segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Trinta e cinco livros traduzidos e jogados no lixo!
O medo não se restringe ao pessoal que traduz livros, entretanto.
Tenho uma amiga, boa amiga, excelente amiga, mulher extremamente inteligente que, durante dois anos e meio, me explicou, ao menos uma vez por semana, porque esses programas não serviam para ela. Explicava com todos os pormenores e muita verve, porque inteligência não lhe falta. Demonstrava, por "a" mais "b", que o investimento não compensava. Eu sempre alegando que ela falava do que não sabia. Um dia, para me dar prova cabal da minha estultice, instalou WordFast (em demo, que é grátis) e começou a trabalhar, convicta de que se estivesse fazendo as coisas lá do jeito dela, à unha, no MSWord, tudo sairia melhor e mais rápido.
Hoje, anos depois, rimos da situação, porque hoje ela virou wordfasteira emérita.
Na verdade, a tradução literária exige menos dos programas de memória de tradução do que a técnica, porque tradutores técnicos muitas vezes lidam com problemas graves de diagramação, a que os tradutores de livros (não só os literários) estão normalmente imunes. Então, os tradutores de livros podem, em geral, se sair 100% bem sem nem saber o que é a praga do Trados TagEditor, uma maldição de satanás que aflige a muita gente que faz tradução técnica.
Um fato geralmente ignorado por quem NÃO usa memórias de tradução é que elas não obrigam o tradutor a nada. Ou calam, ou fazem sugestões baseadas no que o tradutor já agregou à memória. Neste caso, marcam as sugestões como tal e NÃO continuam a tarefa automaticamente, sem que o tradutor emende, revise e aprove a proposta. Quer dizer, a memória de tradução JAMAIS prejudica o trabalho, embora, em certas circunstâncias, possa não ajudar muito.
Outro fato pouco conhecido é que memórias de tradução trabalham com períodos, não com palavras, embora usem, também, glossários. Isto significa que o fato de que uma palavra estrangeira possa ter 12 possíveis traduções em português não prejudica em nada, porque o programa sempre trabalha com os contextos. Então, se você traduziu "the book is brown", como "o livro é marrom", ao aparecer "we will book into the hotel before lunch", o programa NÃO vai oferecer "livro" como tradução, porque o contexto é diferente. Mas vai sugerir "livro" se a frase for "the book is red", porque o contexto é semelhante.
(Observação da Kelli, compartilhada por outras pessoas: a primeira vez em que um período aparece já traduzido, quando vemos que a necessidade de modificar a tradução sugerida é pouca ou nenhuma, é emocionante e inesquecível. Só isso já compensa o valor pago pelo programa. — Comentário do Danilo à observação da Kelli: melhor ainda quado você fica com aquela lembrança de que um dia já traduziu uma certa expressãozinha de um jeito maneiro, mas não se lembra, consulta a sua memória de tradução e ela sai inteirinha de lá.)
Agora, posso dar um exemplo bem literário?
Imagine um tradutor de literatura, que traduza, digamos, duas mil palavras por dia, 22 dias por mês, onze meses por ano, o que não chega a ser um exagero. No fim de um ano de trabalho, terá traduzido 528.000 palavras, certo? Imagine que esse tradutor tenha usado memória de tradução. No fim de um ano, terá um corpus paralelo, nas duas línguas que traduz, de mais de um milhão de palavras (528.000 × 2 = 1.056.000), que pode consultar à vontade e que, evidentemente, vai aumentando dia a dia, à medida que o tradutor trabalha. Agora, pergunto eu, quem acha um corpus desse inútil? É certo que se você processar um novo livro contra a sua memória, vai aparecer muito pouco: dificilmente vão aparecer períodos iguais ou semelhantes. Mas a possibilidade de consulta a traduções antigas, a soluções dadas em momentos anteriores, é preciosa.
Uma vez, dei um curso de WF para um professor de tradução que também traduzia literatura para algumas editoras. Depois de uma hora, ele exclamou "35 livros traduzidos e jogados no lixo", porque se deu conta do valor desse corpus.
Para terminar esta lengalenga entusiasmada, cabe lembrar que os programas de memória de tradução também sofrem muito pela confusão com os de tradução automática, que são coisa bem diferente, e com a impressão de que a única coisa que fazem é criar e processar memórias de tradução. No princípio, de fato era. Mas, agora, todos eles fazem muito mais que isso.
Ah, sim, se você receber o livro em papel, vai ter que digitalizar – e tem muita gente que acha que o trabalho compensa. Mas, aos poucos, muito aos poucos, as editoras estão começando a mandar os textos em MSWord. No devido tempo, vão mandar os arquivos de Quark, InDesign e PageMaker. Aí, quero ver.
Um conselho final: eu, particularmente, acho Wordfast a melhor porta de entrada no mundo dessas ferramentas, mas tem gente que detesta. Por exemplo, temos um colega, tradutor literário de primeiríssima linha, que acha WF péssimo, mas adora MemoQ (um excelente programa de que eu também gosto muito). Outros se ajeitam melhor com DVX ou até Trados, de que não gosto. Cabe a cada um de nós fazer uma pesquisa, testar um programa e depois o outro, antes de escolher. Mas não vá dizendo assim, logo de cara, que não serve para nada. Era isso o que diziam os cocheiros quando viram o caro sem cavalos.
Esta nota se baseia em uma resposta do Danilo a uma pergunta postada em uma lista de discussão. Passou, depois, pelo crivo de Kelli Semolini.
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Memória de tradução (“CAT”)
Outro dia, no meio de uma discussão em uma lista, um colega me escreveu, particularmente, perguntando o que era uma memória de tradução, o que também se conhece pelo nome inglês CAT, abreviatura de computer-aided translation. Respondo por aqui, e assim dou um pouco de vida a este blog, que não anda lá muito bem das pernas.
Para começo de conversa, memória de tradução é um péssimo nome, isso é o que é. E, para piorar, tem pelo menos dois sentidos.
A rigor, uma memória de tradução é um corpus paralelo. Ou seja, um arquivo em que são armazenados textos em duas línguas, um ao lado do outro. Os formatos variam, mas, digamos, só para explicar a quem não sabe, algo assim:
The Chemistry book is red. O livro de química é vermelho. London is the capital of England Londres é a capital da Inglaterra.
As memórias de tradução armazenam segmentos. Um segmento corresponde, aproximadamente, a um período, como definido pela gramática. Assim, preserva-se contexto. Todos nós sabemos que book também é o verbo reservar (passagem, por exemplo, mas, no exemplo acima, não pode ser reservar, porque o contexto não permite.
Para trabalhar com esses bancos de dados, é necessário um programa especial, que, lamentavelmente, também é conhecido como memória de tradução, embora programa de tradução assistida por computador fosse mais preciso. À medida que você trabalha com um desses programas, ele vai automaticamente alimentando o seu banco de dados com as traduções que você vai fazendo e, ao mesmo tempo, pesquisando o banco para ver se há alguma informação que possa ser útil. Se encontrar alguma coisa interessante, faz uma sugestão ou mais. Costumam ser boas sugestões, porque as memórias de tradução, como eu disse, consideram o contexto. São sugestões, quer dizer, você pode mudar como quiser ou até desprezar.
Os programas de memória de tradução fazem muitas coisas mais. Por exemplo, consultam glossários automaticamente, facilitam o trabalho de manter a formatação, ajudam com números e prestam inúmeros outros serviços. Além disso, traduzir arquivos em formatos xml, html e outros bicharocos sem essas ferramentas é praticamente impossível.
Há muitos enganos e mal-entendidos a respeito dessas ferramentas. O primeiro e pior é a confusão com as ferramentas de tradução automática, tipo Babelfish. São coisas diferentes, com objetivos diferentes, tecnologias diferentes e resultados diferentes.
Cada vez mais, os tradutores profissionais usam esses programas de tradução assistida por computador. Começou com a turma da tradução técnica, sempre mais novidadeira. Mas agora, depois de grande resistência, até a turma da literária, que sempre foi mais conservadora, está descobrindo que facilitam a vida do tradutor.
Uso essas coisas desde 1997 e fizeram uma grande diferença na minha vida. A ferramenta mais conhecida é o Trados, mas a minha predileta é o Wordfast, que é mais eficiente e mais barata. Para saber mais sobre essas coisas, clique aqui.
E, aliás, aproveito para convidar para a Reunião na Sala 7, um evento grátis e a distância, para tradutores e pretendentes a tradutor. Ninguém vai ficar tentando te empurrar curso pago nem livro nem nada. É só uma discussão entre colegas.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Mais uma que acha que não precisa de memória de tradução
Sei que sou aguda na hora da crítica mas eu consigo traduzir mais rápido do que passar por essa manipulações eletrônicas...WF + Google Translate + revisão + glossário...o Tempo que isso leva...já ganhei a corrida. A maioria das vezes tradução para mim é "bater" a máquina...Ja-ne...
sexta-feira, 1 de dezembro de 2006
Resposta: que é "memória de tradução".
Colega, em comentário, pergunta o que é “memória de tradução”.
Memória de tradução tem dois significados.
- Um repositório pesquisável (a) das traduções que fizemos usando um programa apropriado e (b) de outras traduções convertidas para o formato apropriado pelo uso de um programa especial, num processo que se chama alinhamento. Esse repositório é o que o pessoal da lingüística de corpus chama corpus paralelo.
- Um programa que, entre outras coisas, cria esses repositórios e vai adicionando a eles material à medida que vamos traduzindo e, ao mesmo tempo, automaticamente consulta esses repositórios em busca de informações úteis para o tradutor.
O meu repositório, tem mais de 10 milhões de palavras. Imagine o tesouro que tenho para fins de pesquisa.
O programa mais conhecido desse tipo é o Trados, mas eu, e muita gente mais, acha que a popularidade do Trados é mais fruto do bom marketing do que da qualidade de programa. A meu ver, o Wordfast é muito superior e, ainda a meu ver, é saber usar programas de memória de tradução, principalmente Trados e Wordfast, é tão absolutamente essencial para o tradutor quanto saber usar um estetoscópio é essencial para o médico. Acho extraordinário, inclusive, que uma escola superior conceda diplomas de tradutor a alguém sem lhe ensinar a usar essas coisas.
Antes que me esqueça, duas informações importantes: primeira, que quando você usa programa de memória de tradução, é você quem traduz, não o programa. O programa busca e oferece sugestões, mas não traduz nada; segunda que Trados, Wordfast, DéjàVu e seus concorrentes fazem muito mais que gerenciar memórias de tradução.
Por fim, para dar um exemplo extremo, mas por isso abrangente, e que vai responder muitas perguntas antes que sejam feitas: se eu soubesse russo e fosse traduzir Guerra e paz para o português, certamente usaria um programa de memória de tradução.
Amanhã tem mais.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Onde Baixo Memórias de Wordfast?
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Serviços repetitivos
Começou lá no Orkut uma bela discussão, em cima de um texto do Stephen Kanitz sobre casamentos duradouros, que foi falsamente atribuído ao Arnaldo Jabor e me levou a uma observação de natureza conjugal-tradutória. Aqui, vou deixar de lado o aspecto conjugal da história e me dedicar ao tradutório, que é disto que trata (ou deveria tratar) este blog.
Muita gente se queixa que tradução técnica é repetitiva, que é chato demais fazer todo dia a mesma coisa, que as áreas não-técnicas são menos chatas.
Depende um pouco da situação, claro. Porque existe muita literatura de massa que segue moldes altamente repetitivos. Durante muitos anos li Perry Mason e a quantidade de repetição é espantosa, Bianca, Sabrina e Júlia deve ser ainda mais repetitivo. Mas, de modo geral, há que concordar que os textos financeiros que traduzo há quase 40 anos guardam entre si grande semelhança. Com o tempo, a lei (textos financeiros dependem muito de legislação: muda a lei, muda o texto) e as modas, foram mudando, mas, mesmo assim, ainda encontro expressões com que topei na minha primeira semana de tradutor.
Mas, note, os textos são repetitivos, o que não significa que as traduções devam ser. Muito do que aprendi sobre técnicas de tradução vem, exatamente, do ter traduzido mil vezes as mesmas coisas.
Da mesma forma que a cada vez que você revisa uma tradução aparece uma solução melhor para o mesmo problema, a cada vez que eu traduzo, de novo, uma frase cujo esqueleto já traduzi mil vezes, tenho uma chance de apurar a forma, testar novas soluções. Um processo absolutamente contrário ao de muitos colegas que dizem ter aprendido com a variedade de textos, com o em um dia traduzir um filósofo e no outro traduzir literatura erótica.
Ensinei inglês muitos anos e, às vezes, ainda penso como professor de inglês, vendo os meus textos repetitivos como um tipo de pattern drill em que se repete, à saciedade, um padrão sintático, com o objetivo de melhorar a cada repetição. É mais ou menos assim que vejo as minhas repetições.
Em suma, a repetição pode existir no original, mas não é obrigatória na tradução. Tradução não se repete: melhora-se. Cada sugestão da memória de tradução é um desafio que me ri na cara e diz: Vai, melhora o que você fez antes! Você não diz que é tradutor? Então? E a cada vez que não consigo aperfeiçoar uma tradução antiga, me sinto um derrotado.
Quer dizer, coincidências totais, os famosos e famigerados 100% matches, existem somente na memória de tradução. Mas quem diz que memória de tradução tem cérebro? Ou coração?
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Ferramentas de tradução e descontos por repetições
De vez em freqüentemente, repipoca em algum lugar a discussão sobre ferramentas de tradução e descontos. Entre discursos acalorados e afirmações sem fundamento, gasta-se muito palavrório, embora poucos entendam como funciona o processo.
Vamos ver se consigo jogar alguma luz sobre o assunto.
As agências que exigem descontos por repetições normalmente pagam por palavra. Então, mandam para nós um texto de, digamos 10.000 palavras e, feitos os cálculos das repetições (que o Trados faz sozinho) afirmam que há, digamos, 3.000 repetições e que, portanto, vamos receber somente o pagamento por 7.000 palavras.
É bom ter em mente que, embora o preço seja tratado em termos de palavras, todos os programas de memória de tradução, incluindo o Trados, baseiam o cálculo das repetições segmentos, que são períodos, não palavras. Quer dizer, quando a agência diz que o Trados diz que há 3.000 palavras em repetições, o que se está dizendo é que há uns tantos períodos repetidos e que as palavras encontradas nesses períodos somam 3.000.
Quer dizer, das 10.000 palavras do texto, 650 são you, mas isso não conta como repetição. Porém, se o texto tiver 50 segmentos, quer dizer 50 períodos que digam, exatamente you are here! (por exemplo, em legendas para mapas daqueles que se usam no shopping), são 49 repetições de um segmento de 3 palavras, algo que, trocado em miúdos, significa 147 palavras. A isso, se chamam repetições internas. Uma vez que você tenha traduzido a primeira vez, as outras 49 são postas no texto automaticamente, sem interferência sua. Por isso, a agência não quer pagar.
Existem também as repetições externas, quer dizer, material que a agência já tinha na base, de traduções anteriores. Se o you are here! já tinha sido traduzido antes, então vai ser colocado automaticamente no texto que vem para você e o programa de tradução passa batido. Por isso, a agência não que pagar. Nesse caso, como já vêm os 50 traduzidos, são 150 palavras descontadas.
Existem, também, as correspondências parciais, o que se chama em inglês fuzzy match. São casos onde a memória tem this is a red book > isto é um livro vermelho e o seu texto tem this is a blue book, caso em que o programa coloca automaticamente isto é um livro vermelho e marca o vermelho de tal forma que você sabe que ali é necessário fazer uma alteração. Nesse caso, a agência exige um desconto sobre o preço total do segmento. Como o segmento tem 5 palavras e você tem que mexer em uma, geralmente te descontam 3 e pagam 2, aproximadamente.
Isso, a agência faz com a memória que tem lá. Me mandam o texto pré-traduzido, quer dizer, com tudo o que conceguiram tirar de sua memória, eu processo aqui em casa, usando, inclusive, a minha própria memória, de onde sai muita coisa interessante. Mas, pelo que eu achar na minha memória, não dou desconto algum.
É claro que a tradução pronta vai ser agregada à memória da agência. Mas a minha memória, que tem mais de 500.000 segmentos, é minha e daqui não sai. A agência recebe, exclusivamente, a pequena parcela que foi usada no serviço deles. Por outro lado, toda a tradução que eu faço, para quem quer que seja, vai intergralmente, para a minha memória.
Para entender melhor como funciona isso tudo, gosto de usar a metáfora do eletricista. Você contratou um eletricista para fazer a instalação elétrica de sua nova casa e pagou o serviço prestado. Tempos depois, agrega um puxadinho à casa e chama o eletricista de novo. Ele cobra pelo serviço de puxar fio para o puxadinho e quejandos. Mas não vai cobrar pela fiação toda da casa de novo. Quer dizer, pode até tentar, mas você não vai pagar.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Professor pode fazer tradução? E grátis, ainda por cima?
Desde 1970, me dedico inteiramente à tradução e é como profissional da tradução que venho meter meu bedelho aqui na conversa.
Existem bons e maus tradutores, como há bons e maus professores, cozinheiros, advogados, encanadores e solistas de sacabuxa. Quer dizer, entregar uma tradução a um tradutor, em vez de a um professor, não é assim, garantia de que o serviço vá sair com qualidade total e perfeita. E, principalmente tratando-se de um trecho pequeno, é até bem possível que um professor possa se sair bem. Como também pode se sair bem como tradutor bissexto de poesia.
Por outro lado, haverá mais que um excelente professor que dê com os burros n'água para traduzir um texto qualquer. Ensinar e traduzir são atividades diferentes e gente muito bem-sucedida numa pode ser um fracasso na outra. O mesmo se estende a profissionais como secretárias e recepcionistas bilíngües.
Muitos tradutores foram professores antes de serem tradutores e, quando empreenderam sua primeira tradução, ainda não eram tradutores, se me faço claro. Por alguma porta temos que entrar e os únicos que podem reclamar de fato são os bacharéis em tradução. Mesmo eu dei as minhas aulinhas lá pelos tempos do Castello Branco e, quando "peguei" minha primeira tradução, não tinha uma noção muito boa do que ia fazer. Quer dizer, não me acode o direito de reclamar se algum dos professores aqui se decidir a aceitar o serviço.
Nem vou me sentir prejudicado. O que prejudica a profissão não são os professores que traduzem uma dúzia de linhas para um colega, seja cobrando ou não. São os figurões do magistério e das letras que traduzem livros inteiros grátis ou a preço vil para as editoras e ainda passam por benfeitores da comunidade.
O que me distingue — enquanto tradutor profissional — dos tradutores eventuais e bissextos é a minha dedicação preferencial à tradução.
Enquanto que mais de um dos professores aqui da casa poderia traduzir vinte linhas numa tarde de domingo, para ajudar um colega, é necessário um profissional para encarar certas tipos de trabalho e prazos. Por exemplo, recentemente passei meses traduzindo documentos em xml usando Trados TagEditor em uma memória de tradução residente em um servidor que estava em Zurique. É possível que a maioria dos leitores da lista CVL nem entenda o que eu disse no período anterior.
Mas não é só isso: traduzir vinte linhas num dia é uma coisa, traduzir vinte mil palavras em uma semana é outra, bem diferente — e coisa para profissional. Traduzir aquilo de que se gosta pode ser até divertido; traduzir o que é necessário é coisa para profissional. Traduzir um artigo científico pode ser uma aventura intelectual de primeira linha. Ter prazer em traduzir 100.000 palavras de um relatório anual de um banco, porque toda tradução é um desafio e um prazer, é coisa para profissional. Traduzir uma grande obra literária pode ser uma festa, traduzir livros de auto-ajuda, porque é preciso, porque tem muita gente que lê essas coisas e se escora nelas para agüentar a vida, é coisa para profissional.
Quer dizer, eu traduzo porque, para mim, traduzir em si, qualquer coisa que seja, é uma festa. Hoje em dia, só traduzo finanças, mas isso foi o que me aconteceu, não a minha escolha. Se as voltas do mercado tivessem me encaminhado para outra área, trabalharia com o mesmo prazer.
Quanto ao trabalhar de graça, desculpe, mas eu não traduzo de graça e também não aceito que trabalhem de graça para mim. Quando quero um serviço, primeiro trato preço, depois autorizo. Ajudo muito os colegas, com artigos, palestras e mesmo com o meu blogue, mas tradução só faço a pagamento. É o que dizia a Cacilda Becker: não me peça para fazer de graça a única coisa que tenho para vender. Havia um Código de Ética do Tradutor que proibia trabalhar grátis para quem pode pagar.
Não acho nada de errado um professor traduzir vinte linhas grátis para um colega: o que ele tem par vender são aulas, não tradução. Mas eu, que sou profissional da tradução, não traduzo grátis. Posso até explicar o uso de um tempo verbal em inglês, assim, na base do passei, cinco minutos, dei a explicação. Mas se um professor começar a dar aulinhas grátis, vai formar fila porta da casa dele.
Nunca entendi, por outro lado, porque estudantes e acadêmicos querem descontos ou trabalho grátis. Quem vai fazer intercâmbio não pode pagar tradução? Ué, tem dinheiro para a passagem de avião mas não para pagar tradutor? Tese não tem objetivos econômicos? Claro que tem! Defende tese, vira Dr., ganha mais na faculdade. Está investindo no seu futuro! Então, invista o seu dinheiro, não o meu. Porque, quando trabalho grátis, estou deixando de ganhar dinheiro fazendo serviço remunerado, que não me falta. Por que raios o dinheiro sempre acaba cinco minutos antes de chegar a hora de pagar o tradutor?
Outro dia, veio aqui um vizinho com um texto de medicina, de, creio, umas boas 50.000 palavras, de que ele precisava com urgência. Ajuntou que "era para a faculdade" algo que, traduzido assim, no popular, significava "não quero pagar". Quando respondi que aquilo significava 15 dias de trabalho e que, durante esses quinze dias, ele iria ter que pagar todas as despesas da minha casa, inclusive os custos tremendos de um tratamento de saúde que minha mulher fazia na época, virou as costas e foi embora, zangado comigo. Paciência, assim é a vida.
Alguém aqui comentou "que custa fazer grátis?" Aqui, há que fazer à moda jesuíta e responder com outra pergunta: "que custa pagar?" Porque fazer grátis custa tanto para mim quanto pagar custa para o outro.
A bem dizer, quando se faz grátis a alguém algo por que se poderia cobrar (no caso, o tempo que o tradutor gastaria na tradução), estamos reduzindo nossos próprios rendimentos. Quer dizer, se eu faço uma grátis uma tradução pela qual normalmente cobraria cem reais, estou reduzindo minha renda em cem reais, dando a essa pessoa, tirando da minha família, o valor de cem reais. Por que eu devo fazer essa doação? Essa pessoa realmente precisa do meu sacrifício?
Não é tanto sacrifício assim? Bom, se é pouco dinheiro, uma miséria, um nada, que não vai fazer diferença no bolso de ninguém, porque, então, não me podem pagar?
segunda-feira, 14 de maio de 2007
As agências e os descontos por repetição (continuação)
Para explicar o problema, gosto de contar a história do eletricista. Você constrói uma casa, contrata um eletricista para a instalação toda. O cara faz, você paga. Dois anos depois, você faz o puxadinho e chama o eletricista para fazer umas extensões. Imagine se ele dissesse "desculpe, tem que fazer tudo de novo." Pimenta nos olhos dos outros, é colírio, como todos sabemos.
Esses reaproveitamentos sempre existiram. Antigamente, era na tesoura e cola. Agora é na base da memória de tradução. Tem suas vantagens: mil vezes traduzir usando memória de tradução do que enfrentar aquela meleca xerox de texto em inglês recortado e misturado com texto em português, cheios de riscos que me mandavam antigamente. E um dos meus clientes agora se converteu à memória de tradução. Antes, me mandava arquivos pdf imagem cheios de rabiscos. Agora manda um rtf maneiro pré-traduzido. Aleluia!
As agências não pagam ao tradutor as repetições do que for encontrado na memória delas. Por isso, o tradutor passa batido e nem olha o que está escrito. Mas o revisor é pago e deve corrigir os eventuais erros. Passa erro? Sim, passa, mas isso é falha do tradutor anterior, certo?
Agora, com licença, chega por hoje. Amanhã tem mais. Sábado tem Wordfast avançado.
terça-feira, 7 de novembro de 2006
Tradução de autor brasileiro para o inglês
Antes da palestra que ia fazer para os alunos de uma faculdade, estava fazendo conversa social com os professores. Uma me contou, orgulhosa, que estava fazendo mestrado ou doutorado, não me lembro, em literatura, e seu tema era um determinado autor brasileiro. No seu entusiasmo pelo assunto, contou que inclusive tinha encarregado seus alunos de traduzir alguns trechos desse autor para o inglês, como trabalho do semestre.
Acho que ocultei bem minha surpresa perante a absoluta inutilidade de fazer alunos de bacharelado em tradução numa faculdade brasileira traduzirem literatura brasileira para o inglês. A chance de algum tradutor brasileiro ser convocado para uma tarefa dessas é próxima de zero. A pouca literatura brasileira que se traduz para línguas estrangeiras é sempre traduzida por falantes nativos da língua de chegada. Essas traduções são sempre publicadas por editoras estrangeiras e, no exterior, tem-se como norma que cada um traduz exclusivamente para a sua própria língua. Conheço raríssimas exceções a essa regra.
Tradução técnica, comercial e jurídica para o inglês, faz-se muito, aqui no Brasil mesmo, por falta de falantes nativos que se encarreguem do serviço, mas isso não parecia importante para os professores. A literatura, para eles, era a mais elevada manifestação do espírito humano e, portanto, era dela que a faculdade tinha de se ocupar.
A tradução literária para uma língua estrangeira num estabelecimento de ensino brasileiro somente vale se for feita como exercício para procurar construir uma sintaxe contrastiva, a ser usada para melhor traduzir do inglês para o português. Mas não era isso o que estava acontecendo. Os alunos estavam sendo conduzidos a imaginar que algum dia eles iriam estar alegremente traduzindo os clássicos da nossa literatura para o inglês. Durante a palestra, confirmei minha suspeita de que o inglês da turma deixava a desejar, o que tornava o exercício ainda mais inútil: tanta coisa a aprender, e eles ficavam lutando com o estilo complicado de um autor regionalista, com seus dialetalismos todos.
Mas, antes de começar a palestra, perguntei se havia algum treinamento em uso de programas de memória de tradução, que, afinal de contas, são ferramentas cada vez mais essenciais para os tradutores. Olharam-me como se eu tivesse dito algo de impróprio e deixaram claro que, para eles, essas coisas eram irrelevantes, de certo modo indignas de um estabelecimento de ensino superior dos sérios, como aquele. Se não fossem tão educados e formais, teriam me mandado lavar a boca.
Podia ser pior: em outra faculdade, na mesma época, usavam PowerTranslator e diziam que era ferramenta de memória de tradução.
domingo, 25 de novembro de 2007
Etapas da tradução
Muitas das idéias para este blog começam nesta comunidade simpática do Orkut. Está lá rolando uma conversa interessante sobre as etapas da tradução. A conversa é entre tradutores, gente que tem calo no dedo de tanto digitar.
Quase todos usam ferramentas de memória de tradução. Uma boa parte usa Wordfast, alguns usam Trados, um pequeno grupo está se enfronhando no MemoQ2, que ainda é novidade e ainda está um pouco cru, mas parece que vai ser um grande programa. Quem traduz livro, está, inclusive, digitalizando o texto para poder usar essas ferramentas. Bom para eles.
O processo de traduzir tem de ser eficaz e eficiente. Quer dizer, tem que alcançar o efeito desejado com a maior economia de meios possível. Temos de apresentar a melhor tradução possível dentro do prazo que temos e esse prazo é sempre menor do que queremos. Por outro lado, se não tivéssemos prazo, a tendência seria ruminar cada parágrafo séculos. Quer dizer, até os prazos apertados têm lá sua utilidade. Além disso – e não é bom esquecer – tradução é meio de vida e, independentemente de prazo que os clientes nos dêem, temos que traduzir tanto por mês para sobreviver. Então é fazer o melhor possível, no menor tempo possível. Exige muito de nossa capacidade.
A primeira fase do trabalho depende do assunto. Pode ser coisa que eu conheça bem, como finanças, ou coisa que eu não conheça. É raro, nos dias de hoje, aceitar algo fora da minha área, mas relatórios financeiros muitas vezes tratam de assuntos que eu mal conheço. Outro dia, por exemplo, peguei um que tinha páginas e páginas sobre mineração. Espero poder escrever outro dia sobre o que fazer quando não se conhece o assunto. Mas hoje, o foco é na tradução, propriamente dita.
Parece que a maioria dos veteranos, inclusive eu, usa um sistema de três etapas. Tradução, cotejo e leitura sem cotejo. Traduzir é sempre a primeira etapa, mas a ordem das outras duas varia. Alguns, como eu, preferem primeiro cotejar a tradução com o original, para ver se dizem a mesma coisa, se houve alguma distorção evitável, e, por fim, uma vez satisfeito de que original e tradução dizem a mesma coisa, lêem a tradução sem cotejo, para ver se flui bem ou se há ainda contaminação da língua de partida. Outros preferem inverter: ao terminar a tradução, lêem sem cotejar, para eliminar as contaminações e, por fim, cotejam para ter certeza de que as alterações introduzidas na leitura sem cotejo não distorceram a tradução.
Embora eu coteje primeiro, não tenho certeza de ser essa a melhor solução. Mas tenho certeza de que as três etapas são necessárias.
Dependendo do caso, pode haver ainda uma leitura de provas de impressão.
Além disso, cada vez mais capricho na primeira fase. Houve época em que eu traduzia de qualquer jeito e acertava na revisão. Com o tempo, mudei. Agora, traduzo com todo o cuidado, para minimizar a revisão. Faço de conta que nem eu nem mais ninguém vai revisar meu trabalho. Não é verdade, porque todos os meus trabalhos são revistos por mim ou pela minha mulher e, muitos deles, ainda por um revisor externo, mas é uma ficção que, ao que me parece, está sendo útil.
quinta-feira, 23 de novembro de 2006
WordFast, Trados, DéjàVu, StarTransit...
Não me canso de dizer que o domínio das ferramentas de tradução assistida por computador é essencial para o tradutor. As exceções são poucas, muito poucas. Por exemplo, não dá para usar essas ferramentas para dublagem e legendagem. Mas o resto, fica melhor e mais fácil com elas. Não importa se você traduz inglês, alemão ou turcomano; se faz técnica, literária ou religiosa: funciona do mesmo jeito e ajuda muito.
Mas é importante não confundir ferramentas de tradução assistida por computador com ferramentas de tradução automatizada.
Ferramentas de tradução assistida por computador são programas como Wordfast, Trados, DéjàVu, StarTransit e mil outros que ajudam o tradutor em suas tarefas. Para mim, trabalhar sem elas é como apertar parafuso com faca de cozinha. São chamadas, muitas vezes, de ferramentas de memória de tradução, mas esse é um nome enganoso, porque dá a entender que a única coisa que eles fazem é tratar de memórias e repetições, o que não é verdade.
Tem muita gente que diz que é bobagem, que na área deles ou para o par de línguas que traduzem não ajuda nada, mas e mera falta de conhecimento ou medo da mudança. A pressão pelo uso desses programas aumenta constantemente e logo vai ser impossível viver sem eles.
Não acredita? Então espere. Quando eu comecei, tinha gente que dizia que não precisava de máquina de escrever, porque era tradutor, não datilógrafo. Depois vieram os que diziam que quem sabia escrever à máquina direito não precisava de computador. Depois vieram os que diziam que não precisavam dessa coisa de Internet. Hoje, dizem que não precisam de ferramentas de tradução assistida por computador.
Do outro lado, há os programas de tradução automática, tipo BabelFish e PowerTranslator, que procuram substituir o tradutor. Mesmo os melhorzinhos deles ainda têm graves limitações e há mais de 30 anos que estou ouvindo dizer que tem aí um programa que está para sair que vai acabar com os tradutores. Quando sair, aí eu acredito.
Obrigado por ter lido este comentário. Comente, se quiser, e volte amanhã, que tem mais.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
Formação profissional do tradutor
É rara a semana em que não me escreve alguém perguntando sobre cursos. Como se eu soubesse a resposta! Conheço um que outro curso, outro dia falei aqui de um curso da UNESP, em Rio Preto; devo ter mencionado o curso da Alumni em São Paulo, que goza de excelente reputação e tal, mas certamente deixei de lado excelentes cursos e teria sido melhor se eu não tivesse dito nada. Não sou conhecedor de cursos. Não tenho envolvimento algum com o setor acadêmico nem tenho formação acadêmica alguma: quer dizer, é a pergunta certa para a pessoa errada. Além disso, o que é um bom curso para um será um curso inadequado para outro. Por isso, fazer uma recomendação aqui seria arriscado.
Se você tem dúvidas desse tipo, a melhor coisa a fazer é clicar aqui e ver o que a comunidade dos tradutores do Orkut recomenda. Ao contrário da maioria das outras comunidades do Orkut, esta é séria está sempre disposta a ajudar. Leia com atenção os dois ou três tópicos sobre cursos e ressuscite um deles, se quiser. Se você não sabe, no Orkut há várias comunidades de tradutores e sobre tradução, mas essa aí do link acima é a quente.
Lembre, entretanto, que:
- O curso bom para você não é necessariamente o curso que foi bom para outra pessoa.
- Nenhum curso é completo. Há muita coisa que nenhum ensina e você vai ter que aprender ou em outro curso ou na prática. Por isso, não pense que, ao sair da escola, você está pronto para o que der e vier.
- Nem só nos cursos se aprende a traduzir. Não fique reclamando aí que tem gente sem curso de bacharelado fazendo tradução e isso é uma vergonha. Pelo menos onde eu estiver ouvindo, para não me deixar triste.
O mercado exige cada vez mais de nós. Antigamente, para ser tradutor, você precisava saber bem sua própria língua e uma língua estrangeira e ter uma boa cultura.
Aos poucos, o pessoal foi se dando conta de que havia uma coisinha chamada técnica de tradução e que não bastava saber bem duas línguas, era necessário saber traduzir, o que era uma coisa diferente.
Houve época em que tradução era coisa que se fazia nas horas vagas e as traduções técnicas eram feitas pelos técnicos na área. Hoje, com a profissionalização do mercado, cada vez mais as traduções técnicas, ficam na mão de tradutores, o que significa que os tradutores têm que adquirir conhecimentos específicos em disciplinas alheias à tradução. Ou, reduzindo a uma frase mais inteligível, significa que gente como eu teve de aprender um bocado de contabilidade para escrever pouca bobagem.
Finalmente, cada vez mais temos de conhecer informática: programas de memória de tradução, formatos esquisitos e quetais. Mesmo a turma da legendagem agora usa intensamente programas especializados. Creio que o último bastião da tradução feita sem software específico ainda é o serviço para dublagem. Cada vez mais, nas outras áreas, o conhecimento de programas de tradução assistida por computador e formatos esquisitos é pré-requisito. Não vai demorar muito, e as editoras vão acordar, exigindo que seus tradutores trabalhem em cima dos arquivos InDesign e devolvam arquivos do mesmo tipo.
Você duvida? Pois é, também – e não há tanto tempo assim – duvidavam que alguém fosse pedir arquivo eletrônico em vez de aceitar tradução em papel e conheço muita gente boa que jurava que jamais ia comprar computador.
Por hoje é só. Escrever é bom, mas trabalhar é indispensável. Até amanhã. Não se esqueça da Reunião na Sala 7, amanhã.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Tradução Automática
O assunto de hoje é que outro dia me apareceu isto pela frente e queria mostrar aqui. Um horror, certo? É serviço do Google Translate, caso você não tenha percebido. Agora, pouse o cursos em cima de uma frase qualquer e veja o que aparece.
Um convite para apresentarmos uma tradução melhor, certo? Quer dizer, querem que a gente faça tradução grátis para a loja de calçados, uma entidade comercial com fins lucrativos, entendeu? Nós trabalhamos grátis para eles pouparem despesas. Deu raiva? Em mim também. Confesso que aproveitei a chance e colaborei com várias sugestões escabrosas, das quais espero que eles façam bom uso. Não foi uma coisa assim, digamos, muito cristã. Mas, de vez em quando, ferve o sangue e eu faço dessas coisas.
Outro dia, postei uma mensagem em um dos diversos fóruns de que participo e, aparentemente, pelo menos um dos leitores não entendeu o que eu tinha escrito. O colega postou uma resposta dizendo que quem tem medo de tradução automática deveria mudar de profissão, porque a tradução automática jamais vai ser tão boa quanto a humana.
Se vai, se não vai, não sei. Não gosto de falar sobre o futuro. Sei que, atualmente, não é. E fico pensando em quantos tradutores estão deixaram de ganhar com essa coisa do Google Translate. Para dizer a verdade, acho muita desonestidade do Google oferecer esse tipo de serviço. O usuário, que provavelmente não distingue português de turco, não entendendo nada, crê que esteja perfeito e faz sua empresa cair no ridículo.
Ainda por cima, têm a cara-de-pau de pedir a colaboração de voluntários. Talvez você não saiba, mas a entidade que se chama ABRATES é a segunda que usa esse nome. A primeira, que depois virou sindicato, tinha um Código de Ética interessante que vedava a prestação de serviço grátis a quem pudesse pagar. Acho isso fundamental para a sobrevivência da profissão. Não encontrei o Código de Ética da ABRATES. Encontrei o do SINTRA, mas creio que não toca na questão da gratuidade dos serviços, o que me parece uma pena. De qualquer modo, não sou eu que vou "ajudar" uma empresa comercial grátis.
Redigido por Danilo, com as habituais sugestões, revisões, palpitações e puxões de orelhas da Kelli.
segunda-feira, 17 de março de 2008
Catástrofes tradutórias
Catástrofes profissionais raramente têm um só motivo. É uma porção de coisas que se junta.
Começou com o efeito conjunto de vários serviços complicados que foram comendo a folga que mantenho para desgraças em geral: meia hora aqui, uma hora lá, e a folga se foi. Estava, então apertado, justo.
Dava para fazer o serviço, se tudo desse certo, mas uma porção de coisas deu errado. Não estou me justificando: profissional tem que trabalhar direito e, quando as coisas dão errado, azar meu, não tem nada que ficar se justificando. Mas, embora nem tudo tenha uma justificativa, tudo tem uma explicação: justificativas exoneram da culpa, explicações, quando muito, indicam o caminho para evitar a repetição do erro.
Além de problemas extraprofissionais, coisas do tipo fadiga aqui e doença lá, interrupções e mais mil coisas, houve os estritamente profissionais: arquivos esquisitíssimos, digitados por gente que não conhecia MSWord e que deram um trabalhão, porque programas de memória de tradução, que meu contrato me obrigava a usar, nem sempre perdoam textos digitados por incompetentes. Arrumei o texto, mas o arquivo ficou muito pesado e nem Trados nem WF davam conta. Simplifiquei a diagramação, de modo a poder trabalhar, para depois arrumar de novo. Tudo isso leva tempo – e o tempo não dá marcha a ré.
Para finalizar, acho que eu estava num dia triplo negativo, como se dizia no tempo em que falar em biorritimo era moda, um daqueles dias em que teria sido melhor ficar na cama, quietinho e quentinho, em vez de me meter a tradutor.
Para encurtar a história: a tradução saiu uma porcaria, fato que a revisora, amiga de muitos anos, mas que nunca tinha feito uma revisão de texto meu, não deixou de me apontar, aliás, com toda a razão. Numa das mensagens, manifestou sua surpresa e decepção por ver uma tradução tão mal feita saindo da minha mão.
A bem dizer, nada de admirar: não existem bons tradutores, existem boas traduções. Qualquer um de nós, por experiente e capaz que seja, pode ter um mau momento, seja lá por que motivo for, e fazer uma meleca tradutória de terceiro grau com cobertura de patê de lacraia. Ninguém está livre disso, muito menos eu. Por isso, contratar um tradutor experiente aumenta as probabilidades de se receber uma boa tradução, mas não garante nada. Tradução é como pudim: a gente sabe se ficou bom só quando prova.
Esses maus momentos devem sempre levar a reflexão e medidas corretivas. Não adianta ficar histérico e começar a gritar – Eu tenho X anos de experiência, fiz isto, aquilo e aquele outro!Sou isto e mais aquilo! Quem é você para me criticar? – todos nós, de vez em quando, fazemos uma grande besteira, por que iria eu ser a exceção? Se começar a acontecer muito, está na hora de tirar o time de campo, claro.
E só agora, quando a fervura baixou, é que, examinando o serviço que mandei para a revisora, vi a extensão do problema. De fato, eta serviço porco, meu São Jerônimo! Mas, quando entreguei, parecia até que direitinho. Não brilhante, mas bonzinho. Quer dizer, ninguém é bom juiz de sua própria obra – pelo menos no momento em que a termina. Um tempo depois, ainda pode ser. Mas na hora que terminou, acha que está uma beleza e entrega com o peito estufado de orgulho. Por isso é sempre bom alguém examinar o documento, seja com o propósito específico de revisar, seja simplesmente para ver se está bom. Às vezes, não está.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Os Perigos da Terceirização
domingo, 20 de maio de 2007
Malabarismos com memórias de tradução
Além de tradução, revisão e treinamento, também presto serviços de consultoria na área de informatização da tradução, uma das coisas mais divertidas que faço no momento. Às vezes, até mais divertida que escrever no blog. Hoje vou contar uma das minhas aventuras de consultor.
Um dos meus clientes há muitos anos comprou um DV3, excelente programa que hoje lamentavelmente está fora do comércio. O DV3, entre outras coisas, produz uma tabela em formato Word, com o original do lado esquerdo e lugar para a tradução do lado direito. A isso se chama um "arquivo exportado em duas colunas". O cliente manda esse arquivo para o tradutor externo, que coloca a tradução na coluna da direita e devolve. O cliente faz as alterações que quer, reimporta o texto para o formato DV3. Depois, manda o DV3 exportar de novo no formato em que veio o original. É um sistema muito divertido e prático. Inclusive, já recebi (não desse cliente) um texto desses em duas colunas e traduzi em Wordfast. Beleza!
quinta-feira, 13 de março de 2008
Prazos apertados
Tem aí em baixo um comentário da Camilinha dizendo que na área dela é tudo para ontem. Não duvido nem me surpreende. O que me surpreende é ela achar que o para ontem é peculiar a área dela.
Todo serviço de tradução é para ontem. Até as editoras, atualmente, têm prazos apertados, embora ninguém peça a tradução de um livro de 100.000 palavras para hoje de tarde. Ainda não chegaram a tanto.
Só duas vezes na minha vida de tradutor (e olha que já se vão 37 anos) recebi serviços que não eram urgentes. Um deles, jamais foi feito; o outro, o cliente me cobrou depois de 48 horas. Uma vez, recebi um fax dizendo precisamos desta tradução impreterivelmente até 14 horas. Mas o fax tinha sido enviado às 15 horas. Lamentavelmente, perdi essa jóia.
Traduzo notícias financeiras e o serviço é feito por uma equipe de uma meia dúzia de tradutores, que trabalham com a mesma memória de tradução. Quem pegar primeiro, faz. O texto em inglês sai num dia, a gente traduz e vai para a revisão e, depois, para a editoração eletrônica. Tenho a impressão de que é distribuído aos leitores no dia seguinte.
Por que toda tradução é urgente?
Primeiro porque todo serviço, por natureza, é urgente: a gente não leva o carro ao mecânico e diz olha, fica aí, você dá uma olhada quando tiver tempo. Nem diz para o encanador tem um entupimento aqui, quando sobrar um dia aí no teu calendário, vem ver para mim.
Segundo, que a tradução é um dos últimos elos de qualquer cadeia: primeiro você levanta os fatos, depois discute, faz isto, aquilo e, por fim, o relatório que vai ter de ser traduzido. Em cada estágio, há um atraso e, quando chega na nossa mão o serviço, espera-se que tiremos todo o atraso.
Por fim, tem o fato de que pedir urgência não custa nada. Dizer que precisa para ontem, não custa nada. Por isso a turma pede. Durante muito tempo, cobrei taxa de urgência. Quer para amanhã? Dez. Para depois de amanhã? Oito. Depois, acabei embutindo a taxa de urgência no preço. Ou dá para fazer, ou não dá – e acabou a história.
A gente precisa se acostumar a lidar com isso. Mas, de vez em quando, dá meleca. Vamos ver se consigo contar uma história de meleca amanhã.
domingo, 3 de maio de 2009
Artigo na revista Época
quarta-feira, 26 de março de 2008
Eu e o Venuti
Escreve o colega (e eu resumi barbaramente):
…entretanto, sendo também admirador e estudioso da obra de Lawrence Venuti, fico bastante chateado, diria mesmo triste, quando leio você utilizando expressões como "isso o livrinho do Venuti não ensina".
Realmente esse autor não oferece esse tipo de orientação, mas simplesmente não é esse o objetivo do trabalho dele.
Concordo com a falta de formação para tradutores voltada realmente para a atuação profissional mas também dou muita importância à formação acadêmica em tradução, que acredito proporcionar um valioso suporte no processo tradutório, e também à pesquisa na área. Não gosto de ver a formação e a atuação profissional se apresentando como processos opostos e quase antagônicos.
A mensagem veio assinada, além de ser correta, educada e identificável. Mas o autor parece preferir o anonimato, dado um trechinho que omiti. Por isso, cito aqui, com alguns cortes, sem lhe mencionar o nome. Minha resposta, nos parágrafos que seguem.
Felizmente, não vejo diferença alguma entre sua posição e a minha. Eu digo que isto e aquilo o Venuti não ensina e você concorda. Eu jamais disse que formação acadêmica carece de importância, mesmo porque, por carecer dela, sei que valor tem, talvez mais do que os que fizeram um bom curso superior. E veja que aqui, na Aulavox e onde eu esteja, sempre digo que há vários caminhos que levam à tradução e que o melhor deles, hoje, é uma boa faculdade.
Também sei que o objetivo do livro dele não é ensinar a lidar com o mercado nem nada disso. Nem acho que ele devesse abordar esse assunto, de que provavelmente ele tem pouco ou nenhum conhecimento.
Você afirma que reconhece a importância dos assuntos de que trato aqui no blog, em alguns pontos de sua mensagem que omiti e diz que concorda que falta formação para tradutores voltada realmente para a atuação profissional, que é uma das minhas bandeiras.
Você não gosta de ver formação e a atuação profissional se apresentando como processos opostos e quase antagônicos e este é mais um ponto onde concordamos: formação acadêmica e, digamos, capacitação profissional, são complementares, duas faces do sucesso profissional.
A dificuldade está em que você aparentemente imagina que ao dizer que algo não se encontra no livro do Venuti eu estou criticando o Venuti (ou o Mounin, que era a moda há alguns anos, ou o Catford, que fio moda antes ainda ou quem quer que seja). Não, não é isso. Estou usando "Venuti" aqui como um símbolo do estudo teórico da tradução e, quando digo que "não está no livrinho do Venuti" estou ironizando não o Venuti, mas aquelas pessoas que julgam o estudo teórico da tradução suficiente e que tudo o mais cada um que aprenda como melhor puder, porque isso não é obrigação de faculdade ensinar.
Por exemplo, ainda continuo achando um absurdo num curso de graduação não se ensinar a usar ferramentas informáticas de auxílio à tradução, porque a primeira coisa que se pergunta a um candidato a tradutor, em pelo menos 50% dos casos, é se sabe usar memória de tradução. Para mim, essas ferramentas fazem tanto parte da vida do tradutor como o estetoscópio faz parte da vida do médico. E o médico aprende a auscultar o paciente na faculdade, não "na prática".
Quer dizer, nada contra o Venuti, mas é preciso ir além dele. Há muita coisa importante, indispensável mesmo, que o livrinho dele não diz.
Termino agradecendo a mensagem. É sempre bom o diálogo com os leitores. A gente escreve, escreve, esceve e são os comentários que nos fazem crer que alguém leu, que não escrevemos em vão, que não falamos no deserto.