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domingo, 18 de novembro de 2007

O rei da Espanha e o presidente da Venezuela

Então, foi assim: de repente, o rei da Espanha volta-se para o presidente da Venezuela e pergunta – Por qué no te callas?

Nosso problema, aqui, é como traduzir isso para o português do Brasil. Em Portugal talvez tenham traduzido como Por que não te calas? Não cai bem no Brasil, mesmo nas regiões onde o tu é comum, como no Rio Grande do Sul. Não soa natural. É correta. Mas nem tudo o que é correto é natural. Pode ter sido natural numa época mais antiga e não duvido que algum bom gaúcho me venha com uma frase de algum personagem histórico, que tenha dito Por que não te calas? Mas, nos dias de hoje, não é correntio, ao passo que a fala do rei é perfeitamente natural em espanhol atual. Deve ser pronunciada milhares de vezes por dia na Espanha e fora dela, por gente de todas as classes sociais. A tradução em português do Brasil deve ser natural no português de hoje também.

Pelo menos é assim que penso: natural em L1 deve dar natural em L2. Há exceções, sim, como para tudo. Uma delas é a situação paratradutória em que o objetivo é explicar como funciona a sintaxe de uma outra língua, caso em que, por exemplo, é lícito traduzir Ich habe einen neuen Pc gekauft por eu tenho um novo PC comprado. Fora disso, natural eu traduzo por natural e a frase deveria ser comprei um PC novo e acabou a história.

A forma interrogativa aí é um artifício retórico. A frase é uma expressão de irritação, não uma pergunta. Muitas vezes, esse tipo de observação vem seguido de um termo insultuoso qualquer: por qué no te callas, ___? (preencha com seu termo insultuoso predileto em espanhol). Mas não veio e, portanto, por mais que você ache que o presidente merecesse a adição insultuosa, não nos cabe agregar. Cabe-nos traduzir o que foi dito, o real, não o potencial.

Quer dizer, não nos cabe retocar o que o rei disse: somos tradutores, não retocadores do discurso alheio, e isso nos deve bastar: sapateiro não deve subir acima do sapato. Retocaria se fosse um mero deslize irrelevante, mas o uso da segunda pessoa do singular não foi um deslize nem muito menos foi irrelevante. Para mim, o te é tão importante quanto o callas.

Numa situação informal é até pensável que o rei da Espanha tratasse o presidente da Venezuela por e recebesse o mesmo tratamento como forma demonstração de afeto. Mas, numa situação formal, não é a regra. E a entonação do rei deixa claro que não é um modo brincalhão de quebrar o protocolo. O rei tratou o presidente como inferior. E esse tratamento de cima para baixo deve ser refletido na tradução.

O rei andou bem em usar o te callas? Deveria ter ele se mantido calado em vez de protestar contra a fala do presidente? Deveria ter agregado um termo insultuoso? Como cidadão e homem interessado em política, a questão me fascina. Como tradutor, não posso me deter nela. Nem me cabe traduzir a frase dentro do estilo que, na minha opinião, deveria caber numa reunião daquelas.

Tenho que dar ao meu leitor a tradução que lhe permita tirar suas próprias conclusões. Essa é minha obrigação profissional, é para isso que me pagam e não posso colocar minha ideologia acima dela.

Alguns jornais traduziram a frase como Por que não se cala?, omitindo o pronome. A frase fica correta, perfeitamente correta – e pode ser interpretada corretamente, já que o sujeito, que ficou implícito, de acordo com a gramática portuguesa, dado o verbo na terceira pessoa, pode ser tu, o senhor, Vossa Excelência ou até Vossa Santidade, entre mil outras coisas.

Mas aí é que bate o ponto. A frase espanhola não deixa margem a dúvida: o único sujeito possível é tu e o por que não se cala permite vários sujeitos. Não nos cabe criar uma ambigüidade perfeitamente evitável em português quando em espanhol não há nenhuma.

Creio que, neste caso, é essencial deixar o pronome do caso reto explícito em português. E, salvo no caso de uma tradução regionalista, me parece essencial usar você: por que você não se cala?

Entretanto, nem a frase acima me parece boa. É forçada em português. Haverá quem use, mas não é normal. Para mim, o que o rei disse, em bom português brasileiro, é por que você não cala a boca?

Cabe a nós, tradutores, suavizar a frase dura, porque, no fim das contas, uma frase dessas pode dar origem a um incidente diplomático? Não creio que tenhamos esse direito. Quem lê nossa tradução tem o direito de saber o que foi dito – é para isso que nos pagam. Além disso, foi transmitido ao vivo, está no Orkut, não viu quem não quis. Quer dizer, é bom não nos aventurarmos a salvadores do universo, quando o máximo que podemos fazer é tapar o sol com uma peneira.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

IVANHOÉ PARA DENISE

Denise, diz para o homem me escrever, que eu faço uma triangulação com o Saulo e muito obrigado.

Versão completa de Wordfast e Trados

Alguém me escreve perguntando se eu sei de onde se baixam versões completas de Trados e Wordfast. Não tenho certeza de ter entendido a pergunta. Se você quer versões pirateadas, não adianta perguntar para mim.

Se seu interesse é por versões legítimas, na área de links, aqui do lado do texto, tem links para os dois.

Daqui a uns dias, vou falar de MemoQ2.

Definição de lauda

O que á uma lauda? Já escrevi sobre laudas aqui, mas noto que o artigo merece uma complementação. Não existe uma única definição oficial de lauda: existem várias, o que significa que nenhuma é oficial de verdade. As Juntas Comerciais tem uma, o SINTRA tem outra, as editoras têm cada uma a sua, os jornais, revistas, cada um tem lá a sua.

Isso cria um problema: se Alfa e Beta dizem que seu preço é R$ 10,00 por lauda, mas a lauda de Alfa é maior que a de Beta, então, o preço de Alfa é menor.

Por isso, se você está procurando orçamentos para tradução, é bom saber o que cada um dos interessados chama "lauda". Melhor ainda é nem falar em lauda e pedir cotações por palavra do original. Assim, quando o serviço vai para o tradutor você já sabe quando vai pagar.

Por outro lado, se você for tradutor e o cliente quiser uma cotação por lauda, manda o bom-senso que você pergunte como o cliente define lauda. Costuma ser complicado, porque muitos clientes acham que lauda é lauda e acabou a história. E tem gente que acha absurdo que alguém defina lauda de um modo diferente do deles. Precisa ir com jeitinho. Também é bom ir explicando ao cliente essa coisa toda, porque pode ter alguém cotando com uma lauda menor que a sua e, portanto, com um preço que parece menor do que é. Às vezes, o contato no cliente é alguém que não sabe o que é lauda, não sabe o que é tradução, não quer saber e tem raiva de quem sabe. Mandaram perguntar quanto era a lauda, ele está perguntando e, se você não responder rapidinho, vai perguntar para quem responda, que este mundo está cheio de tradutores dispostos a trabalhar sem criar caso.

Uma boa saída, é você responder o que te perguntam e manda uma mensagem para o contato, com sua definição de lauda. Nessas horas, eu defino a minha lauda bem pequenininha, para não dar chance a alguém cobrar mais fingindo que cobra menos. Mas lembre-se: o cliente tem direito a saber o que está pagando e a contagem de laudas tem de estar rigorosamente de acordo com a definição.

É por essas e por outras que eu cobro por palavra do original. Uma vez que se livre do vício da lauda, você vai perceber que é mais fácil tanto para o tradutor como para o cliente.

Definição de lauda

O que á uma lauda? Já escrevi sobre laudas aqui, mas noto que o artigo merece uma complementação. Não existe uma única definição oficial de lauda: existem várias, o que significa que nenhuma é oficial de verdade. As Juntas Comerciais tem uma, o SINTRA tem outra, as editoras têm cada uma a sua, os jornais, revistas, cada um tem lá a sua.

Isso cria um problema: se Alfa e Beta dizem que seu preço é R$ 10,00 por lauda, mas a lauda de Alfa é maior que a de Beta, então, o preço de Alfa é menor.

Por isso, se você está procurando orçamentos para tradução, é bom saber o que cada um dos interessados chama "lauda". Melhor ainda é nem falar em lauda e pedir cotações por palavra do original. Assim, quando o serviço vai para o tradutor você já sabe quando vai pagar.

Por outro lado, se você for tradutor e o cliente quiser uma cotação por lauda, manda o bom-senso que você pergunte como o cliente define lauda. Costuma ser complicado, porque muitos clientes acham que lauda é lauda e acabou a história. E tem gente que acha absurdo que alguém defina lauda de um modo diferente do deles. Precisa ir com jeitinho. Também é bom ir explicando ao cliente essa coisa toda, porque pode ter alguém cotando com uma lauda menor que a sua e, portanto, com um preço que parece menor do que é. Às vezes, o contato no cliente é alguém que não sabe o que é lauda, não sabe o que é tradução, não quer saber e tem raiva de quem sabe. Mandaram perguntar quanto era a lauda, ele está perguntando e, se você não responder rapidinho, vai perguntar para quem responda, que este mundo está cheio de tradutores dispostos a trabalhar sem criar caso.

Uma boa saída, é você responder o que te perguntam e manda uma mensagem para o contato, com sua definição de lauda. Nessas horas, eu defino a minha lauda bem pequenininha, para não dar chance a alguém cobrar mais fingindo que cobra menos. Mas lembre-se: o cliente tem direito a saber o que está pagando e a contagem de laudas tem de estar rigorosamente de acordo com a definição.

É por essas e por outras que eu cobro por palavra do original. Uma vez que se livre do vício da lauda, você vai perceber que é mais fácil tanto para o tradutor como para o cliente.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

tradutor bom para pdf sem erros

Mais de metade das pessoas que chegam a este blog estão procurando um tradutor que não seja uma pessoa, mas sim um programa; que traduza sem erros e, muitas, um programa que traduza pdf.

Logo de cara vou dizendo que isso não existe e que, se existisse, eu já teria perdido o trabalho e este blog teria se tornado inútil. Há anos que estou ouvindo a história de que está para sair um programa de tradução automática que vai acabar com a raça dos tradutores de uma vez por todas, que em algum lugar existe um programa milagroso que traduz tudo direitinho, bonitinho. Esse programa não existe.

Dizem que o governo americano tem um programa santificado que traduz bacaninha. Pergunto: se tivesse, publicariam isto? É para Portugal, tudo bem, mas note que não há uma tradução que faça sentido quando o original tem mais de três palavras. Vejam Cessation Following Trial Work Period (TWP) > A Cessação Segue Período de Trabalho de Trilha (CSPTT), por exemplo. Você sabe o que é "a cessação segue período de trabalho de trilha"?

Esse é um defeito clássico dos programas de tradução automática: quando acertam, é só em minifrases. Quanto mais longa frase, mais eles se embananam. Para

Italy again awoke to familiar headlines of football violence Monday after supporters rioted in Rome and elsewhere in the country following the accidental fatal shooting of a fan by police,

trecho de uma nota da CNN, o Babelfish me deu

Italy acordou outra vez para headlines familiares da violência segunda-feira do football depois que os supporters se amotinaram em Roma e em outra parte no país que segue disparar fatal acidental de um ventilador por polícias.

Imagine a polícia disparando ventiladores. Se fosse um texto jurídico, com períodos quilométricos, então, pode esquecer.

Outra deficiência dos programas tradutores é a incapacidade de lidar com erros. Se o seu texto tiver só frases bem curtas e sem erros, ainda talvez se entenda alguma coisa da tradução. Se o texto tiver erros, pode esquecer.

Mas há programas tradutores melhores e piores. Os melhores, como os usados, digamos pela Comunidade Européia, fazem menos bobagem. Entretanto, trabalham com linguagem controlada. Linguagem controlada é um conceito muito interessante: é uma linguagem que se submete a certas restrições de vocabulário e sintaxe, que resultam em um texto que o programa entende. Quando os textos precisam ser traduzidos para diversas línguas, pode ser uma vantagem.

Funciona assim: o autor escreve como melhor pode e um especialista "traduz" para linguagem controlada; o programa depois traduz para as diversas outras línguas e até que sai uma coisa razoável – embora não dispense um bom revisor que entenda das coisas. Só vale a pena, evidentemente, quando se vai traduzir para várias línguas, porque, se for para uma só, em vez de traduzir par "linguagem controlada", já traduz para a outra língua de uma vez.

Mas esses programas não estão disponíveis gratuitamente em lugar algum. São caros, muito caros, na casa das dezenas de milhares de dólares e, ao que eu saiba, não há versões pirateadas. Quer dizer, se você conseguiu um texto maneiro que resolve todo o seu problema daquele trabalho de física, só que está em inglês, perca as esperanças.

Se está tentando também ver se pinta um clima com aquela gatíssima australiana, tome cuidado: usar um desses programas é como aparecer na casa dela para irem para balada juntos com ranho escorrendo da sua narina esquerda.

As coisas mudam, evidentemente, e a informática anda rápido. Pode ser que amanhã apareça um programaço grátis que dê conta de qualquer tradução com esmero e perfeição. Mas isso é amanhã.

Mas também é fato de que muita gente que se diz tradutora escreve bobagens únicas. Um bom tradutor, lamentavelmente, custa caro. Não que ganhe muito, porque traduzir bem dá um trabalho danado. Mas isso é outra conversa.

domingo, 11 de novembro de 2007

tradutor público, tradutor juramentado

Onde encontrar um tradutor juramentado

Este artigo foi escrito para as centenas de pessoas que procuram um tradutor público e caem neste Blog por engano.

O nome oficial do que o povo chama "tradutor juramentado" ou "tradutor oficial" é tradutor público e intérprete comercial, abreviado TPIC.

Juramentada é a tradução, não o tradutor. O TPIC não pode traduzir cópias nem e-mails: precisa do original, mesmo. Isso significa que, muitas vezes, a melhor escolha é o TPIC que fica mais perto da sua casa. Os preços são tabelados e, a rigor, todos os TPICs do mesmo estado devem cobrar as mesmas taxas. Há quem cobre fora da tabela oficial, o que é ilegal, mas, de qualquer modo, raramente vale a pena ficar telefonando para meio mundo para ver quem cobra menos.

Para ser TPIC é necessário prestar um concurso promovido pela Junta Comercial do Estado em que reside o interessado. O concurso é promovido de raro em raro: em São Paulo, o intervalo médio excede 20 anos. Fora de SP, é mais raro ainda. O TPIC não recebe nada do Estado: vive do que cobra dos interessados em obter traduções juramentadas.

Cada TPIC traduz um ou mais línguas. Quer dizer, o profissional pode ser TPIC para a língua russa, mas não para a inglesa, por exemplo, caso em que mandar para ele um documento em inglês é inútil, porque, mesmo que ele entenda o que está escrito, não pode fazer uma tradução juramentada do texto. Entretanto, se você perguntar a um TPIC de qualquer língua onde se encontra um que uma outra, é bem possível que ele tenha uma sugestão inteligente.

A Junta Comercial de cada estado tem uma lista de todos os TPICs do estado, geralmente em seu site na Internet. É só abrir e escolher. Ou telefonar, perguntando. Talvez no seu estado não exista TPIC para a língua que você quer, caso em que você pode e deve procurar nos outros estados. Mesmo assim, pode não dar certo. Não há TPICs para todas as línguas. Por exemplo, não existe TPIC para sueco, no Brasil. Nesses casos, recorra ao consulado do país em questão, neste caso a Suécia, que eles te explicam como proceder.

Tenha em mente que a tradução juramentada é exigida para todo documento em língua estrangeira a ser apresentado a uma autoridade no Brasil. Quer dizer, se você estudou na Argentina e quer apresentar o diploma a uma universidade brasileira, por mais que o texto do diploma possa parecer óbvio, deve ser acompanhado de tradução juramentada.

A legislação é diferente em outros países e, embora a lei brasileira credencie os nossos TPICs para fazer "versão", quer dizer, traduzir para uma língua estrangeira, não é certo que essa tradução seja necessária ou válida onde vão usar o documento. Quer dizer, se você quer se matricular numa universidade canadense, por exemplo, em vez de meramente mandar a documentação para um TPC no Brasil, deve começar se informando lá, com a universidade escolhida, sobre o que eles querem, em que língua querem e como querem traduzido.

Para obter mais informações sobre TPICs e suas características escreva TPIC ali em cima, onde diz "pesquisar no blog". Finalmente, eu não sou TPIC nem trabalho em escritórios de TPICs nem tenho nada que ver com a promoção de concursos para TPIC, com as tabelas da JUCESP ou com a regulamentação dessa ou de qualquer outra profissão.

sábado, 10 de novembro de 2007

O comentário quase perdido

Rafael de Sá Cavalcanti deixou um comentário sobre "Agência pede serviço grátis". Lamentavelmente, cliquei no lugar errado e, em vez de publicar o comentário, recusei. Como o texto me vem por inteiro em um e-mail, dá para recuperar e postar de novo, agora em forma de artigo, e como os meus comentários. Vamos lá, Rafael.

Sr. Danilo, uma pequena correção: a Cláudia, no trecho citado que você colou no post, fala em 1.500 caracteres, não palavras. 1.500 caracteres não é tanto, concorda? Não chega a 2 laudas, seja com ou sem caracteres, e de acordo com a maioria dos critérios utilizados para definir uma lauda de tradução.

Prefiro não ser chamado "senhor", mas isso é preferência de cada um. Sua correção procede e eu agradeço qualquer correção que me fizerem. O problema fundamental, entretanto, não é a quantidade de tradução grátis solicitada, mas sim a própria solicitação. Uma empresa não pede serviço grátis a um fornecedor potencial. Nem muito, nem pouco. E a promoção dos serviços da empresa deve ser por conta e risco da empresa. Quer dizer, não cabe a mim trabalhar de graça pela maior glória da empresa alheia. E, como você, diz, Rafael, é muito pouco. Quase nada. Uma empresa que alega não ter posses para pagar por um serviço tão pequeno ou é muito mesquinha, ou não tem capital para se pôr em pé.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Agência pede serviço grátis

E esta, é a última das perguntas da Claudia.

Também não faz muito tempo outra agência me procurou para saber se ela poderia contar comigo para as traduções. Respondi que sim. Até aí, tudo bem. A agência começou dizendo que era nova no mercado e que no inicio eu faria as traduções sem um contrato ou qualquer papel escrito e que também ela daria de presente 1.500 caracteres para atrair clientes, que essa prática era comum e que se eu pretendia cobrar esses 1.500 caracteres pois a agência não queria arcar sozinha com essa "promoção". Não respondi, mas a agência ficou de entrar em contato comigo quando aparecesse alguma coisa. Terceira pergunta: Isso é possível ou eu estou ficando maluca? As agências realmente podem fazer isso?

As 1500 palavras grátis podem ser uma jogada de marketing, mas não são norma do mercado, em absoluto. Aliás, me parece uma jogada boba, mas isso é questão de opinião. Indo mais a fundo na questão, a agência está pedindo que você trabalhe grátis para fazer o nome dela, em troca de alguma vaga promessa de serviço futuro. É comum o cliente (agência ou final) oferecer serviço em condições desfavoráveis, a troco de alguma vaga e nebulosa promessa de bons serviços futuros. Algumas dessas ofertas são sinceras, mas nenhuma delas é garantida. Quer dizer, pode dar certo, mas o risco de você fazer as 1500 palavras grátis e nunca mais ouvir falar da agência é muito grande. Muito maior que a probabilidade de alcançar o almejado fluxo constante de serviço.

Ganhar dinheiro com agência de tradução é difícil, muito mais difícil do que parece. A quantidade de gente que pensa que vai montar uma agência na segunda e ficar rica na terça é muito grande, o que revela seu vasto desconhecimento do negócio. A toda hora os tradutores mais veteranos e conhecidos do mercado recebem propostas de colaboração mirabolantes, de gente empolgada que está montando uma "agência diferente das outras".

Existem duas maneiras de montar uma agência de sucesso: a primeira é ter capital para agüentar pelo menos três anos de prejuízos. A segunda é começar exclusivamente com o seu trabalho e ir aumentando, aos pouquinhos, formando a clientela e o grupo de colaboradores lenta e cautelosamente. Fazer uma lista de 100 tradutores e botar na Internet um site cheio de firulas, coisas que se movem e tocam musiquinha é fácil; arranjar um nomezinho maneiro e impressionante, também é; fazer a agência vingar é mais complicado.

Outra coisa surpreendente é o não haver papel passado de nada. Criar um formulário de ordem de serviço para o tradutor custa pouco e ajuda muito. Um tanto de amadorismo, aqui. Amadorismo que não promete um futuro brilhante para o empreendimento.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Descontos imprevistos no pagamento do tradutor

Outra da Claudia. Esta aqui foi dura de roer. Essas histórias de tradutores podem ser classificadas em diversos tipos e pensei que conhecia todos eles. Mas esta, ou é de tipo novo, ou houve, então, um "telefone militar", aquela situação em que um passa a informação para o outro, o outro para o outro e o outro para o outro e, quando chega no fim, a mensagem, de tão distorcida, não tem mais nada que ver com o original. Vou começar transcrevendo a mensagem da Claudia, sem tirar nem pôr, como me veio por e-mail, para não agravar ainda mais o telefone.

Não faz muito tempo uma agência me procurou para fazer uma tradução. Eu ganharia R$1.870,00. Fiz a tradução e fiquei aguardando receber o combinado. No dia do pagamento a agência alegou que o valor acima sofreria dois descontos: os 18% da nota fiscal que ela havia emitido para o cliente e R$200,00 referentes à revisão da minha tradução. Resultado, sobraram R$1.130,00. Eu tentei argumentar, mas a agência insistiu que essa transação era comum entre agência e tradutor. Segunda pergunta: Isso é verdade?

Do jeito que você coloca a questão, Claudia, nunca vi. O que me parece ter acontecido é coisa diferente. Vamos primeiro à questão da nota fiscal.

A agência tem que emitir nota fiscal ou RPA para o cliente dela e você deveria ter emitido nota fiscal ou RPA para a agência – essa é a lei. A maioria dos clientes não aceita RPA, o que significa que nota fiscal é, na prática, a única possibilidade aceita. Então, você deveria ter emitido nota fiscal para a agência. Se não emitiu, a agência não pode registrar o seu pagamento como despesa, vai ter que contabilizar o que pagou a você como lucro líquido e, como tal, pagar impostos sobre o valor. Quer dizer, como não tem nota fiscal para comprovar a prestação do serviço, não tem como informar o Leão de que pagou a você. Por isso, teve que pagar mais impostos e cobrou esses impostos de você. Esse tipo de operação é ilegal, mas bastante comum. Ou seja, aparentemente, não está cobrando de você "a nota que havia emitido", mas sim os impostos que teve de pagar porque você não emitiu nota. Por isso, é muito comum as agências dizerem "pagamos X com nota ou Y sem nota". Outras agências dizem "X com nota, Y sem nota, Z com RPA", porque a tributação sobre serviço coberto por RPA é braba. A legalidade de pagar menos pelo serviço com RPA é meio esquisita. Repito: é ilegal pagar sem nota nem RPA.

Isso tudo é a minha suposição, baseada nas suas informações. Se, por outro lado, você emitiu nota fiscal, como a lei manda, é só levar à justiça (Juízo Especial Civil, ex "pequenas causas"), que você recebe os teus 18%.

O caso dos R$ 200,00 pela revisão é diferente. Toda tradução deve ser revista a expensas da agência. Não cabe ao tradutor pagar a revisão. Por outro lado, eles podem ter alegado que a tradução era de má qualidade e multado você em R$ 200,00 que, teoricamente, teriam sido repassados ao revisor, como compensação extra pela dificuldade para arrumar um serviço mal feito. Não vi o serviço, não quero ver, não estou aqui para julgar o seu serviço. A alegação às vezes é verdadeira, outras vezes é um mero pretexto para pagar menos. Alguns esquemas de dedução de honorários em razão de falhas são complicados e, outro dia, uma amiga minha caiu numa armadilha, sofrendo um bárbaro desconto em razão de uma cláusula de contrato entre a agência e ela, que ela não tinha lido direito.

A observação final do parágrafo acima é importante: a agência tinha informado a tradutora amiga minha das deduções, a minha amiga não tinha atentado para uma firulazinha de redação e se deu mal. Mas o contrato estava lá, bem escritinho, bem explicadinho, antes de a tradutora começar a trabalhar. Aí está o problema: essas coisas todas se discutem com antecedência e o acordo final deve ser por escrito.

Por fim, trabalhar "por fora" dá muito enguiço e não se pode fazer nada, porque a transação toda é ilegal. Mas isso eu já disse aqui muitas vezes.

Agora, ainda falta responder a última pergunta da Claudia. Espero que as respostas tenham sido úteis para mais alguém.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

De qualidade e prazos

Volta a Claudia, a mesma de ontem, com mais uma carrada de perguntas, que não dá para responder de uma vez só. Por hoje, vai esta:

Qual seria o prazo ideal para traduzir certo número de laudas ou caracteres? ou, qual é o tempo normal que se leva para traduzir certo número de laudas ou caracteres? (referente à minha experiência de ter traduzido 100 laudas em 48 horas - 48 horas mesmo, sem dormir).

Meus clientes e eu temos como média 4.000 palavras de original por dia. Dá para fazer mais, claro, e muitas vezes fazemos.

Às vezes, o texto tem muitas repetições e, se você estiver usando ferramentas de memória de tradução, como, aliás, todos deveriam usar, nesses casos a produção pode aumentar muito.

Outras vezes, a gente simplesmente faz um esforço maior, talvez por ter aceitado mais serviço do que deveria. Já me aconteceu, mais de uma vez, ficar 15 ou 20 horas no computador, em razão de problemas internos aqui da casa, de algum serviço que desandou ou coisa que o valha. Isso são coisas extraordinárias, de não sei quanto em não sei quanto tempo. Não é nem deve ser a norma, mesmo que você seja jovem e resistente. Se virar norma, a conta vem, mais dia menos dia, pode ter certeza.

Tem gente que adora trabalhar de noite e costuma morcegar o tempo todo. Tenho uma amiga que toma seu "café da manhã" a meio dia, ainda de pijama e estremunhada, almoça no meio da tarde e janta a não sei que horas da noite, mas costuma ligar o computador lá pelas cinco da tarde. São preferências pessoais e os profissionais independentes, como você, ela e eu, podem se dar a esses luxos.

Entretanto, 48 horas em seguida é um despropósito e, não importa a sua capacidade, a tradução não pode ter ficado boa. Quer dizer, com esse modo de trabalhar, você está cavando para si a reputação de incompetente e, evidentemente, arruinando sua saúde.

Tenho colegas que se orgulham de traduzir dez mil palavras por dia, rotineiramente, e dizem que fazem serviços de alta qualidade. Jamais vi o serviço deles e, aliás, nem quero ver. Mas ou eles são realmente geniais, ou eu sou de uma incompetência total. Mesmo fazendo as coisas que sempre faço, que já exigem muito pouca pesquisa depois de tanto tempo de prática, nunca tive condições de manter dez mil por dia como ritmo.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Ferramentas de tradução e descontos por repetições

De vez em freqüentemente, repipoca em algum lugar a discussão sobre ferramentas de tradução e descontos. Entre discursos acalorados e afirmações sem fundamento, gasta-se muito palavrório, embora poucos entendam como funciona o processo.

Vamos ver se consigo jogar alguma luz sobre o assunto.

As agências que exigem descontos por repetições normalmente pagam por palavra. Então, mandam para nós um texto de, digamos 10.000 palavras e, feitos os cálculos das repetições (que o Trados faz sozinho) afirmam que há, digamos, 3.000 repetições e que, portanto, vamos receber somente o pagamento por 7.000 palavras.

É bom ter em mente que, embora o preço seja tratado em termos de palavras, todos os programas de memória de tradução, incluindo o Trados, baseiam o cálculo das repetições segmentos, que são períodos, não palavras. Quer dizer, quando a agência diz que o Trados diz que há 3.000 palavras em repetições, o que se está dizendo é que há uns tantos períodos repetidos e que as palavras encontradas nesses períodos somam 3.000.

Quer dizer, das 10.000 palavras do texto, 650 são you, mas isso não conta como repetição. Porém, se o texto tiver 50 segmentos, quer dizer 50 períodos que digam, exatamente you are here! (por exemplo, em legendas para mapas daqueles que se usam no shopping), são 49 repetições de um segmento de 3 palavras, algo que, trocado em miúdos, significa 147 palavras. A isso, se chamam repetições internas. Uma vez que você tenha traduzido a primeira vez, as outras 49 são postas no texto automaticamente, sem interferência sua. Por isso, a agência não quer pagar.

Existem também as repetições externas, quer dizer, material que a agência já tinha na base, de traduções anteriores. Se o you are here! já tinha sido traduzido antes, então vai ser colocado automaticamente no texto que vem para você e o programa de tradução passa batido. Por isso, a agência não que pagar. Nesse caso, como já vêm os 50 traduzidos, são 150 palavras descontadas.

Existem, também, as correspondências parciais, o que se chama em inglês fuzzy match. São casos onde a memória tem this is a red book > isto é um livro vermelho e o seu texto tem this is a blue book, caso em que o programa coloca automaticamente isto é um livro vermelho e marca o vermelho de tal forma que você sabe que ali é necessário fazer uma alteração. Nesse caso, a agência exige um desconto sobre o preço total do segmento. Como o segmento tem 5 palavras e você tem que mexer em uma, geralmente te descontam 3 e pagam 2, aproximadamente.

Isso, a agência faz com a memória que tem lá. Me mandam o texto pré-traduzido, quer dizer, com tudo o que conceguiram tirar de sua memória, eu processo aqui em casa, usando, inclusive, a minha própria memória, de onde sai muita coisa interessante. Mas, pelo que eu achar na minha memória, não dou desconto algum.

É claro que a tradução pronta vai ser agregada à memória da agência. Mas a minha memória, que tem mais de 500.000 segmentos, é minha e daqui não sai. A agência recebe, exclusivamente, a pequena parcela que foi usada no serviço deles. Por outro lado, toda a tradução que eu faço, para quem quer que seja, vai intergralmente, para a minha memória.

Para entender melhor como funciona isso tudo, gosto de usar a metáfora do eletricista. Você contratou um eletricista para fazer a instalação elétrica de sua nova casa e pagou o serviço prestado. Tempos depois, agrega um puxadinho à casa e chama o eletricista de novo. Ele cobra pelo serviço de puxar fio para o puxadinho e quejandos. Mas não vai cobrar pela fiação toda da casa de novo. Quer dizer, pode até tentar, mas você não vai pagar.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Duas armadilhas

Interrompemos nossas transmissões para comentar uma mensagem da Claudia, colega nossa que levou uma bronca da agência.

Fiz uma tradução técnica cuja introdução tinha falhas de pontuação o que deixava o texto bastante confuso. Tive menos de 48 horas para traduzir 100 páginas. Ou seja, não houve tempo para ler o documento primeiro (como costumo fazer). Comuniquei à empresa de traduções intermediadora e expus o problema. Fui orientada a fazer a tradução de qualquer jeito para não perder o cliente. Não modifiquei o texto por receio de interferir no seu significado (já que eu não estava entendendo muita coisa). Resultado: o cliente reclamou que a minha tradução estava confusa e que era minha obrigação, como tradutora, reestruturar o texto traduzido. Quais são os limites do tradutor? Se o texto técnico está confuso, o tradutor tem a obrigação de modificar totalmente o original? Até que ponto o tradutor pode interferir em um texto técnico originalmente mal elaborado?

Claudia, não importa o que o cliente diga, chore, prometa de joelhos, jure, garanta, arranque os cabelos, mais dia menos dia você vai ser responsabilizada pela qualidade da tradução. No seu caso, temos dois problemas separados e, por isso, vamos tratar deles separadamente.


Primeiro, o prazo. Não sei o que você quer dizer com "100 páginas". Páginas, há de todo tamanho. Mas, de qualquer maneira, parece uma barbaridade para 48 horas. Se for metade do que eu penso, eu teria recusado. Não é possível fazer coisa que preste em tão pouco tempo. E a agência que hoje diz "não faz mal, faz de qualquer jeito, não podemos deixar de atender esse cliente" é aquele mesma que, amanhã, te repreende porque o cliente não gostou da tradução.

Mas isso, se você não sabia, aprendeu agora.

Segundo, a qualidade do texto. Se o texto está mal escrito, mesmo que você tivesse tido tempo, provavelmente não conseguiria arrumar, por não ter conhecimentos técnicos da área. Você é tradutora e, portanto, traduz. Os americanos têm uma frase, garbage in, garbage out, que se traduz por se o que entra é lixo, o que sai também é lixo. É muito comum o cliente querer de nós o serviço de um especialista na área, que iria levar dois meses para fazer o serviço e cobrar muito mais do que nós. Há tempos, me mandaram um pacote de contratos para traduzir de acordo com a lei brasileira, um belo subterfúgio para conseguir consultoria jurídica a preço de tradução, porque esse tipo de acerto é coisa de advogado, não de tradutor. E, se tentasse arrumar, poderia fazer alguma besteira.


Como você discutiu essas coisas com a agência? Se foi por telefone, babau. Essas coisas a gente faz por escrito e, mesmo assim, é complicado e arriscado.


Quer dizer, você não caiu em uma armadilha, caiu em duas. Também eu já cai nas duas, só que separadamente. Agora, não adianta reclamar. É lamber as feridas e aprender a dizer "não", uma palavra tão útil que os tradutores têm tanto medo de dizer.

domingo, 4 de novembro de 2007

Tradução fácil

Tradução _______ é fácil: é só __________.

Preencha os espaços em branco com o que quiser: o resultado vai sempre ser uma frase idiota. Não existe tradução fácil. Existe tradução cujas dificuldades você não notou – e é aí que mora o perigo. Porque notar as dificuldades de traduzir um texto é o primeiro passo para uma boa tradução.


A realização mais comum da frase acima e tradução técnica é fácil, é só uma questão de vocabulário. Esse tipo de afirmação é mais comum entre os tradutores literários, gente que entende tanto de tradução técnica quanto os monges das comunidades de Monte Athos, na Grécia, entendem de orgasmo feminino.

Deviam limitar-se a falar do que conhecem. Os tradutores, quer dizer. Porque os monges do Monte Athos não se metem a falar do que desconhecem, o que já é muito.

Quando questionados esses tradutores, respondem com uma enxurrada de dificuldades encontradas na tradução literária. Sim, certamente, não duvido de nenhuma delas. Não acho tradução literária fácil. Se achasse, já teria mudado de área faz tempo. O ponto é que fazer uma relação das dificuldades de uma área e ignorar as dificuldades de outra – e nem mesmo tentar saber quais são – não é, digamos, um posicionamento intelectual muito sólido.


Outro lado curioso desse tipo de assertiva é o juntar tudo o que não é tradução literária de cambulhada como "técnica" e achar que tradução de engenharia, medicina, direito, publicidade, é tudo a mesma porcaria: pega um glossário e vai em frente. Como se cada uma dessas áreas não trouxesse problemas distintos para o tradutor.

Para dar um toque brincalhão a um artigo rabugento, vou contar uma historinha, já antiga. Estava lá um tradutor de poesia, rejubilando-se no rutilante brilho de sua magnificência, e comentou que precisava às vezes de semanas para dar conta de um soneto, pela dificuldade da tarefa e raramente ficava satisfeito com o resultado. Tive um ataque de espírito de porco e respondi que era sorte dele, porque eu tinha de dar conta de 4.000 palavras por dia e sempre deixar o cliente satisfeito.


Ainda volto ao assunto, mas, por hoje é só. Finalmente, estou conseguindo recolocar o blog nos trilhos.

sábado, 3 de novembro de 2007

Recomendação de iniciantes, necessitados e desconhecidos

O Titivilo (se você não sabe quem é, leia o artigo abaixo) ainda anda muito ativo. Mas vou tentar impedir que a peteca caia. Se eu der uma paradinha no blog, recomeçar fica cada dia mais difícil.

O cliente pede um serviço, você não pode fazer. O cliente pede para você recomendar um colega. O que você faz? Não, não responda, ainda. Deixa fazer uma outra pergunta: se você pedisse a um conhecido a recomendação de um profissional para um determinado serviço, por exemplo, um médico para cuidar de alguma doença, quem você gostaria que seu conhecido recomendasse? Um médico que ele já conhecesse e que tivesse curado um parente dele do mesmo mal, ou um médico que, coitado, estivesse precisando de clientes?


Pois é, com tradução é a mesma coisa: a gente recomenda quem conhece e quem sabe que é bom. Faz isso não de maldade, preconceito contra o iniciante. Faz porque, perante o cliente, somos responsáveis pela pessoa recomendada. E se essa pessoa for incompetente ou irresponsável, quem paga somos nós. Mais de uma vez disse aqui e alhures que nem todo principiante é incompetente, nem todo o veterano é competente e responsável. Conheço veteranos que não recomendaria nem ao pior dos meus inimigos. Mas o fato é que não tenho como recomendar um desconhecido, principiante ou não.


É esse o problema que dá origem ao que a turma chama "as máfias" ou "as panelinhas". O cliente confia em mim, eu confio no Fulano. O cliente me pede uma indicação, eu indico o Fulano – ou, mais freqüentemente, a Fulana, já que esta é uma profissão de maioria feminina.


E como fica a Beltrana, iniciante desconhecida? A resposta fica para amanhã, se o Titivilo deixar.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Mas, será o Titivilo!

Você conhece o Titivilo?

Titivilo, em latim "Titivillus" é um demônio especializado em atormentar os que escrevem. Faz a gente cometer erros malucos, saltar palavras, essas coisas. Na idade média, deixava loucos os monges copistas, coitados. Agora, acho que também pega no nosso pé, com falsos cognatos, leituras erradas de textos bobocas, erros de grafia que o revisor ortográfico deixa passar, coisas assim. Afinal, nós também escrevemos. O Titivilo andou meio que a solta aqui no meu pedaço ontem e hoje, mas acho que já exorcizei.

Se você não conhecia o cavalheiro, é só dar uma olhada aqui.

Amanhã, quem sabe sem o Titivilo na minha cacunda, posso escrever mais.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Profissionalismo

É sabido e consabido que muito serviço rola de tradutor para tradutor. Quer dizer, um cliente pede a Alfa um serviço que Alfa não pode fazer, Alfa muitas vezes aceita o serviço e repassa a Beta (talvez com dedução de uma comissão), ou simplesmente indica o nome de Beta para o serviço. Quer dizer, Beta pegou o serviço porque é pessoa conhecida de Alfa.

Então, uma boa maneira de se conseguir serviço é se tornar conhecido de outras pessoas na profissão. Participar de listas, comunidades do Orkut, essas coisas. Apresentar-se, ficar alerta para as discussões, participar das discussões, ler as discussões, aprender com elas. Até perguntar ajuda, se você fizer perguntas inteligentes, mesmo que de principiante. Mas há algumas coisas que pegam mal, muito mal.

A primeira são mensagens mal escritas. Todos nós erramos e eu estou entre os que mais erram. Mas a turma percebe a diferença entre deslize e desatenção, relaxo, ignorância. Se você escrever com um esse só uma palavra que tem dois, tudo bem. Mas se escrever "exceção" com quatro esses, danou tudo. Também internetês pega mal, muito mal. Você pode achar que é frescura, mas é assim que funciona.

Pega mal tratar os outros como seus empregados. Outro dia, tinha uma mensagem assim Preciso saber como se diz "X" em inglês. Respostas para minha caixa posta, por favor, estou em no-mail na lista por falta de tempo. Ou seja, quem escreveu não tem tempo de ler as minhas dúvidas, mas acha que eu tenho tempo para resolver as suas. Também pega mal o quem tiver trabalho sobrando, mande para mim, faço tradução e revisão. Até parece que, se eu tiver trabalho sobrando, vou mandar para uma pessoa de quem nunca ouvi falar antes. Pega mais mal ainda a choradeira: gente, estou sem serviço, precisando de dinheiro, tenho dois filhos para sustentar, alguém me arranja alguma coisa?

Ou você oferece serviços profissionais ou pede esmola, a escolha é sua, para mim tanto faz. Mas não espere tratamento de profissional se tem conduta de mendicante.

Também é importante ver como funciona o grupo antes de participar. Ingresse, leia algumas mensagens, veja qual é o tom geral da conversa e depois se manifeste. Não tente entrar a la Capitão Rodrigo, chego e me espalho, nos pequenos dou de relho, nos grandes dou de talho. É irritante ler uma mensagem que diz acabo de ingressar neste grupo e devo dizer que discordo… seguido de algumas críticas azedas ao modo como o grupo funciona. Chegar assim, de bacana, dando ordens e reclamando, antagoniza todos. Vai com calma. Se tem algo a reclamar, primeiro entenda bem como a coisa funciona, para não dizer muita besteira junta. Espere, ao menos um par de dias e leia muitas mensagens. Não conte muita vantagem, tampouco. No grupo pode haver gente que saiba mais do que você.

Finalmente, leia e respeite as normas do grupo. Você tem que jogar de acordo com as regras do jogo. Quer dizer, se você entra num jogo de futebol, não pode carregar a bola com a mão, porque, se carregar, o juiz apita. E, antes de responder a uma oferta de serviço, leia a mensagem atentamente, mas atentamente de fato. Se a mensagem diz "envie CV para fulanodetal@gmail.com", é para esse endereço que você deve mandar o seu CV. Não vá clicando em "responder" e anexando CV. Primeiro, que as listas de tradutores do Yahoogroups não aceitam anexos. Segundo que você vai perder o serviço. Quem vai dar serviço para uma pessoa que nem se dá ao trabalho de ler as instruções de uma simples mensagem? Ou que leu e não tem competência para agir de acordo com o solicitado?

(Este é o artigo "de ontem", que não pode ser postado por motivos esquisitos. O "de hoje" vai daqui a pouco).

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Excessos pronominais (2)

Ontem, falei de excesso de pronomes nas traduções para o português e da dificuldade de recomendar ao tradutor que não traduzisse todos os pronomes, sendo que ele era pago pelo volume de tradução e, portanto, ganhava para botar todos os pronomes. Quer dizer, se eu pedisse para ele não traduzir todos os pronomes, estaria, ao mesmo tempo, pedindo para que se conformasse em ganhar menos.

Pelo menos à primeira vista é assim. Mas talvez não seja. Com um pouco de treino, a gente aprende a não traduzir os pronomes desnecessários. Quer dizer, não tem mais que traduzir e apagar, o que significa que temos que digitar menos e, portanto, terminamos a tradução mais rapidamente. No fim, o que se ganha por dia deve ficar pelas mesmas alturas e a qualidade da tradução melhora. Explicar isso é meio complicado, porque, certamente, para traduzir um certo texto mantendo todos os pronomes recebe-se mais do que para fazer o mesmo texto sem tanta pronominalhada.

Além disso a maioria dos tradutores morre de medo de ficar sem serviço e estica tanto quanto pode o que lhes cair nas mãos. Nesse sentido, no de se manter ocupado, traduzir todos os pronomes, desenvolver todas as abreviaturas, escrever todos os números por extenso e coisas que tais é uma excelente tática. Quando comecei, era o tempo da máquinas de escrever e me ensinaram várias técnicas para encher lauda, mas que prejudicavam a qualidade da tradução. Por exemplo, se o original dizia in 1970, the company's earnings totalled X, em vez de traduzir por em 1970, os lucros da empresa totalizaram X, o conselho era para traduzir por no ano de 1970, os lucros alcançados pela empresa atingiram o valor de X (72 caracteres, em vez de 43).

No princípio, quando tinha longos períodos de pouco serviço, vamos falar a verdade, fez falta uma esticadazinha. Mas, a longo prazo, foi um bom investimento, porque serviço bem feito atrai mais serviço e, além disso, serviço mais bem pago.

Pense nisso a próxima vez que resolver encher um pouco de lingüiça.

Se você for iniciante de tudo ou pretendente a tradutor, clique aqui.

O calendário de cursos a distância Aulavox sofreu um atraso, mas deve estar no ar amanhã.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Excessos pronominais

Já fiz muita revisão, para agências americanas e européias, mas para brasileiras, nunca. Outro dia, chegou a vez. Vou poupar você dos detalhes, para me deter num dos pontos que me chamou mais atenção: o fato de que todos os pronomes ingleses tinham sido traduzidos pelos seus homólogos portugueses. Se você ainda se recordar de suas aulas de inglês, vai se lembrar de como achou estranha a exigência de um sujeito explícito em cada frase. Onde o português diz não vi e não gostei, sem pronomes, o inglês precisa de I did not see it and I did not like it, com dois pronomes.

Essa é uma lição a aplicar na tradução do inglês para o português: tomar tento nos pronomes ingleses, porque não precisamos de todos eles em português, e ver quais precisam ser realmente traduzidos e quais podem ser omitidos. Entre a tradução e a omissão, há a transposição, como você provavelmente sabe, mas não vou falar nisso agora. Vou dizer que não é boa praxe traduzir todos os pronomes do inglês por pronomes do português. Mas lá o tradutor da agência traduzia todos. Todos, sem exceção. E o texto ficava horrível. Como era minha obrigação, fui cortando pronomes a torto e a direito – e, creio, só com isso já dei uma boa melhorada no texto.

A tradução estava sendo entregue em prestações e me deu gana de escrever para o tradutor para discutir o assunto. Depois, me lembrei que as agências americanas e européias com que estou acostumado pagam com base no número de palavras do original. Isso quer dizer que, para traduzir um certo texto, você vai ganhar X, com pronomes ou sem pronomes. Por outro lado, as agências brasileiras pagam de acordo com o volume da tradução (caracteres, toques, palavras, o que seja), o que significa que para cada pronome, que tem duas ou três letras, o tradutor ganha tanto como para digitar anticonstitucionalissimamente, se é que essa sucuri verbal foi alguma vez usada por alguém para alguma coisa.

Em outras palavras, se o tradutor deixasse de traduzir todos os pronomes, como manda a boa praxe, a qualidade da tradução ia aumentar, mas o pagamento ia se reduzir.

Ainda volto a este assunto, mas este artigo já está longo demais.

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O calendário de cursos a distância Aulavox vai ser postado hoje, mais tarde.

domingo, 28 de outubro de 2007

Traduzir é uma festa!

Quase tudo o que eu traduzo são finanças, o que causa alguma curiosidade entre os que têm cardápios de tradução mais variados e dos que traduzem literatura.

Perguntam se não acho o assunto muito árido e repetitivo. No principio, achava árido e repetitivo, sim. Mas árido é aquilo que você não entende e, no princípio, não entendida nada daquilo. Quanto mais aumentava meu entendimento do assunto, menos árido ficava. Comecei a entender diferenças sutis entre textos que, aparentemente, diziam exatamente a mesma coisa.

Durante muitos anos, boa parte do meu trabalho foi traduzir par o inglês os balanços de empresas estrangeiras e os pareceres de seus auditores. Os pareceres de auditor parecem todos iguais, mas não são. E diferenças de redação que parecem mínimas para o leigo são significativas para quem entende. No resto do texto, era interessante ver como as empresas apresentam seus sucessos e fracassos ao público leitor e como procuram o lado positivo do que quer que lhes tivesse acontecido ou tivessem feito.

Também traduzi para o inglês muito material sobre tributação, uma das coisas mais complicadas que já me caíram nas mãos, porque não há dois países com sistemas tributários iguais e explicar o sistema de qualquer país para quem só conhece o do seu. Lembra aquela história dos tradutores da Bíblia que tinham que traduzir textos sobre um povo que vivia no deserto para povos que viviam na floresta ou no gelo e não tinham a mais remota idéia do que fosse um mar de areia e se perguntavam se aquila história toda de tenda e camelo era verdade ou mera invencionice.


As repetições e quase-repetições, que não são poucas, à medida que fui me tornando mais experiente, me ajudaram a polir minhas traduções. Sei que alguns colegas desenvolveram ainda no século passado, um glossário e aplicam sempre as mesmas soluções, mecanicamente. X se traduz por Y e acabou a história. Ganham dinheiro, mas eu não consigo trabalhar assim. Cada repetição, cada quase-repetição, é uma chance de melhorar um pouco a última tradução que dei para a mesma frase. Não é mudar por mudar, é aproveitar a experiência para fazer melhorar, é mudar sabendo porque muda.


Traduzir é uma festa. Não importa o tipo de texto.


Por hoje é só. Se você está começando na profissão ou pretende começar, clique aqui.


Antes de encerrar, informo que a semana que vem volta a programação de cursos a distância via Aulavox. Tive de cancelar diversos eventos por causa de um momento mau que aparentemente passou. Hora de voltar à ativa. Aos que, mesmo sem entender, compreenderam, meus agradecimentos.

sábado, 27 de outubro de 2007

Uma tradução perfeita

No Orkut apareceu uma oferta de trabalho e o solicitante exigiu "tradução perfeita", exigência que, digamos, causou espécie e algumas reações apaixonadas.

Nunca fiz uma tradução que eu considerasse perfeita mais de cinco minutos depois da entrega ao cliente.Isso é que eu chamo teoria heraclítica da tradução. Lembra daquela história de que não se atravessa o mesmo rio duas vezes, porque nós próprios evoluímos e mudamos ao atravessar o rio e, ao reatravessar, somos diferentes? Pois é. Acontece o mesmo com a tradução. Você traduz, qualquer coisa, não precisa ser nenhuma obra-prima, e, nesse traduzir, se aperfeiçoa. Ao revisar a primeira vez, já conta com uma experiência que não tinha antes e, por isso, corrige as escorregadas, mas também o que, na primeira vez, pareceram acertos. Ainda bem que tem prazo para entregar. Se não houvesse, a gente ia continua dando só mais uma revisadinha até o dia do juízo final. Tem que mandar para o cliente, benze e manda. Mas se, no dia seguinte abrir de novo, não vai gostar do que fez. Se gostar, se achar perfeito, tem alguma coisa errada com você.

Por outro lado, tem o fato de que precisa saber aos olhos de quem a tradução tem de parecer perfeita. Existe um tanto de subjetivo na avaliação de qualidade de traduções. Pode parecer irritante, mas são essas subjetividades que os teóricos formalizam nos seus escritos. Falando, digamos, mais academicamente, a pergunta talvez fosse: perfeita de acordo com que teoria? Porque a aplicação de diferentes teorias resulta em diferentes traduções. Se não resultasse, para que, então, diferentes teorias?

Você pode dizer que o tradutor tem de ser respeitado em suas teorias. Claro, tem. Mas a pergunta é a seguinte: imagine um cliente, seja um intermediário como uma agência de traduções, ou um cliente final, digamos, uma empresa ou escritório de advocacia. Digamos que esse cliente recebesse uma tradução e, na leitura, lhe parecesse que a tradução está falha. O cliente liga para quem traduziu e diz que não gostou. Quem traduziu aparece no escritório do cliente no dia seguinte, com meia dúzia de trabalhos acadêmicos sobre teoria que dão todo apoio teórico à sua tradução. O cliente fica impressionado e se perguntando "será que eu sou burro?" e ligou para uma pessoa conhecida que ensinava teoria da tradução em uma faculdade e que, sendo partidário de outra teoria, caiu na gargalhada: "você foi vítima da turma do polissemantismo desagregacional unificado, uma teoria que tem lá seus defensores, mas são todos uns malucos. As traduções deles são um horror. Deve ter estudado na Faculdde X, onde se ensina essa idiotice, entre muitas outras. Lá na Y, onde eu dou aula, a gente procura fugir dessas doideiras. Pura masturbação mental. Joga fora a tradução e dá graças a Deus que você percebeu."

No lugar do cliente, o que você faria? Ou será que você pensa que acadêmicos não discordam?
Por hoje é só.

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quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Listas de erros de tradução hilários

Já falei aqui de listas de erros de tradução, listas de traduções hilárias, daquelas que a gente vê ou ouve, morre de dar risada e, depois, compartilha com os amigos, posta nas listas do Yahoogroups ou no Orkut? Nunca, não é? Pois é. Aqui, nos meus artigos ou palestras, você jamais vai topar com uma delas. Acho o cúmulo da parvoíce ficar fazendo coleções de erros no serviço dos outros. Principalmente quando quem faz a lista é profissional da tradução.

Será que as pessoas que ficam catando esses erros no serviço alheio não ganhariam mais procurando erros no que elas escrevem? Será que são perfeitas? Será que nunca escreveram uma cretinice na vida? Como diziam para a gente, antigamente, não sabem que macaco deve primeiro olhar para o próprio rabo? Será que o compilador da lista gostaria que seus erros fossem tratados assim, com ridículo e escárnio?

Não nego que haja maus tradutores. Há, sim, montes deles. Tradutores horríveis. E, também, erros horríveis cometidos por tradutores que não são tão maus assim e até por bons tradutores, que ninguém é perfeito. Mas – que diabo! – que coisa mais constrangedora isso de ficar ridicularizando os outros.

Antes de fazer ou passar para frente uma lista, ou de se matar de rir com uma delas, lembre que a próxima delas pode incluir um dos teus próprios erros. Lembre, também, que achar erros no serviço dos outros é bem mais fácil que fazer serviço perfeito.

Por hoje é só.

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quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O tradutor e o revisor

Para não dizerem que só falo em dinheiro, gostaria de contar a história de uma colega que trabalhava como tradutora em um órgão do governo americano. O bordão predileto da chefe dela era lembre-se de que o que você traduz aqui hoje pode aparecer amanhã na primeira página do Washington Post amanhã. Nunca saiu, mas é uma boa idéia ter essa frase em mente.

Mesmo que você saiba que seu texto vai ser revisto, faça de conta que não vai. Faça de conta que vai aparecer na primeira página dos jornais de amanhã – e com o seu nome em letras bem grandes. A função do revisor é cuidar das falhas do tradutor, não da sua descura. Quer dizer, se quer ser profissional da tradução e não sabe crase, então aprenda. Se não sabe a diferença ente há, a, á e à, passe uma boa hora em companhia do Evanildo Bechara e aprenda. Se pensa que pode usar maiúsculas a torto e a direito em português, como se usa em inglês, leia as regras de ortografia da ABL, que valem por força de lei. Se não sabe usar hífen, uma bela conversa com o Guia Ortográfico do Celso Pedro Luft faz maravilhas. Se não sabe quando usar propor e propuser, aprenda a diferença entre o futuro do subjuntivo e o infinito dos verbos irregulares.

Muita gente acha que, para ser tradutor, o importante é conhecer bem uma língua estrangeira. Importante é, sem dúvida, mas é igualmente importante conhecer a própria, fato de que muitos se esquecem. O tradutor fica como aquele pessoal que tira fotos na fronteira, com um pé em cada país. É essa nossa posição.

E a obrigação do revisor é lidar com as falhas humanas do tradutor, não com a sua descura. Se o revisor introduzir algum erro na tradução, a culpa é dele. Mas se passar algum erro na sua tradução, a culpa é sua. A função do revisor é transformar uma tradução boa em excelente. Não há revisor que consiga transformar em boa uma tradução ruim.

Já tratei deste assunto nestes tópicos.


terça-feira, 23 de outubro de 2007

Tópicos campeões de audiência

Tenho um serviço que me diz de onde vem cada pessoa que visita este blog. Não diz quem é, não me dá o e-mail, mas diz como veio parar aqui. Grande parte das vezes, as visitas vêm de uma pesquisa no Google. Muitas das pesquisas não têm nada que ver com o assunto do blog: o visitante veio parar aqui por mera imperícia no trato com o Google. Espero que você, que se dedica ou quer se dedicar à tradução como profissional, tenha investido meia horinha para aprender a fazer pesquisas no Google direitinho.

Entre as visitas que têm alguma relação com tradução, as "campeãs de audiência" são diversas misturas de lauda, RPA, nota fiscal, recibo simples, frila, preço e tradução. Dá o que pensar.
A famigerada lauda (que eu abandonei, sem arrependimentos, no século passado) é ainda uma unidade muito usada para medir trabalho de tradução, mas o tanto de perguntas confirma que há muita incerteza sobre o que possa ser o raio da lauda. Por isso, antes de cotar um preço por lauda é bom perguntar ao cliente que definição de lauda ele usa.

As pesquisas sobre RPA, nota fiscal, recibo simples e frila indicam como ainda tem tanta gente insegura sobre o estatuto jurídicos dos profissionais liberais. Há muita gente que acha que existe uma categoria chamada "frila", livre como os pássaros, que não deve contas ninguém, muito menos à Secretaria da Receita Federal, ao INSS e à Prefeitura Municipal, e mais do que um já se irritou comigo por eu dizer que isso até existe, mas é ilegal e dá problema, como problema dá comprar notas fiscais de outros tradutores.

Preço é outra das preferidas, porque a turma não sabe como cobrar e aceita condições absurdas.
Volta e meia retorno a esses assuntos, aqui e vou continuar voltando. É uma espécie de catequese, embora nem de longe possa dizer que saiba tudo ou esteja sempre certo. Mas sempre alguma luz se lança sobre o caminho.

Esses assuntos têm importância fundamental para todo bom profissional e devem ter para você também, se é ou quer ser profissional da tradução. Uma profissão se cria com bons profissionais, não com uma lei qualquer.

domingo, 21 de outubro de 2007

Uma resposta mal-educada

Nós querendo aumentar os preços, os clientes querendo baixar. Isso tudo faz parte da dinâmica do mercado. E então vem a história do colega nosso que recebeu um telefonema de uma agência estrangeira para a qual trabalha há algum tempo. A pessoa, do lado de lá, chorou as mágoas, disse que o mercado estava mal, e pediu que o colega reduzisse seus preços. Caso não reduzisse, seria classificado como "careiro" e só iria receber serviço quando os que cobravam "preços razoáveis" não estivessem disponíveis.

O colega se recusou a baixar o preço e, aproveitando que já estavam ali conversando mesmo, pediu que anotassem uma bela alta boa no preço que ele cobra para fazer revisão e explicou: "se o padrão de vocês agora é de oito centavos [de dólar, era uma agência americana] por palavra, vai ter tanta gente tão ruim que revisar as traduções deles vai dar muito mais trabalho e, portanto, exige remuneração melhor".

Certamente, uma respostinha mal-educada. Mas o cliente merecia.

sábado, 20 de outubro de 2007

O que fazer com excesso de serviço?

Quando um tradutor se vê sem serviço, o que faz? Começa a aceitar serviço a preço menor. Reclama, resmunga, mas é a vida. E quando está com excesso de serviço, o que faz?

Há três soluções para o problema.

Primeiro, você pode começar a recusar serviço, por falta de tempo. Acho uma pena, um desperdício, mesmo. Vale numa emergência, se, num determinado dia, aparecerem dois serviços com execução incompatível. Quer dizer, aparecem dois serviços para o dia seguinte e ambos exigem um dia inteiro de trabalho. A gente pode dar uma esticada no dia, eu já dei muitas. Mas para tudo há um limite. Então, rejeite. Paciência.

Mas se o serviço começa a crescer constantemente e você começar ter de trabalhar todos os fins de semana, doze horas por dia, está na hora de tomar uma providência.

Sempre se pode repassar parte do serviço a um colega. Estamos todos rodeados por colegas com pouco serviço, alguns em dificuldades financeiras. Vejo aí, ao menos, dois problemas. O primeiro é achar alguém de confiança para fazer o trabalho. Já vi mais de um caso colega que repartiu trabalho e tiver de refazer tudo, porque não ficou satisfeito com o que recebeu. Também há casos em que o trabalho não está de todo ruim, mas, mesmo assim, exige uma revisão. Quando o trabalho é dividido, em vez de meramente repassado, a revisão é necessária para uniformizar o texto, no mínimo.

Some o tempo da revisão ao tempo necessário par administrar os ires e vires e aos impostos e você vai ver como é difícil, com o que você recebeu do cliente, pagar uma taxa decente ao colega e ainda não ficar no prejuízo. Se seu cliente já for um intermediário, então, fica tudo muito complicado. Já vi muita gente reclamando que recebe traduções de outro tradutor, mas ele paga uma miséria. Mas o fato é que se o "outro tradutor" recebe pouco, não vai poder pagar muito.

Além disso, a maioria dos independentes não tem capital e, quando o cliente atrasa, não tem como pagar o terceirizado. Às vezes, nem quando o cliente paga na hora dá, porque a margem que ele reteve era exígua demais para cobrir os custos, a despeito do fato de que o terceirizado reclama que o terceirizador ficou com a parte do leão.

Claro, o tradutor com excesso de serviço, se tiver talento para isso, pode ser organizar como terceirizador, cobrar mais de seus clientes, montar a estrutura apropriada e ganhar um bom dinheiro. Mas isso se tiver talento e capital. Muita gente não tem. Inclusive eu. Lamentavelmente, terceirizar serviço é uma opção atraente ("para não cair nas mãos de uma agência" é o eufemismo predileto) e muita gente sem competência se estabelece, com resultados catastróficos.

Então, o que fazer?

Bom, primeiro, livrar-se dos clientes chatos, dos que ranhetam com tudo, dos que enviam serviço maluco, dos que demoram a pagar. Segundo, aumentar preços. Quando você aumenta preços, todos os clientes reclamam, cada um apresentando uma razão diferente, que vai desde a "crise atual do mercado" até a situação do time do Corinthians, passando por falta de verba, atenção ao cliente antigo, manutenção de relacionamento e mais o diabo que os carregue a todos eles para perto de suas respectivas sogras. Muitos vão dizer que não vão mais poder trabalhar com você. Alguns podem até trocar de tradutor. Mas, a final de contas, você estava com excesso de serviço, pode se dar ao luxo de perder um cliente.

A mesma lei da oferta e da procura, que te faz baixar preços quando falta serviço, tem de conduzir a um aumento de preços quando o serviço sobra.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Como e quando aumentar os preços de seus serviços

Está rolando uma conversa no Orkut sobre preços. A turma que trabalha para o exterior está chateada com a queda do dólar e quer "repor as perdas". E claro, tem gente que trabalha em reais e está cobrando a mesma coisa há muito tempo. Mas, dizem eles, os clientes não querem entender. Não querem nem vão entender nunca. Ninguém vai concordar com afirmação nenhuma que aumente seus custos. Nem nós, que somos tão bonzinhos. A gente paga o aumento no colégio dos filhos porque é obrigado, não porque concorda com o fato de que, dados os aumentos concedidos aos professores e não sei mais o quê o colégio "se vê obrigado a reajustar as contribuições escolares, com o objetivo de manter a mesma alta qualidade de ensino" e mais o raio que os parta a todos eles e suas ilústríssimas famílias.

O fato é – e, curiosamente, parece que poucos se dão conta disso – que o preço de qualquer bem ou serviço se rege pela lei da oferta e da procura, não pela evolução dos custos. Quer dizer, se você está com pouco serviço, nem pense em aumentar os preços, porque não vai dar certo. Por outro lado, se estiver sobrecarregado, se não estiver dando conta, simplesmente vá avisando um cliente atrás do outro que, doravante, em vez de dez são doze. Todos vão reclamar, todos vão querer "negociar", muitos vão dizer que vão ter de parar de trabalhar com você, alguns de fato vão sumir. A carteira provavelmente vai encolher. Mas o que ficar vai pagar mais e você vai ganhar a mesma coisa. Com o tempo, você repõe os fujões (ou eles voltam sozinhos – já me aconteceu mais uma vez) e recomeça o processo.

E, evidentemente, todo cliente novo tem de entrar com preço mais alto. Quer dizer, serviço a dez você tem de sobra, quem quiser o teu tempo vai ter de pagar doze e acabou. Em outras palavras, não recuse serviço: aumente preços.

Para aumentar preços, é necessário muita firmeza. Se vacilar, jacaré te pega. Uma vez, há muitos anos, avisei um cliente de que, do dia tal em diante, o preço ia ser maior. Ele perguntou a razão. Em vez de uma dar série de justificativas lamurientas, contra todas as quais o cliente certamente teria uma lamúria ainda maior, disse que tinha me autoconcedido um aumento de mérito.

O sujeito respondeu que não ia mais poder me dar serviço, com o novo preço – que é o que sempre dizem. Respondi que lamentava, que até entendia e tal, mas que ia aumentar os preços para todos os clientes e não podia deixar só ele com preço antigo. Mantive o cliente. Mantive durante muitos anos, até que a empresa foi engolida por outra.

Em tempo, estou aqui falando de "dez" e "doze" porque precisava de dois números. Não estou dizendo que alguém deva cobrar dez ou doze centavos, reais, euros, marcos, ou dinares eslobóvios por palavra, lauda ou baciada.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Virtù e Fortuna

Era o que dizia o Maquiavel: você precisa das duas: virtù e fortuna. Numa definição modernizada, virtù é o conjunto das nossas qualidades pessoais e fortuna são os fatores fora de nosso controle, digamos, a nossa "sorte". Para ter sucesso na vida, inclusive na vida profissional, você precisa de ambas. Até certo ponto, muita fortuna compensa um pouco de falta de virtù e vice-versa, mas há limites. Precisa ser muito, um rematado bocó precisa de muita, muita sorte mesmo, para conquistar sucesso profissional. E, se você for absolutamente azarado, precisa ser muito gênio para dar um par de passos na carreira.

É muito comum a turma falar no "quem indica". Indicações são importantes, sim, mas as boas indicações vêm de pessoas satisfeitas com o seu serviço ou de colegas que acham você competente, o que significa que, para ter a fortuna das boas indicações, é necessário ter a virtù de procurar aprender a trabalhar de modo que satisfaça os clientes e cause boa impressão aos colegas. Evidentemente, é importante aparecer, expor-se, correr atrás do serviço. Gregos e romanos tinham uma deusa para essas coisas, Fortuna em latim, Tyche em grego.

É preciso colocar-se no caminho da deusa, para se beneficiar de tudo o que ela trás de bom. Finalmente, é importante estar preparado para fazer uso das dádivas da deusa. Temos uma colega que sempre atribui à sorte o ter topado com um amigo que estava com mais serviço do que podia fazer e queria se livrar de uma tradução. Mas o fato é que, se ela não estivesse preparada para fazer o serviço, ou teria de recusar ou faria uma tradução porca e não viria a segunda.

Mais tarde volto á novela dos descontos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Mais descontos!

Então, já que estou de volta, deixa falar um pouco mais de descontos. É muito comum o cliente falar em "negociar". Negociar é muito bom, mas significa ceder em algum ponto, para conseguir uma vantagem em outro. Por exemplo, tenho um cliente que negociou comigo uma redução de preço em troca de um pagamento imediato, em vez dos 30 dias que são norma nos EUA e para os quais meus preços estão ajustados. Lembrando que as taxas de juros aqui são mais altas que lá, foi vantagem para ambas as partes.

Mas um desconto a troco de nada não é negociação: é pura extorsão. Uma vez, um cliente disse que era necessário "negociar" a minha proposta e pediu um desconto. Respondi que "negociar" significa se oferecer para conceder alguma coisa em troca de outra e o cliente, respondeu, sarcasticamente, que era claro: se eu concedesse o desconto, ele concedia o serviço; sem desconto, eu ficava sem o serviço dele. O sarcasmo dele feriu. Não gosto de ser tratado como mendigo. Se fosse hoje, eu simplesmente diria que o meu preço era aquele e esperaria a reação dele. Mas, na época, eu ainda era adepto de dar ao cliente "boas respostas" e respondi que, era exatamente o contrário do que ele pensava: se ele não me pagasse, a empresa dele ia ficar sem o meu serviço.

Nem me lembro mais quem era o sujeito: sumiu na noite dos tempos, como dizia um professor meu. Mas não acho que eu tenha perdido alguma coisa: certos clientes é melhor nem ter.

Hoje é amanhã – ou amanhã é hoje, sei lá.

Passou por mim um furacão, ou melhor, passaram vários.

Vou poupar você das descrições. Mas fiquei vários dias realmente impedido de escrever. Depois, veio a inércia. Inércia, caso você não saiba, não é exatamente o "não fazer nada", mas o "continuar fazendo o que já se estava fazendo". Enquanto eu estava escrevendo todos os dias, todos os dias escrevia um tópico. De repente, pulei um dia, pulei dois, pulei três, porque não tinha como escrever, de fato. Mas, depois, serenada a tempestade, poderia ter voltado e, portanto, marquei a volta para "amanhã, sem falta". Firme que sou nas minhas opiniões, "amanhã" é amanhã e não tem conversa. Por isso ficou assim um tempão. Declarei, entretanto, que "amanhã" é hoje: um dia tenho que recomeçar e estou recomeçando agora.

Valeu a pausa para repensar umas coisinhas. Espero que você goste do que vem por aí, vamos ver se conseguimos nos divertir juntos de novo.

Ah, antes que me esqueça, também estou retomando os cursos Aulavox.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Traduzindo Bush

Um colega levantou a questão de como traduzir o que, temporariamente, vou chamar as cincadas de George W. Bush. Traduzir as falas de George W. Bush é uma tarefa que, para o profissional, traz pelo menos três problemas.

O mais simples são os erros de gramática, dificuldade que não deve assustar qualquer tradutor, já que encontramos erros de gramática por todo o canto e mesmo nós próprios dizemos e escrevemos muita bobagem.

Depois, vem o fato de que o que ele diz nem sempre é muito claro. Problema maior, sem dúvida, mas, mesmo assim, não dos piores, já que traduzir textos obscuros é tarefa de todo dia.

O pior dos problemas, a meu ver, é o que chamo a questão ideológica. A maioria de nós – incluindo eu – discorda profundamente do ideário político de Bush e tem por ele uma antipatia fundamental, basilar, hepática, até, por assim dizer. É muito difícil traduzir um texto (falado ou escrito, se me permitem essa ampliação do sentido) de autoria de alguém que não nos é grato.

Há muita gente que advoga uma tradução ideológica: aproveitar a chance oferecida pela tradução para, na medida do que conseguir, pintar o diabo ainda mais feio do que ele na verdade é. Sou contra essa abordagem. Para mim, essas abordagens “ideológicas” são a antitradução. Fiquei todo contente de ler, no Quase a mesma coisa, do Umberto Eco, as cutucadas que ele dá nas “tradutoras feministas”, com o agradecimento a duas tradutoras de seus textos que preferiram fazer traduções sem qualificativos, não traduções feministas.

Então, a melhor maneira, para mim, de enfrentar as coisas que o Bush diz é simplesmente esquecer quem ele é. Democraticamente, afirmar que todos são iguais perante o tradutor/intérprete e dar ao discurso dele o mesmo tratamento que daríamos ao discurso de um político igualmente mal-falante, mas cujas idéias aprovássemos, ou, melhor ainda, de um sujeito que nem soubéssemos quem era e estivesse ensinando alguém onde era o banheiro mais próximo.

Não sou especialista, mas acho que o problema maior da forma da fala do Bush (embora não do conteúdo) seja causado por uma dislexia. Conheço uma senhora disléxica, muitíssimo querida minha, que diz coisas extraordinárias, não por burrice, mas pela dislexia. Se eu fosse traduzir o que ela diz, botaria tudo "em língua".

Nem de longe estou dizendo que, curada a dislexia, o Bush fosse virar intelectual e um homem do bem. Estou dizendo que as distorções produzidas em sua fala pela dislexia devem ser desperezadas pelo tradutor, assim como caberia desprezar o sotaque de um estrangeio, ou algum distúrbio da fala, como gagueira.

sábado, 22 de setembro de 2007

Descontos, continuação da novela

Uma das maiores bobagens que se diz sobre o mercado é que o cliente sempre prefere o mais barato. Se isso fosse verdade, quem se recusa a trabalhar por três centavos de real a palavra estaria sem serviço há tempos.

Muitas vezes, a escolha é condicionada pelo prazo: quem promete entregar mais cedo, leva. Outras vezes, pela confiança: pega o serviço o tradutor conhecido, que já prestou bons serviços.

Até já peguei um serviço, há muitos anos, porque meu preço era o médio! O cliente, depois de longas conversas amigáveis, me explicou que eles jamais tinham contratado um tradutor, não tinham critério algum a seguir e, então, pediram três cotações, descartaram a mais cara e a mais barata e saí eu, com o rabinho abanando e o serviço em baixo do braço.

O que é verdade, triste, mas verdade, é que a maioria dos clientes usa a afirmação de que sempre pega o mais barato como meio de intimidação. Então, você cota dez, o cliente liga, faz mil elogios, diz que gostaria de trabalhar com você, mas, lamentavelmente, há alguém que pediu oito e ele tem que escolher o mais barato, por norma da casa. É hora de morder a bala, como dizem os americanos e fazer de conta que nem se importa. Primeiro, porque pode perfeitamente ser mentira do cliente; você não viu as cotações dos colegas e é bem capaz de eles nem terem consultado mais ninguém. Segundo porque, se ele tem que comprar do mais barato e já tem o mais barato, já resolveu o problema dele, certo?

Minha resposta, nesses casos, é padrão: não cabe a mim estabelecer as normas que regem a escolha de fornecedores pela sua empresa. Se ele perguntar se não estou disposto a baixar o preço, digo que não, porque esse é o preço que cobro de todos; se der um desconto ao senhor, vou trabalhar por oito quando poderia trabalhar por dez, o que não faz sentido, porque estaria pagando dois centavos a cada palavra que traduzo. Normalmente, a terceira pergunta é se eu tenho mais serviço e a resposta é claro, serviço é o que não falta. Já perdi muito serviço com essa estratégia, mas foi esse também um dos meios que me ajudou a aumentar meus preços.

Nunca se esqueça: coragem não garante vitória, mas o medo assegura a derrota.

Até amanhã, que o blog está entrando nos eixos de novo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Translation Journal

Você conhece o Translation Journal? É uma publicação que já tem mais de dez anos, sempre na Internet, sempre grátis. Uma barbaridade de coisas interessantes para nós. Já escrevi muito para o TJ e no número mais recente tem um artigo meu. O dono, proprietário, editor-chefe e o que mais seja é o Gabe Bokor, tradutor experiente e grande amigo que fala português perfeito. Vai lá e divirta-se.


Havia um erro no link. Graças a Isabel Silva, foi corrigido. Não foi o único dos meus erros, não foi o primeiro nem a de ser o último. E, lamentavelmente, não foi o maior deles.

Descontos II

Volto aos descontos, um assunto que me fascina.

Vou contar uma história. Velho gosta muito de contar histórias. Há muito tempo, um médico que precisava de traduções para sua tese de doutorado me pediu um desconto. O motivo era que a tese não tinha fins econômicos e que ele estava longe de ser rico. Cai como um jovem palmípede. Na verdade, o principal objetivo da tese, como de toda tese de doutorado, era o de obter uma promoção para ele, com o respectivo aumento de salário, e não conheço maior fim econômico do que esse.

A alegação de que o dinheiro dele era parco também era algo capenga: ele morava em casa própria e eu morava de aluguel. Para terminar, ele e a esposa cada um tinha seu carro e, naquele tempo, a Vera e eu alegremente compartilhávamos os bancos dos ônibus de SP.

Ah, ele foi aprovado, foi promovido e hoje é um médico ilustre, ganhando rios de dinheiro. Mérito dele, claro. Mas não me venham, nunca mais, dizer que esse troço de trabalho acadêmico não tem fins lucrativos.

Tudo bem, já passou. Mas nessa, não caio mais.

Amanhã, tem mais.

Daqui a pouco, a Reunião na Sala 7, grátis, a distância.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Descontos sobre preço de tradução

Você já viu alguém chegar no caixa do supermercado, ouvir o preço e pedir um desconto? Não? Nem eu. Por que ninguém pede desconto no supermercado e tantos pedem para nós, tradutores?

A resposta é simples: porque nenhum supermercado dá desconto e muitos tradutores dão descontos. Inclusive, é comum a gente ouvir que poxa, fulano deu um descontinho camarada para a gente, você não vai dar?

Quer dizer, pedido de desconto gera pedido de desconto. Eu não dou descontos. Coto o preço e fico firme. Quer, quer; não quer, come alface com colher – e pronto. Estou atendendo solicitações de serviços profissionais, não vendendo camelo num mercado árabe.

Quando me pedem descontos – e a maioria pede – recuso, com cortesia, educação, bons modos, direitinho como mamãe ensinou. Mas não dou desconto para ninguém e recomendo que você siga o mesmo caminho. Pechinchar é um hábito desagradável, que não devemos incentivar e a concessão de um desconto é o maior incentivo que você pode dar ao cliente para que ele continue te espremendo até você virar bagaço.

Se o cliente quiser pagar menos, tem que dar algo em troca que compense a redução. Por exemplo, o sujeito me manda um pdf endiabrado, eu coto X, ele pede um desconto. Digo logo 20% de desconto se você me mandar o arquivo em formato Word.

Volto ao assunto amanhã, porque, sobre isso, dá para escrever um livro. Aliás, amanhã tem Reunião na Sala 7, grátis, a distância, portanto, para todos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Ajudar ou não ajudar, eis a questão

Tenho um amigo, o João Cobracaro, que se dedica à tradução de corpo e alma. Não só se esforça como um doido para prestar bons serviços a seus clientes, mas também participa de numerosos fóruns de tradutores, onde ajuda os colegas como melhor pode. Como é competente e esforçado, a ajuda é sempre de qualidade. O João sabe das coisas e, por isso não tem medo de compartilhar o que sabe com os outros. Sujeito tranqüilo, bonachão, raramente se irrita.

Mas teve o dia em que se irritou. Foi assim: um possível cliente fez uma consulta, ele cotou preço, o cliente pediu outras cotações, a do João era a mais alta, foi outro o escolhido. Paciência, faz parte da vida, se eram três os concorrentes, dois tinham que perder. Um dos perdedores foi ele. O cliente até ligou, com aquela famosa história do a gente queria fazer com o senhor, mas tem uma cotação muito mais baixa, não vai dar, se o senhor fizesse aí uma diferença para a gente… Mas o João decidiu não baixar o preço e ficou sem o serviço. Nem por isso ia morrer de fome, como, de fato, não morreu.

No dia seguinte, abriu a caixa de correspondência e estava lá a mensagem do José Fazpormenos, com uma porção de dúvidas que só podiam ter saído do serviço para que o João tinha apresentado a cotação perdedora. Tinha sido do José a cotação vencedora, então. E o José tinha mil dúvidas, dúvidas simples, mas dúvidas.

João começou a escrever uma resposta, mas logo parou. Que diabo, pensou ele, tem alguma coisa errada, nesse negócio. O João achou que não fazia sentido ele resolver os problemas do José, porque, assim, estava fazendo concorrência a si próprio. Ele tinha pedido dez pela tradução, o José pediu cinco, o cliente pegou, então que fique com o serviço do José, por cinco e vá para o diabo que o carregue. Não faz sentido o José ganhar cinco, o cliente pagar cinco e o João não ganhar nada e, ainda, prestar serviços de consultoria terminológica. Na cabeça do João, pelo menos, não fazia sentido.

E as perguntas do José Fazpormenos eram básicas, fundamentais mesmo. O João ficou se perguntando, se o cara não sabe isso, imagine o resto! Porque a gente não pergunta tudo o que não sabe, mas só o que percebe que não sabe. Aí, então, vem a minha pergunta: se o João tivesse respondido a mensagem e solucionado todas as dúvidas, faria alguma diferença? Ou, melhor dizendo, faria alguma diferença que o cliente percebesse? Quer dizer, será que, com as respostas do João, o José poderia apresentar uma tradução que o cliente considerasse tão boa quanto a do José Cobracaro, pela metade do preço?

Não tenho uma boa resposta para essa pergunta. Ainda bem que o caso não aconteceu comigo.

Não se esqueça da Reunião na Sala 7, que é grátis e a distância.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Memória de tradução (“CAT”)

Outro dia, no meio de uma discussão em uma lista, um colega me escreveu, particularmente, perguntando o que era uma memória de tradução, o que também se conhece pelo nome inglês CAT, abreviatura de computer-aided translation. Respondo por aqui, e assim dou um pouco de vida a este blog, que não anda lá muito bem das pernas.

Para começo de conversa, memória de tradução é um péssimo nome, isso é o que é. E, para piorar, tem pelo menos dois sentidos.

A rigor, uma memória de tradução é um corpus paralelo. Ou seja, um arquivo em que são armazenados textos em duas línguas, um ao lado do outro. Os formatos variam, mas, digamos, só para explicar a quem não sabe, algo assim:

The Chemistry book is red. O livro de química é vermelho.
London is the capital of EnglandLondres é a capital da Inglaterra.

As memórias de tradução armazenam segmentos. Um segmento corresponde, aproximadamente, a um período, como definido pela gramática. Assim, preserva-se contexto. Todos nós sabemos que book também é o verbo reservar (passagem, por exemplo, mas, no exemplo acima, não pode ser reservar, porque o contexto não permite.

Para trabalhar com esses bancos de dados, é necessário um programa especial, que, lamentavelmente, também é conhecido como memória de tradução, embora programa de tradução assistida por computador fosse mais preciso. À medida que você trabalha com um desses programas, ele vai automaticamente alimentando o seu banco de dados com as traduções que você vai fazendo e, ao mesmo tempo, pesquisando o banco para ver se há alguma informação que possa ser útil. Se encontrar alguma coisa interessante, faz uma sugestão ou mais. Costumam ser boas sugestões, porque as memórias de tradução, como eu disse, consideram o contexto. São sugestões, quer dizer, você pode mudar como quiser ou até desprezar.

Os programas de memória de tradução fazem muitas coisas mais. Por exemplo, consultam glossários automaticamente, facilitam o trabalho de manter a formatação, ajudam com números e prestam inúmeros outros serviços. Além disso, traduzir arquivos em formatos xml, html e outros bicharocos sem essas ferramentas é praticamente impossível.

Há muitos enganos e mal-entendidos a respeito dessas ferramentas. O primeiro e pior é a confusão com as ferramentas de tradução automática, tipo Babelfish. São coisas diferentes, com objetivos diferentes, tecnologias diferentes e resultados diferentes.

Cada vez mais, os tradutores profissionais usam esses programas de tradução assistida por computador. Começou com a turma da tradução técnica, sempre mais novidadeira. Mas agora, depois de grande resistência, até a turma da literária, que sempre foi mais conservadora, está descobrindo que facilitam a vida do tradutor.

Uso essas coisas desde 1997 e fizeram uma grande diferença na minha vida. A ferramenta mais conhecida é o Trados, mas a minha predileta é o Wordfast, que é mais eficiente e mais barata. Para saber mais sobre essas coisas, clique aqui.

E, aliás, aproveito para convidar para a Reunião na Sala 7, um evento grátis e a distância, para tradutores e pretendentes a tradutor. Ninguém vai ficar tentando te empurrar curso pago nem livro nem nada. É só uma discussão entre colegas.

domingo, 2 de setembro de 2007

O mistério de Ivanhoé - II

A história da tradução de Ivanhoé¸ contada aqui, teve umas conseqüências curiosas. Quem eu esperava que se manifestasse ficou calado, ao menos até agora, mas há uma porção de formiguinhas tradutoras procurando informações e meu e-mail particular tem recebido informações, que, por não terem sido confirmadas, não vão ser divulgadas aqui. Há, inclusive, um colega que ao que tudo indica descobriu um caso semelhante.

Isso é grave, muito grave. Vou traçar um paralelo com a música clássica, a ver se me faço entender. Beethoven, como todos na época dele, trabalhava por empreitada, muitas vezes até por encomenda. Chegava um editor de música e pedia "uma sonta para violino" e ele fazia. Ao contrário do que diz a lenda, Beethoven era um negociador hábil e ganhou um dinheirinho razoável com seu trabalho. Então, o editor pagava a ele lá um tanto e recebia a tal da sonata. A sonata era publicada como de L. v. Beethoven.

Muitas vezes, saiam edições pirateadas, mas sempre com o nome de Beethoven. As obras de Beethoven caíram no domínio público, o que significa que podem ser publicadas ao gosto do freguês. Se eu cismar de hoje, como o dia está bonito, publicar uma nova edição das Sinfonias, direito meu e não há o que reclamar. Mas tem que ser com o nome Beethoven. Não posso lá eu publicar a famosa quinta e botar como autor o meu grande amigo Brederodes Sacatrapos, jovem artista pelo qual tenho grande estima e que anda precisando de um empurrãozinho em sua carreira.

Existem alguns casos cabulosos, na música, na literatura e na tradução, em que Alfa faz alguma coisa que Beta assina. Há casos, também, de falsa atribuição, enganos cometidos por pesquisadores, como os que atribuíram uma certa obra a Joseph Haydn. Johannes Brahms achou que deveria escrever umas variações sobre a obra e daí saíram as Variações sobre um tema de Joseph Haydn. Posteriormente, foi descoberto que a obra tinha sido composta por Ignaz Pleyel, discípulo de Haydn.

Há casos de contestação de autoria e de autoria incerta, como sabe qualquer um que tenha dedicado uns minutos aos sonetos atribuídos ou atribuíveis a Camões. Mas, aparentemente, nada disso acontceu aqui. Simplesmente, a obra mudou de autor.

Continuo a pesquisa e continuo a agradecer a ajuda que me possam oferecer. Se você tiver alguma informação mas tiver receio de divulgar, mande uma mensagem ao meu e-mail, em vez de fazer um comentário. Vou investigar, com os recursos de que disponho, ressalvando totalmente sua identidade.

Obrigado pela visita e pela possível cooperação