente não estão interessadas em saber. Exigem, forçam: o problema, para elas, limita-se a ter o serviço pronto no prazo e ao menor custo possível. O resto que se dane.

A maioria dos estagiários não tem formação profissional nem experiência bastantes para explicar ao empregador quando a missão é impossível ou o que é necessário para viabilização. Aceitam de boa fé e, à medida que se atolam, vão percebendo que não vai dar certo. Mas mesmo que tivessem a capacidade para avisar antecipadamente, a maioria dos empregadores não está interessada em ouvir a opinião de estagiários. E assim vamos.

Você não é obrigada a fazer milagres em geral nem muito menos o milagre particular de explicar o que mal sabe a quem não quer ouvir. Faça o que puder, faça como melhor puder, aprenda o que conseguir e vá embora com a consciência tranqüila, procurar serviço melhor.

Por outro lado, se você caiu numa empresa onde o pessoal agiu de boa fé, bom, é a hora de se desdobrar e botar as coisas nos eixos, pesquisar, perguntar, tentar resolver os problemas, na esperança que, terminado o malfadado estágio, você ganhe uma efetivação. Se não vier a efetivação, pelo menos você aprendeu e fez amigos.

O primeiro indício de que o estágio é só uma forma de conseguir serviço barato é a falta de um profissional da tradução para supervisionar. Estagiário, de qualquer área, tem que ser supervisionado por profissional experiente da mesma área. Veja, por exemplo, o caso dos médicos residentes: são diplomados, é fato, e, portanto, não são estagiários. Mas, mesmo assim, se submetem a ganhar pouco para trabalhar com profissionais mais experientes e aprender muito. É um excelente investimento. O mesmo deveria acontecer com os estagiários de tradução. Se você for estagiar numa empresa onde não há um só tradutor ou onde seu supervisor é um monoglota vindo de outra área, relaxe, respire fundo e encare: provavelmente lá vem bomba. Mas não se desacorçoe, porque o estágio acaba logo e você, de um modo ou de outro, vai aprender muita coisa.