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domingo, 4 de maio de 2008

Que línguas aprender par ser tradutor?

Oi, Danilo. Tudo bem?

Meu nome é Julieta, tenho 18 anos e interesso-me pela área de tradução também. Atualmente faço jornalismo, mas irei mudar de curso. Visitei seu blog esses dias e achei-o ótimo. Tirou algumas dúvidas que eu tinha.

Pretendo começar o curso de Tradutor e Intérprete aqui em Bauru na Universidade do Sagrado Coração (não sei se conhece a universidade, esse é o site www.usc.br), porém o curso aqui oferece tradução apenas português/inglês. Seria muito pouco? Porque, na verdade, eu me interesso por outras línguas também, além do inglês.

Gostaria de ter uma resposta, se possível. Obrigada.

Para começar, Julieta, parabéns pelo seu português impecável. Escrever bem não garante nada, mas quem não sabe escrever tem um futuro triste na tradução. Quer dizer, está começando com o pé direito.

Já estive duas vezes na USC como palestrante. O ambiente é agradável e amigável, mas a visita foi curta demais para que eu pudesse formar uma opinião sobre o curso em si. De qualquer forma, o curso, por bom que seja, só pode ensinar: só você pode aprender – e esta é uma lição que todo estudante deveria saber.

A maioria dos cursos de tradução só cuida de inglês, o que é lamentável, mas uma necessidade, porque a busca pelos cursos de tradução em outras línguas é muito pequena. E a predominância do inglês só faz aumentar desde que estou no mercado. Muitos excelentes tradutores de alemão hoje vivem mais de traduzir inglês.

Mas vamos tentar colocar as coisas nas devidas proporções.

Traduzir exige um conhecimento muito profundo do par de línguas envolvido e mesmo você, que escreve português muito bem, vai ter de aprender uma meia dúzia de coisinhas sobre nossa língua, para se tornar uma tradutora de primeira água. De inglês, então, nem se fala – mesmo que você tenha feito um curso pesado, tipo cultura inglesa. Se seu inglês for meio cru, então, vai ter de dar um duro danado. Não que você não vá conseguir, é claro.

Poucas pessoas conseguem atingir esse nível em LM+2, quer dizer sua própria língua materna e mais duas. Raras conseguem LM+3. Muito raras conseguem mais que isso. A quase totalidade das pessoas que acha que é capaz de traduzir de e para quatro línguas (LM+3), simplesmente carece de autocrítica.

Nada impede que você faça como tantos tradutores apaixonados por línguas, que são capazes de ler com razoável facilidade oito ou mais línguas, mas as línguas de trabalho são realmente LM+1 ou LM+2, raramente LM+3. O resto é diversão.

E o seu rendimento não depende do número de línguas que traduz. Se você traduzir inglês, depende muito mais de sua especialização. Eu, por exemplo, sou um especialista em contabilidade, finanças, direito societário e tributário. Por isso, tenho serviço em quantidade e posso exigir um pagamento relativamente alto. Se agregasse francês e alemão ao meu inglês, não iria ganhar um tostão a mais, porque, para cada tradução do francês aceita, teria de recusar uma de inglês.

Na verdade, se você trabalhar com inglês, não precisa de mais nada. Se trabalhar com francês, italiano, alemão ou espanhol (grupo que se chama figs em inglês – French, Italian, German, Spanish) vai ter mais dificuldade em montar uma carteira e pode ser útil trabalhar com duas línguas, digamos, francês e italiano, ou alemão e inglês. Se optar por algo que não seja Inglês+FIGS, aí sim, provavelmente vai ter de trabalhar com várias línguas. Mas aí, estamos entrando em um campo muito complexo, que fica para outro dia, porque este artigo já vai longo demais.

Espero que a resposta tenha sido útil a você e a mais alguém. Acho que amanhã volto ao tema.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O Cenossão

Era uma vez uma empresa que achava que pagar tradutor para o inglês ainda vá lá – mas que traduzir do inglês qualquer funcionário podia e devia. Um dia, receberam a visita de um inspetor de segurança, vindo da matriz, que ficou horrorizado de ver, na fábrica, o pessoal fumando em baixo das placas de é proibido fumar e, por isso, incluiu no seu relatório um item enforce the smoking prohibition, querendo dizer, obviamente, que quando alguém se pusesse a fumar nas áreas onde era proibido fumar, deveria ser abordado por um dos seguranças e ser obrigado a apagar o cigarro.

Mas a regra da empresa era não pagar profissionais para traduzir do inglês, como eu disse, então, pegaram algum funcionário mais jovem, distraído e indefeso e disseram: aproveita o fim de semana para traduzir este relatório. O infeliz levou o papel para casa e traduziu, a duras penas e de muito má vontade. Entregou na segunda-feira de manhã e foi cuidar dos seus afazeres. Esse funcionário nem era, nem queria ser, tradutor. Sua profissão era talvez advogado ou engenheiro e, para ele (ou ela), tradução não era coisa nem séria nem importante. Então, esqueceu do incidente e foi se preocupar com coisas sérias.

A tradução era neessária porque o encarregado de segurança na fábrica era um funcionário mais antigo, do tempo em que a empresa ainda não fazia questão de que todos os funcionários "soubessem" inglês. Então, o encarregado da segurança pegou a tradução e começou a responder os quesitos. Primeiro: reforçar a proibição de fumar. Não sabendo inglês, não lhe poderia ter ocorrido que o reforçar era uma falsa tradução para enforce e aceitou a recomendação ao pé da letra – embora se sentisse algo ofendido: a fábrica tinha já uma quantidade enorme de placas de é proibido fumar. Por isso, sua resposta começou assim: embora a fábrica já conte com mais de 50 placas "e proibido fumar" grandes e visíveis, vamos mandar afixar mais outras tantas.

Pronta a resposta, e aprovada por quem de direito, me pediram para traduzir para o inglês. Foi só abrir o papel e senti, na hora, como você também teria sentido, o cheiro de enxofre. Alertei a secretária, que me olhou bem no fundo de meus olhos vesgos e disse Danilo, traduz o que te mandam. Traduzi, foi para os EUA, cobrei, recebi.

Não sei que fim teve a história. Aquela era uma empresa de rápidas mudanças de pessoal e rumo e nem sei se alguém leu a resposta que eu traduzi. Mas, se leu, deve ter achado o pessoal de São Paulo um bando de cenossões*.

*Uma explicação sobre cenossão. Há tempos circula a história de um aluno que escreveu cerumano em vez de ser humano. Pode ser mentira, mas é ótima. Baseado nessa história, lá na comunidade dos tradutores do Orkut, criei o termo cenossão, que é o sujeito tão sem noção que não sabe escrever sem noção. A mensagem original está aqui .

Obrigado pela visita e volte amanhã, a ver se tenho algo de bom para dizer.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Existe tabela de preços para tradução?

Hoje vou trabalhar para o inimigo. Escreveu ontem a Ana Paula, que é cliente (não minha), quer dizer, compradora de traduções, e pergunta como é que funciona essa coisa de preço, porque um tradutor falou a ela em tabela obrigatória, o que foi uma surpresa, porque outro tradutor não falou em tabela alguma e cada um cobra um preço e tal. A mensagem dela é longa e não vou colar aqui. Só vou dar uma resposta.

Existe uma tabela obrigatória em cada Estado, estabelecida pela Junta Comercial do respectivo Estado e aplicável exclusivamente às traduções juramentadas. Tradução juramentada só quem pode fazer é TPIC. Se não sabe o que é TPIC, clique aqui. Fora disso, os preços são livres.

O TPIC também pode fazer traduções não juramentadas, que eles chamam traduções livres, um nome que não me agrada, mas isso é outra história. As "traduções livres" feitas pelos TPICS não estão sujeitas a tabela alguma, mas eles tendem a cobrar todas as traduções pelo mesmo preço, o que é direito deles. As tabelas das diversas juntas estaduais diferem e são atualizadas muito irregularmente, segundo princípios e critérios que provavelmente ninguém entende.

Existe uma tabela do SINTRA, o Sindicato Nacional dos Tradutores, que é algo confusa e serve como referencial para muitos profissionais, mas não é obrigatória: segue quem quer – e quem pode.

Os preços, na realidade, variam enormemente. O mínimo dos absolutamente mínimos, que eu saiba, é de R$ 0,03 por palavra do original para tradução de língua estrangeira ao português e R$ 0,06 para tradução do português a uma língua estrangeira, preço de fome pago pelas agências mais muquiranas e miseráveis. Haverá, quem sabe, quem menos ainda pague. Viver com esse pagamento não chega a ser fácil, digamos assim.

Os profissionais mais tarimbados cobram muito mais. Meu piso, atualmente, é R$ 0,25 por palavra do original, para traduções do inglês para o português, por exemplo. Coincidentemente, o mesmo que consta na tabela do Sindicato. Entretanto, já cobrei mais ou menos que a tabela do Sindicato. Deve haver quem cobre mais.

Vale a pena pagar R$ 0,25 por palavra ou até mais, quando se encontra gente disposta a cobrar um oitavo desse valor? Boa pergunta! Meus clientes acham que sim, mas tem quem ache revoltante pagar tudo isso por uma simples tradução, quando tem muita gente com preços mais em conta. Na verdade, se a tradução de três centavos satisfaz, pagar mais que isso é desperdício. Agora, precisa ver se o cliente entende do riscado o suficiente para poder avaliar a qualidade de uma tradução. Deixa terminar com uma historinha interessante.

Um escritório de advocacia aqui de São Paulo, membro de uma rede internacional, recebeu uma carta-consulta de um cliente estrangeiro. Ficaram todos satisfeitos, claro. Prepararam uma resposta a capricho, toda enfeitada como é hábito dos advogados, e mandaram traduzir. Leram a tradução recebida palavra por palavra. Acharam uma maravilha. Não que estivesse boa, mas é que, para os olhos tupiniquins dos advogados do escritório, de português baço e inglês ralo, o Tupiniquinglish da tradução parecia de uma transparência e precisão totais: uma verdadeira perfeição tradutória. Para eles, evidentemente, quanto mais Tupiniquinglish, mas bonito ficava. Mandaram para o cliente, com casca e tudo. Mas o fato é que o cliente era inglês e ninguém lá entendia Tupiniquinglish muito bem. Dois dias depois, receberam um e-mail que dizia, simplesmente: Please, find another translator. Thank you.

Ainda bem que o advogado que recebeu o e-mail sabia algum inglês e não precisou mandar traduzir o e-mail: ia ser a maior saia justa para o coitado que tinha traduzido o engrimanço para o inglês.

Amanhã, conto uma outra historinha divertida, mas de tradução do inglês para o português. Este artigo já está longo demais.

Obrigado pela visita.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Fiz um teste numa agência!

O colega novato está todo pimpão porque fez teste em uma agência. Mandou o teste, está ansioso pela resposta. Mas a resposta não vem. Podiam – diz numa mensagem a um grupo de tradutores – ao menos dizer se foi aprovado. Esperava, é verdade, um retorno mais pormenorizado, o teste corrigido, avaliado, comentado. A decepção é grande.

Mas, querendo o não, é assim que funciona.

As agências recebem toneladas de currículos e de testes todos os dias e como todos os dias nas agências são uma verdadeira loucura, a análise sempre fica para amanhã. E cumpridores de seus compromissos, o amanhã vemos isso é mantido todos os dias.

Currículos e testes são guardados em pastas para leitura futura, às vezes com alguma marca para identificar o par de línguas e especialização. Alguns são destruídos na hora, quando quem recebe acha que o candidato não tem condições de trabalho. Por exemplo, um CV onde consta estudo inglês à dez anos provavelmente vai para o cesto de lixo na hora. A maioria dos testes e CVs, entretanto, é preservada.

As agências vivem sob pressão imensa, tanto de prazos como de custos e, de modo geral, preferem entregar os serviços a gente em quem já tem confiança. Quer dizer, o setor de vendas aceitou um pedido de 120 laudas para fazer em três dias. Não tem quem dê conta sozinho, tem que dividir entre três tradutores e rezar para nenhum atrasar. Quem vai se arriscar com um desconhecido, numa hora dessas, especialmente se for inexperiente?

Bom, e quando é que chega a hora do novato, do iniciante? Geralmente, na hora do sufoco. Não tem ninguém conhecido para dar jeito em um serviço; então, vamos abrir a pasta de CVs e testes. Fuça-que-te-fuça, achamos alguém que parece ter alguma chance. Liga para ele já, pelo amor de Deus! Telefone não atende. Pega outro, vamos, rápido, que o tempo se escoa. Tem mais este, vamos ver, trim, trim, trim, alô, é da casa do fulano? Olha, nós temos um serviço para você. Está ocupado? Obrigado, fica para a próxima. Outro, vamos lá. Até que aparece um que pega o serviço. O gerente de projeto suspira, faz uma prece e carrega na Maracujina.

Lembre, agora, por favor, que eu não tenho uma agência e nem repasso serviço a ninguém, mas sei como as coisas acontecem. Não estou dizendo que este seja o melhor dos mundos, estou afirmando que este é o mundo em que vivemos. Também é bom lembrar que a vida nas editoras é menos histérica, porque os prazos, embora apertados, não se contam em horas e nem é comum dividir serviço entre meia dúzia de tradutores.

Para você, que está começando, isso significa que a agência à qual você mandou o teste ou o CV pode demorar meses para te chamar, ou pode não chamar nunca. Por isso, fazer três ou quatro contatos não é nada. Pense em termos de ao menos uma dúzia. E não espere milagres instantâneos. Pode demorar um bom tempo até formar a carteira. Mas o primeiro cliente é sempre o mais difícil de conseguir.

domingo, 27 de abril de 2008

Diz-me com quem andas…

O que significa sela? Bom, depende. Se for a sela do cavalo foi feita por um velho seleiro de Goiás, é uma coisa; se for em ela jamais sela as cartas que manda, já é outra. Quer dizer, o sentido de uma palavra depende do contexto. O contexto são as palavras que vêm antes e depois.

Há um outro dado que às vezes escapa: a tradução começa depois de a gente entender o texto de partida e, mesmo quando se entende, nem sempre a tradução é óbvia. Um dos motivos é que muitas vezes o que é verbo numa língua vira substantivo em outra ou até advérbio em uma terceira, processo que se chama transposição. Quer dizer, a tradução melhor de um determinado termo só pode ser determinada levando em conta os termos mais próximos. Por exemplo, drive, entre outras mil coisas, significa dirigir um veículo, um carro, por exemplo. Mas essa informação não resolve muito o problema de quem está procurando um boa tradução para He drove uphill… Ele dirigiu seu carro colina acima, evidentemente, não é uma boa solução.

Daí que fico sempre surpreso quando, em fóruns de tradutores, alguém pede a tradução de uma palavra, assim, sozinha, sem contexto nem nada. Mais surpreso ainda quando o consulente diz o contexto é um contrato. Contrato, que eu saiba, pode ser gênero textual, mas contexto não é. E muito mais ainda quando o consulente apresenta como contexto um pedacinho da sua tradução e a palavra ignorada no original. Contexto, vamos lá de novo, é sempre um pedacinho do original ou do texto de partida, como é moda dizer hoje. Minha admiração culmina com os que agregam definições mil, mas não contexto.

Parece até que a turma paga o contexto do bolso deles.

Procuro atualizar este blog diariamente com alguma coisa interessante sobre a profissão de traduzir. Se gostou, volte sempre. Se não gostou, deixe um comentário reclamando ou dando sugestões.

sábado, 26 de abril de 2008

Riscos financeiros da tradução

Quando aparece um serviço, você pode aceitar ou recusar.

Se recusar, corre pelo menos dois riscos: o de ficar de mãos abanando um bom tempo e o de perder o cliente. Se aceitar, corre pelo menos outros dois: o de ter de rejeitar uma oferta melhor, porque já tem todo seu tempo ocupado, e o de não ser pago no prazo, ou mesmo de não ser pago. É desse risco que vou falar hoje.

Serviço prestado no prazo combinado tem de ser pago no prazo combinado e pronto. Isso eu já disse até cansar aqui e alhures. Se você quer se meter a empresário da tradução, pegando serviços e repassando a terceiro, primeiro muna-se do capital necessário para encarar o problema se o cliente final não pagar. Se não tiver o capital, não se meta. Quer dizer, imagine o seguinte: e se o cliente final não pagar, o que é que você faz? Até que nível você pode garantir a parada e pagar o tradutor no prazo? Se for uma tradução de R$ 500,00, você agüenta o tranco? E se for de R$ 5.000,00?

Mas a turma não cria juízo, banca jogadas que não pode bancar. Fica como nos desenhos animados, que aparecem os cifrõezinhos piscando nos olhos, quando vê serviço grande pela frente. Depois, chora.

Do ponto de vista do tradutor final, quer dizer, de quem realmente meteu a mão no teclado, as considerações são um pouco diferentes, mas, por assim dizer, simétricas. Quer dizer, se Alfa te oferece um serviço, você tem que se perguntar se Alfa tem condições de bancar o jogo e mesmo se o cliente final é confiável.

Por exemplo, todos nós sabemos que governo paga quando quer. Se Alfa te oferece uma fatia de um serviço para o governo, você pode ter certeza de que o cliente final vai atrasar e receber vai ser uma odisséia. Se Alfa não tiver cacife para topar a parada em caso de atraso do cliente final, nem pensar, salvo se você estiver com disposição para esperar até que se disponha a pagar Alfa, sem tugir nem mugir.

Se Alfa tiver dinheiro e estiver meramente te sacaneando, botar a boca no trombone pode ajudar muito. Mas se a burra estiver vazia, nem que você toque O Vôo do Besouro no trombone vai ajudar.

Aliás, para aliviar um pouco este artigo azedo, quem sabe você quer ver este arranjo de Vôo do Besouro para piano e trombone. Obrigado pela visita e volte sempre.




quinta-feira, 24 de abril de 2008

Uma traduçãozinha, pelo amor de Deus!

Nos diversos grupos de tradutores de que participo, é rara a semana em que não aparece alguém dizendo coisas do tipo Alguém pode me indicar nomes de empresas para me cadastrar e conseguir traduções, que estou precisando muito. Se souberem de alguma coisa me avisem. Há mil variantes, mas o fulcro é o precisar muito. Às vezes, vêm uma ladainha apensa, do tipo fui abandonada pelo meu marido e tenho dois filhos para sustentar, ou está faltando dindin para pagar a facu.

Comovente, sem dúvida, principalmente para mim, porque me lembra das minhas próprias agruras financeiras, embora nunca tenha sido abandonado pelo meu marido nem tenha feito faculdade. Comovente, sim, mas a abordagem errada.

O sucesso profissional depende, em grande parte, da adoção de uma postura profissional e a postura de quem escreve desse jeito não é a de profissional, mas sim a de mendigo. E quem se apresenta como mendigo dificilmente vai ser tratado como profissional.

Tradução é serviço profissional, que se confia a quem tem condições de prestar. E quem posta pedidos de esmola, que apela à piedade e caridade alheias, está começando por omitir a primeira e mais importante informação sobre o profissional: suas qualificações.

Se um de meus clientes me pedir um serviço que eu não possa prestar, vou indicar a ele um colega que me pareça capaz de prestar o serviço, não quem estiver de mão estendida à minha porta. E que sei eu a respeito do ou dá colega lá em cima salvo que está precisando de dinheiro? Nem com que línguas lida a pessoa diz! Não sei se tem experiência, se não tem, se conhece memórias de tradução, que idade tem, o que já fez na vida, não sei nada. Só sei que está precisando.

Além de tudo, a pessoa se coloca em uma posição passiva: alguém, por favor, mande a ela uma lista de empresas. Alguns têm o desplante de pedir que se lhes mande a lista de clientes para seu e-mail particular, em vez de divulgar para o grupo como um todo. Se tivesse lido as mensagens do grupo durante três ou quatro dias, teria visto que não é assim que as coisas se fazem, teria aprendido alguma coisa. Mas está precisando, então, posta um pedido e, por favor, alguém que lhe resolva a situação. Como se nós outros tivéssemos excesso de clientes e pudéssemos dispor de meia dúzia em favor de pessoa que nem sequer conhecemos.

Finalmente, se alguém pensa que é só se cadastrar em algum lugar e esperar que o serviço venha chegando, desista. Não é assim que as coisas acontecem.

Aqui neste blog e onde quer que esteja, sempre lutei pela profissionalização do tradutor. Tradução não é esporte, brinquedo, diversão, quebra-galho, ajeito na hora do sufoco. É, cada vez mais, uma profissão. E profissão que faz são os profissionais, não uma lei qualquer.

É por causa de escritos como este acima que criei fama de rabugento, implicante, antipático e desumano. Desculpe, mas alguém tem de ter a coragem de dizer certas verdades.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Especialização

Um dos modos de ganhar mais é especializar-se. O especialista ganha mais por dois motivos: primeiro porque tem de fazer menos pesquisa; segundo, por ser mais bem remunerado, puxando os preços para cima. Das "puxadas", falei já aqui. Faz menos pesquisa porque os termos e conceitos se repetem; é mais bem remunerado porque se espera que seu produto seja de melhor qualidade, o que pode ser verdade ou não.

Há dois tipos de especialista: os natos e os feitos. Os especialistas natos são os que têm uma formação profissional anterior à sua dedicação ao traduzir. Por exemplo, o médico que, depois de aposentado, vira tradutor é um especialista nato em tradução médica. Os especialistas feitos são gente como eu, que acabei virando especialista em finanças mas, quando comecei na profissão, não era capaz de ler um balanço.

O especialista feito é feito pelo mercado. Quer dizer, eu jamais disse vou me especializar em finanças. O que me especializou foram aquelas duas senhoras que mandam na nossa vida, Dona Virtù e Dona Fortuna, das quais aqui falei muitas vezes. Virtù é o que temos em nós próprios, nosso potencial, jeito, talento, dom, esforço, chame como quiser. Fortuna são os fatores externos, as coincidências da vida.

Dona Fortuna me jogou no colo umas coisas de contabilidade e Dona Virtù me ajudou a fazer um serviço decente. Daí veio a reputação de que eu era capaz de dar jeito nessas coisas de contabilidade e, em seguida, vieram outros assuntos correlatos.

O especialista, por outro lado, é um prisioneiro de sua especialização: raramente alguém me oferece alguma coisa fora da minha área de especialização e, quando oferecem, eu recuso. Estou muito bem, aqui no meu canto.

Obrigado pela visita e volte sempre. Abandonei uma porção de coisas que fazia para cuidar melhor deste blog e espero voltar a postar todos os dias. Por falar nisso, você já notou que lá em cima, do seu lado direito, há uma caixinha com o nome pesquisar blog? Serve, evidentemente, para pesquisar nos arquivos anteriores deste blog que já está ficando bem grandinho. É bem possível que a resposta que você procura esteja lá. Se não estiver, pode me escrever fazendo a pergunta que, se eu tiver uma resposta, dou com prazer, aqui no blog, mascarando a sua identidade, para não dar bandeira demais. Se não tiver, paciência.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Caixa Postal

M. preparou um pequeno glossário de uma língua falada em certo país e algumas áreas circunvizinhas e me pergunta se precisa de ordem do governo do país para publicar seu trabalho.
Não, não precisa. Mas é bom citar as fontes de onde retirou o material.

K, por outro lado, quer saber quando vai haver concurso para Tradutor Juramentado e Intérprete Comercial no Rio Grande do Sul. Não sei. Você tem que perguntar à Junta Comercial do Estado do Rio Grande do Sul. Esses concursos são raros, muito raros. Em SP, onde são mais freqüentes, o intervalo médio está em torno de 25 anos. Está rebentando aí um em Minas Gerais, isso sim.

Se você pretende prestar concurso para TPIC, lembre-se que o exercício da profissão é limitado aos cidadãos brasileiros, naturalizados ou natos.

Um desabafinho

Este não é, a bem dizer, um blog pessoal, mas sim profissional e aqui falo de tradução, não de minha vida. As historinhas pessoais que conto são todas relacionadas com a profissão e sempre citadas como exemplo para discussões de cunho profissional. Hoje, temos uma exceção.

Atravessei longa seqüência de problemas de todos os tipos e tamanhos que, espero, tenha culminado num 21 de abril especialmente aziago, com vários problemas e notícias infaustas.

Digo "culminado" porque espero que amaine um pouco de hoje em diante. Essa tempestade de acontecimentos desagradáveis me levou a várias mudanças de rumo, em busca de portos mais seguros e amigáveis.

Algumas dessas mudanças concernem exclusivamente a mim e minha família, e não vão ser analisadas nem sequer divulgadas aqui. Duas, entretanto, talvez sejam interessantes para os que costumam vir aqui ler as coisas que escrevo. A primeira é que, de hoje em diante, vou devotar mais tempo a este blog, que, coitado, anda meio abandonado. A segunda é que jamais vou prestar declarações à imprensa de novo. Quando quiser fazer qualquer tipo declaração, faço aqui e acabou-se a história;

Agora, preciso terminar uma revisãozinha que vai para a Europa e, por isso, precisa ser terminada mais cedo – o problema dos fusos horários. Mais tarde volto com alguma coisa que, espero, seja útil para todos nós enquanto tradutores. Espero que você goste.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Tradutor Público – O Concurso em Minas Gerais

Escreveu o Fernando, levantando umas questões interessantes:
"Pretendo prestar o concurso agora para TPIC de Minas Gerais, mais tenho medo de não estar apto para o cargo, devido aos aspectos legais das traduções. Primeiramente pensei em prestar de qualquer maneira, mesmo até para ‘rechear’ meu currículo ainda jovem de tradutor, quando me deparo com isto:

"1.5 A nenhum tradutor público e intérprete comercial é permitido abandonar o exercício do seu ofício, nem mesmo deixá-lo temporariamente, sem prévia licença da JUCEMG, sob pena de multa e, na reincidência, de perda do ofício.

"Pesquisando um pouco mais, cheguei à informação de que existe um compromisso que envolve 2 laudas por dia. O que pude entender é que o TPIC não pode recusar esse trabalho, gostaria de saber mais sobre como funciona isso na prática.

"Você postou no orkut que não existe trabalho para tantas vagas, é obrigação do tradutor aceitar todo trabalho que lhe é pedido?

"O tradutor habilitado em todo o território do Estado de Minas Gerais que mora em uma cidade do interior, pode pegar serviços via internet, por exemplo, de Belo Horizonte? Ou recusar serviços de outras cidades mais longe? A internet é um meio usado ou somente traduções entregues pessoalmente?

"Me desculpe estar tomando seu tempo e da minha falta de profissionalismo. Se puder me ajudar agradeço."

Fernando, pedir informações não é falta de profissionalismo. Vamos ver o que consigo te responder.

Não sei qual vai ser o teor do concurso. Não tenha como certo que enfatize muito o aspecto jurídico. Preste. Na pior das hipóteses, você dá uma volta em Belo Horizonte.

Depois de nomeado, de fato, você precisa de licença da Junta para deixar o seu ofício, mesmo que temporariamente. Isso não quer dizer que você precise ficar disponível para os clientes dia e noite. Significa que se você for, por exemplo, ficar três meses no exterior, precisa requerer licença à Junta e a Junta normalmente concede sem problemas. E se você for aprovado e não quiser tomar posse, direito seu. E se tomar posse e no dia seguinte pedir afastamento, também direito seu.

Não conheço qualquer compromisso de duas laudas por dia. Não creio que exista. Tradicionalmente, não se cobra taxa de urgência quando o prazo exigir menos de duas laudas por dia útil, norma que pode estar incluída no regulamento da JUCEMG ou não. Mas nada te obriga a fazer duas laudas por dia.

Na prática, o cliente aparece com um trabalho, o TPIC cota preço (de acordo com a tabela da Junta Comercial de seu estado) e prazo. Se o cliente quiser urgência e o tradutor tiver disponibilidade, pode-se aplicar a taxa de urgência prevista pela Junta. Cobrar a taxa é direito do tradutor, mas o cliente não pode impor prazo dizendo estou pagando a taxa de urgência. Se você não puder fazer no prazo pretendido, recusa o trabalho e pronto. Evidentemente, é seu interesse aceitar e procurar atender, mas não sua obrigação. E se aceitar, tem de cumprir.

O TPIC recebe papel e entrega papel. Quer dizer, se eu quiser uma tradução de uma certidão de nascimento, tenho de levar a certidão ao escritório do TPIC, que faz a tradução, assina, numera e carimba o verso da certidão original e apõe o número da tradução no carimbo. O cliente apresenta original e a tradução juntas à autoridade competente e cabe a quem recebe comparar o número do carimbo com o número da tradução, para ver se não estão fazendo safadeza com ele. Sendo assim – e sendo os preços tabelados e iguais em todo o estado – me parece pouco provável que alguém em BH vá procurar um TPIC em Santo Antonio do Amparo. Por outro lado, quem morar em Perdões ou Santo Antonio do Amparo, talvez prefira os serviços de um TPIC em Campo Belo, mesmo que mande e receba documentos pelo correio.

Você não disse onde mora e, a bem dizer, conheço mal as Gerais, mas pode haver um bom mercado regional para esses serviços em certas áreas do estado. A capital tem maior clientela, mas também tem mais concorrência. E, de qualquer maneira, todo TPIC também faz traduções não juramentadas, o que eles chamam "livres" , e que podem vir via Internet. Quer dizer, nada impede que você more em Santana do Jacaré e seja um tradutor bem sucedido, com clientes em tudo quanto é canto deste mundo. Mas um TPIC que more em Santana do Jacaré , dificilmente vai ter muitas traduções juramentadas.

Para mais informações sobre o concurso, clique aqui e aqui e e para mais informações sobre o ofício de Tradutor Público e Intérprete Comercial, clique aqui.

domingo, 13 de abril de 2008

Vamos continuar a falar de preços? Mais sobre a "puxadinha"

Esta conversa mole toda sobre preços vem daqui onde falo de preços médios e do que chamo a "puxadinha", ação de "puxar" o preço um pouco mais para cima ou para baixo da média do segmento. O Sidney Barros, Jr. deixou um comentário, dizendo a puxadinha em geral era para baixo. Discordo. Se a puxadinha for em geral para baixo, a média em si cai.

Puxa-se para baixo para entrar num mercado e o próprio ato de puxar para baixo clama aos quatro ventos que se tem pouca experiência, que se está sem serviço.

Pior ainda quando o tradutor é veterano. Se você está entrando agora no mercado e aceita um pouco menos que a média, pode estar procurando achar o seu lugar ao sol, oferecendo um incentivo extra ao cliente – seja agência ou não. Entretanto, um sujeito que tem dez anos de carreira na cacunda e aceita trabalhar por menos que a média ou permanece nos mercados "de carregação", precisa dar uma olhadinha mais atenta no seu trabalho como tradutor ou como vendedor do próprio peixe.

À medida que você vai firmando o pé em um determinado segmento do mercado, abandona a puxadinha para baixo. E quando está com o pé realmente firme, com um bom fluxo de serviço, está na hora de puxar para cima, de migrar para um segmento mais bem remunerado ou fazer ambas as coisas ao mesmo tempo.

Aumentar os próprios preços é um ato de coragem. A maioria dos tradutores tem uma visão excessivamente pessimista do mercado e acredita que todo cliente sempre procura o tradutor mais barato e que, portanto, a única maneira de conseguir o serviço é botando o preço lá em baixo. Não é verdade, e espero demonstrar isso amanhã. Por hoje, é só.

sábado, 12 de abril de 2008

Cooperativas de tradutores

Interrompo um momento a série sobre preços e calotes para falar sobre cooperativas. A cooperativa é vista por muitos como a salvação da lavoura. A turma vê as agências como um bando de ladrões e exploradores do tradutor e acha que, com uma cooperativa, as coisas iam dar mais certo.

Muitas agências são, de fato, desonestas e muitas mais são simplesmente mal administradas, sem contar que há ainda uma grande quantidade que não tem capital suficiente para financiar suas operações, um problema mais freqüente e mais grave do que se pensa. Mas aqui estamos para falar de cooperativas, não de agências.

Antes de mais nada, se você ainda simplesmente se diz "freelance" ou o que é pior "frila", acho que é bom ler isto e isto para deixar de se enquadrar em uma categoria que não existe.

Indo ao assunto, se você entrar para uma cooperativa, tem que entrar ou como autônomo ("RPA" ou "Nota da Prefeitura") ou como estabelecido (empresário individual ou membro de uma sociedade – Nota Fiscal de Pessoa Jurídica com CNPJ). Entrar de gaiato, não pode. Se você entrar como autônomo, a carga tributária sobre os seus serviços aumenta em cerca de 20% e esse aumento vai ter um efeito ou no preço final cobrado do cliente ou na sua retirada.

No capítulo atendimento, a cooperativa funciona da mesma forma que uma agência: tem que selecionar tradutores e revisores, achar clientes, fazer propostas, cotar preços, distribuir o trabalho, coordenar produção, revisão e entrega, cobrar e receber do cliente, manter registros, pagar tradutores e o que mais seja.

Na agência, esses serviços são financiados com a margem, quer dizer, com a diferença entre o que a agência cobra do cliente e o que ela paga ao tradutor. Numa cooperativa, o procedimento é o mesmo, mas os cooperados podem se juntar para dar conta dessas tarefas, em vez de contratar quem faça. Por exemplo, um trata de vendas, outro seleciona tradutores, mais um cuida da papelada, outro ainda distribui serviço e assim vai. Isso toma um tempo danado e, lá pelas tantas, esse pessoal vai ter que ser remunerado, porque vão ter muito menos tempo para traduzir que seus colegas.

Com o decorrer do tempo, talvez seja necessário contratar profissionais para essas tarefas, para que os tradutores tenham tempo de traduzir. Esses profissionais custam dinheiro, dinheiro que a cooperativa tem que tirar do bolso dos cooperados, porque da cartola não podem.

Muitas vezes, dá problema. A cooperativa seleciona trinta tradutores competentes para cooperados e, lá pelas tantas, encarrega Alfa de atender um cliente e Alfa, que está entalado com outros problemas, só essa vezinha, repassa o trabalho um lorpa que não é cooperado. Quando terceirizou o trabalho para Beta, Alfa tinha se prometido revisar tudo letra por letra, mas acontece que, pô. E quando acontece que pô, a coisa complica. Então, sai uma porcaria e tem que puxar as orelhas do colega, eventualmente excluir da cooperativa.

Nunca se esquecendo que cooperativa é como vaca: dá leite, mas precisa de capim. E se você entender a cooperativa como uma entidade que te manda serviço, cabe perguntar quem vai conseguir serviço para a cooperativa? Ou você, voluntariamente, entrega todo o serviço que receber de clientes particulares e deixa que a cooperativa retire sua parte e, eventualmente, distribua entre diversos cooperados, ou alguém, lá na cooperativa, é encarregado de vender serviço e remunerado por isso. Caso contrário, primeiro, seca o leite e, depois, a vaca, coitada, morre de fome.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Apostila para o concurso para tradutor juramentado (TPIC) em Minas Gerais


O nosso colega e TPIC em SP professor Dr. Francis Henrik Aubert (USP) preparou uma apostila para o concurso realizado aqui em SP há anos, com modelos exemplos e outras informações úteis para quem vai prestar o concurso para a língua inglesa. Os interessados em adquirir um exemplar devem entrar em contato com ele próprio em fhaubert@hotmail.com.

Não ganho comissão.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Vamos falar de preços?

Neste artigo, que inicia esta série sobre preços e pagamentos, disse que Não existe "preço justo", um preço determinado por uma fórmula matemática regida pela ética. Existe o preço que você e seu cliente combinaram. Essa é a definição jurídica de preço justo: o preço que as partes ajustaram. A definição econômica é o preço normal do mercado.

Normalmente, quem paga acha o preço é excessivamente alto e quem recebe acha excessivamente baixo, mas isso faz parte da vida.

Os preços de tradução são muito dispersos: tem quem receba R$ 0,03 por palavra, tem quem receba € 0,12 – e veja que é uma grande diferença. Menor do que parece, porque geralmente se exige mais de quem ganha mais e, por isso, quem ganha mais produz menos. Mesmo assim, há uma bela diferença.

A dispersão está ligada à segmentação do mercado. Quer dizer, não há um mercado de tradução, há uma infinidade de mercados, cada um com seus preços e suas regras, a maioria não escritas.

A primeira medida a tomar é saber em que segmentos de mercado você se encaixa e com que segmento está lidando. Se você pegar uma agência indiana, não adianta querer cobrar € 0,12 por palavra, porque não vai dar.

Por outro lado, tem o que se chama a "puxadinha": se você quer entrar num determinado segmento, talvez tenha que puxar o preço um pouco para baixo. Por exemplo, se a média for R$ 0,05 por palavra, talvez você tenha que aceitar R$ 4,00 para entrar no mercado.

Isso é absolutamente normal, mas propõe ao menos um problema: como passar dos R$ 4,00 "puxados para baixo" para os R$ 0,05 da média, para os R$ 0,06 "puxados para cima" e, por fim, como passar para um segmento que pague melhor.

Mas disso falamos amanhã.

domingo, 6 de abril de 2008

Amizade e escravidão

Na Reunião na Sala 7 de ontem, uma participante se queixou de que um amigo lhe tinha pedido a tradução de uma longa dissertação e, quando soube que uma tradução daquele tamanho não ia sair grátis, encerrou a amizade, com a acusação de mercenarismo.

Ambos estavam enganados: ela pensava que ele fosse amigo, ele acreditava que ela fosse escrava. Uma incoerência: não se pode ser escravo do amigo nem amigo do escravo. O engano agora está desfeito. Ela agora que aprenda a distinguir quem é amigo de quem é cliente de quem é candidato a senhor de escravos. E ele que vá procurar uma escrava onde quiser. No raio que o parta, preferivelmente.

Traduzir vinte linhas grátis para um amigo é cortesia. Mas trabalhar dias e dias para traduzir uma dissertação e não receber nada é burrice.

Como dizia a Cacilda Becker, não me peça para dar de graça a única coisa que tenho para vender.

Fim de papo.

Preços e pagamentos

Preços e Pagamentos: Melhor Prevenir que Remediar

Este é o primeiro artigo de uma série, que vai ser longa, sobre a remuneração de nosso trabalho. O problema tem dois aspectos, ambos os quais vão ser abordados aqui: quanto cobrar e como evitar a possibilidade de não ser pago. Vou entremear estes artigos com artigos sobre outros assuntos, mas pretendo, publicar ao menos três matérias por semana sobre este assunto. Conto com os comentários e perguntas de vocês todos, para tornar esta série mais útil a todos.

Começo pelo óbvio:

  1. Tudo envolve risco. Toda ação é arriscada e a inação geralmente é mais arriscada ainda.
  2. É melhor prevenir que remediar, ou, para usar um termo mais moderno, é importante ser proativo. Fazer as coisas certo desde o início. O combinado está sempre certo. Fazer tudo por escrito: verba volant, scripta manent, como diziam os romanos.
  3. Se quer ser tratado como profissional, aja como profissional. Profissional (a) age com honestidade e transparência, (b) cumpre o prometido, (c) faz sempre o melhor que pode, (e) não se envergonha de cobrar pelo seu trabalho.
  4. Não existe "preço justo", um preço determinado por uma fórmula matemática regida pela ética. Existe o preço que você e seu cliente combinaram. Não há nada de errado em cotar um preço alto ou mais alto que a média, desde que a cotação seja transparente, desde que o cliente não seja enganado, desde que, na hora de cobrar, você cobre exatamente o que cotou. Cabe ao cliente decidir se que o seu trabalho ou o de outra pessoa que cobre menos.

Amanhã tem mais. Por hoje, chega, que é domingo.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Qual é o certo?

É comum encontrar, nos locais de discussão dos tradutores, alguém perguntando qual é o certo. Pode ser a grafia de uma palavra estrangeira, pode ser o sentido de uma palavra portuguesa, pode ser uma construção, mil coisas.

A discussão rola e começam a aparecer as opiniões contrárias: um cita
Fulano que diz uma coisa, outro cita Beltrano que diz o oposto. Um terceiro cita o Google – e assim vamos. Na maioria das vezes, a discussão é inconclusiva e o perguntador fica muito frustrado. Frustrado, mas tem que terminar a tradução – e terminar no prazo.

A língua, tanto no aspecto lexicológico, quer dizer, no sentido das palavras, como no gramatical, é muito menos monolítica do que se pensa. Se há usos indiscutivelmente errados, como nós vai e há outros indiscutivelmente certos, como nós vamos, falta consenso em mil e um pontos, onde partidos opostos afirmam opiniões diferentes e se comprazem em atirar lama um no outro.

Além disso, a língua muda com o tempo e o que errado ontem pode ser considerado "já aceito" ou "perfeitamente correto" hoje. O mais divertido é, entretanto, que o que hoje é "errado" já foi considerado certíssimo.

Quer uma prova? Vá dizer, hoje, estava meia louca ou estavam meios loucos e vão te repreender, afirmando que meio aqui funciona como advérbio e, portanto, não tem flexão de gênero nem de número: diz-se, em bom vernáculo, estava meio louca, estavam meio loucos.

Pena que não combinaram essa regra com Camões: Onde os outros meios mortos se afogaram (III, 116), Uns caem meios mortos (III, 50); nem com Vieira: Aqueles samaritanos eram meios fiéis e meios gentios; nem com Júlio Dinis: Mas, antes de receber resposta divisou por entre a porta meia aberta o rosto pálido de Daniel (Pupilas). E por ai vamos, mesmo sem citar os brasileiros. Há exemplos de sobra.

Nem por isso vou começar a dizer a tradução já estava meia completa, porque, nos dias de hoje, a construção não é mais aceita.

Muitas vezes, também, a construção mais "correta" é anormal e ficamos entre a cruz e a caldeirinha: Conte-me a verdade, meu filho é o que diz a gramática, me conte a verdade, meu filho é o que a maioria de nós diria. Aqui, ainda dá para sair pela tangente, com um conte para mim a verdade, meu filho –mas não faltará quem corrija a regência, transformando nosso exemplo em conte a mim a verdade, o que, ao menos, é mais natural que o conte-me a verdade.

Mas nem sempre há uma boa saída que soe natural e seja incontroversa.

Se fosse fácil, ser tradutor não tinha graça.

Aqui abaixo tem o convite para a Reunião na Sala 7. Grátis, via Internet, leia e apareça lá.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Reunião na Sala 7, evento a distância, grátis

Dia 5 de abril, às 14 horas, tem Reunião na Sala 7, um evento grátis e a distância do qual você pode participar desde que tenha acesso à Internet e um par de alto-falantes em seu computador. Para mais informações, clique aqui.

O tema desta reunião vai ser E os nossos preços, como ficam? Todos os tradutores e pretendentes a tradutor são bem-vindos. Agradeço qualquer tipo de divulgação que você possa fazer do evento.

A Reunião só é possível por uma gentileza Aulvox, que permite usar seu sistema gratuitamente para o evento.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Na história que contei sobre transcrição de fitas do Jaques Cousteau, esqueci de um detalhe importante: transcrever fitas (ou degravar, como se diz na polícia) é uma coisa, traduzir é outra. Alguns tradutores são hábeis transcritores, da mesma forma que alguns tradutores são excelentes professores, intérpretes ou trombonistas. Alguns profissionais conseguem traduzir diretamente da fita gravada, sem ter que primeiro transcrever. Mas uma coisa nada tem que ver com a outra e, depois da minha experiência traumática narrada acima, só aceito para traduzir o que vier escritinho. Se vier em áudio, recuso. Parafraseando Paulo (Cor I, 7:9), porque é melhor recusar do que ferrar-se.

O cliente, meio que sem saber sabendo, como diria o Chaves, faz de conta que é um serviço só, e é bem capaz de até tentar convencer a gente que é até mais fácil ir ouvindo e "já" ir traduzindo do que traduzir de um texto. Para conseguir um desconto, qualquer argumento é válido. Mas o fato é que transcrever, mesmo para o transcritor competente, toma muito tempo, principalmente quando a gravação foi feita por gente incompetente usando equipamento inadequado – o que é mais comum do que se teme.

Também é comum o cliente mencionar que a palestra foi de improviso e que precisa de uma revisãozinha. "Revisãozinha" já é outro serviço e precisa ser cobrado separadamente.

Fez, cobra. Se não é para cobrar, também não é para fazer e ponto final.

sexta-feira, 28 de março de 2008

O dia em que eu virei doente contagioso

Tradutor velho tem muitas histórias. Esta me foi lembrada por um caso longo e complicado que ainda preciso trabalhar um pouco para publicar, porque é longo e complicado. Fica então este aqui de aperitivo.

Houve uma época em que eu traduzia muitos relatórios para o inglês. Meus maiores clientes eram as firmas de auditoria e traduzi acho que uns bons mil balanços na vida. Uma vez, um dos clientes, uma estatal, me pediu para traduzir, além das demonstrações contábeis propriamente ditas, o relatório da diretoria. Depois de eu ter aceito, disse assim, meio como se não tivesse importância, Essa parte você vai pegar no cliente e cobra dele. Tocou uma sirene no meu bestunto, acompanhada de luzes vermelhas piscando loucamente, mas não tive jeito de recusar. Hoje, recusaria. Mas os tempos são outros e eu também.

Fui lá, no escritório do cliente. Recebido com mil formalidades e cortesias, pediram uma proposta. Isso foi antes da lei das licitações e as coisas eram menos formalizadas. Fiz em casa uma proposta e levei para eles. Pagamento em sete dias. Aprovaram quase sem ler. Mau sinal.

O texto era uma coisa de doidos. Não era muito técnico, disse lá o meu contato. Sempre que disserem não é muito técnico, fuja, fuja correndo: significa que é um emaranhado de pensamentos confusos saídos de mentes alucinadas. Aquele não era a exceção. Não tinha pé nem cabeça e ninguém se importava muito porque ninguém ia ler mesmo. O relatório da diretoria era uma obrigação legal e, para muitas empresas, se resumia a quatro linhas de coisa nenhuma. Mas grandes empresas escreviam grandes relatórios, com fotos maravilhosas e textos horrorosos. Mas, como eu disse, ninguém se importava, porque ninguém lia mesmo: liam-se as demonstrações contábeis e as notas, o relatório da diretoria era só para enfeitar.

Ninguém lia, ninguém lia, mas eu tinha que ler. Que ler e entender. Entender e botar em inglês. E inglês bonito, ainda por cima. Passei dias na exegese daquele lero-lero e, finalmente, entreguei o serviço e a fatura, que foi, na minha frente, aprovada por alguém lá que aprovava faturas. Nos dias seguintes, mais uma vintena de sandeus leu o texto, cada uma fazendo alterações mais estranhas do que as outras, até que o texto perdeu não só a relação que tinha com o original como qualquer sentido que tivesse inicialmente. Mas isso não era da minha conta. A minha parte, eu tinha feito, a odisséia tinha terminado.

Terminado, nada. Nem tinha começado. Uma vez que você preste um serviço para uma empresa dessas e entregue sua fatura, vira doente contagioso. Todas aquelas pessoas formais e simpáticas que falavam com você horas sobre tudo ou sobre nada, repentinamente somem do mundo. Ninguém te diz mais nada. Parecia que eu tinha o corpo e – até a voz, porque nem ao telefone falavam comigo – recoberto de feridas purulentas.

Quatro meses depois, recebi uma carta avisando que poderia retirar meu cheque num certo dia numa certa hora num certo local – era no tempo do pagamento em cheque, ainda.

Fui lá. Meu São Jerônimo! Vai para o sétimo andar, pega um papel que carimba no décimo, desce para o térreo onde troca por uma ficha que leva ao oitavo. Fila para entrar na fila de quem precisa entrar na fila. Mais de duas horas para pegar o raio do cheque. Voltei para casa, passei no banco, depositei. Pelo menos, tinha fundos. Já é alguma coisa.

Mas nunca mais prestei serviço ao poder público.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Ninguém é de ferro

A gente precisa se distrarir um pouco. Se você tem curiosidade pelo som de alguma língua que nunca ouviu, clique aqui. O locutor de português para o Brasil tem sotaque, as a pronuncia é boa. A locutora brasileira é melhor. Os outros não posso julgar. Mas não perca o latim.

Não baixei o programa nem estou recomendando que alguém baixe.

Concurso para TPIC ("Tradutor Juramentado")

A Junta Comercial do Estado de Minas Gerais está promovendo concurso para Tradutor Público e Intérprete Comercial, vulgo "Tradutor Juramentado". O edital está aqui. Leitura interessante principalmente para quem imagina que vai prestar o concurso, ser aprovado e viver de papo para o ar até o fim dos tempos.

Existe, também, um documento tragicômico sobre o mesmo assunto, que você encontra aqui. Além das sevícias à lógica e a língua portuguesa, ainda criaram a língua libanesa.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Eu e o Venuti

Escreve o colega (e eu resumi barbaramente):

…entretanto, sendo também admirador e estudioso da obra de Lawrence Venuti, fico bastante chateado, diria mesmo triste, quando leio você utilizando expressões como "isso o livrinho do Venuti não ensina".

Realmente esse autor não oferece esse tipo de orientação, mas simplesmente não é esse o objetivo do trabalho dele.

Concordo com a falta de formação para tradutores voltada realmente para a atuação profissional mas também dou muita importância à formação acadêmica em tradução, que acredito proporcionar um valioso suporte no processo tradutório, e também à pesquisa na área. Não gosto de ver a formação e a atuação profissional se apresentando como processos opostos e quase antagônicos.

A mensagem veio assinada, além de ser correta, educada e identificável. Mas o autor parece preferir o anonimato, dado um trechinho que omiti. Por isso, cito aqui, com alguns cortes, sem lhe mencionar o nome. Minha resposta, nos parágrafos que seguem.

Felizmente, não vejo diferença alguma entre sua posição e a minha. Eu digo que isto e aquilo o Venuti não ensina e você concorda. Eu jamais disse que formação acadêmica carece de importância, mesmo porque, por carecer dela, sei que valor tem, talvez mais do que os que fizeram um bom curso superior. E veja que aqui, na Aulavox e onde eu esteja, sempre digo que há vários caminhos que levam à tradução e que o melhor deles, hoje, é uma boa faculdade.

Também sei que o objetivo do livro dele não é ensinar a lidar com o mercado nem nada disso. Nem acho que ele devesse abordar esse assunto, de que provavelmente ele tem pouco ou nenhum conhecimento.

Você afirma que reconhece a importância dos assuntos de que trato aqui no blog, em alguns pontos de sua mensagem que omiti e diz que concorda que falta formação para tradutores voltada realmente para a atuação profissional, que é uma das minhas bandeiras.

Você não gosta de ver formação e a atuação profissional se apresentando como processos opostos e quase antagônicos e este é mais um ponto onde concordamos: formação acadêmica e, digamos, capacitação profissional, são complementares, duas faces do sucesso profissional.

A dificuldade está em que você aparentemente imagina que ao dizer que algo não se encontra no livro do Venuti eu estou criticando o Venuti (ou o Mounin, que era a moda há alguns anos, ou o Catford, que fio moda antes ainda ou quem quer que seja). Não, não é isso. Estou usando "Venuti" aqui como um símbolo do estudo teórico da tradução e, quando digo que "não está no livrinho do Venuti" estou ironizando não o Venuti, mas aquelas pessoas que julgam o estudo teórico da tradução suficiente e que tudo o mais cada um que aprenda como melhor puder, porque isso não é obrigação de faculdade ensinar.

Por exemplo, ainda continuo achando um absurdo num curso de graduação não se ensinar a usar ferramentas informáticas de auxílio à tradução, porque a primeira coisa que se pergunta a um candidato a tradutor, em pelo menos 50% dos casos, é se sabe usar memória de tradução. Para mim, essas ferramentas fazem tanto parte da vida do tradutor como o estetoscópio faz parte da vida do médico. E o médico aprende a auscultar o paciente na faculdade, não "na prática".

Quer dizer, nada contra o Venuti, mas é preciso ir além dele. Há muita coisa importante, indispensável mesmo, que o livrinho dele não diz.

Termino agradecendo a mensagem. É sempre bom o diálogo com os leitores. A gente escreve, escreve, esceve e são os comentários que nos fazem crer que alguém leu, que não escrevemos em vão, que não falamos no deserto.


terça-feira, 25 de março de 2008

transcrição de fitas

Pediram para você tirar umas fitas, quer dizer, o cliente gravou alguma coisa, uma aula, uma palestra, um discurso, uma discussão e quer que você transcreva as fitas gravadas para ele? Quer um orçamento?

Então deixa eu contar uma história que aconteceu comigo, quando eu tinha uns oito ou nove anos de experiência e pensava que sabia tudo. Hoje tenho 37 de profissão, sei que não sei nada e, mesmo sobre isso, tenho lá minhas dúvidas. Mas vamos à história: e apareceu pela frente um vizinho que tinha uma palestra do Jacques Cousteau, feita em inglês, gravada em cassete e queria que eu traduzisse. Pediu um orçamento.

Todo cioso dos meus conhecimentos, pedi para ouvir a fita. Meio capenga, mas dava para ouvir. Ouvi cinco minutos, atentamente. O Cousteu falava inglês com forte sotaque, mas vagarosamente e com pronúncia muito clara. Bico, pensei eu.

Mas logo me dei conta de que, para transcrever uma hora de palestra, ia precisar mais que uma hora. Imaginei três. Três é uma espécie de número mágico. Uma hora de palestra, três horas de trabalho. Ótimo.

Em três horas, traduzia umas oito laudas da editora para que trabalhava (laudas daquela época, não de hoje). Cobrei o equivalente a dez laudas, para ter uma folga. O vizinho achou uma loucura, tudo aquilo por uma simples palestra de uma hora. Se fosse em francês, que o vizinho falava fluentemente, ele próprio faria numa tarde. Mas era inglês. Fiz pé firme, ele aceitou.

Foi uma tragédia. A gravação era horrível, o homem era chato. A platéia, que tinha começado em silêncio começou a ficar inquieta. Depois de meia hora, viraram a fita sem pedir para o homem calar a boca e perdi um pedaço da palestra. Lá pelas tantas, ele começou a se cansar da chatice da própria palestra e a mastigar a pronúncia.

Perto do fim, deu uma lista do equipamento usado numa certa expedição e foi aí que o bicho pegou. Numa conversa com meu vizinho, que tinha estado presente, soube que naquele momento o Cousteau pescou um papelucho do bolso e leu inteiro em coisa de segundos, sem parar pra tomar fôlego. E eu a adivinhar o que raio era o xpaltogrpherwis398 - lthamcuwmu - raio - que - os - parta - a - todos - os - palestrantes.

De tanto ir e vir, meu gravador cassete quase morre, o pobrezinho. Moral da história, o que recebi mal pagou a conta da aspirina.

Numa conversa sobre esse assunto, nossa colega Ana Julia Perrotti-Garcia disse que, pela experiência dela, cada minuto de fita em inglês exige 5 a 10 minutos para digitar em português. E ela é experiente na área. Então, eu deveria ter cobrado entre 5 e 10 horas de trabalho. Mas agrega, sabiamente, que é necessário botar mais uns 25% para repouso, porque ninguém agüenta transcrever 10 horas sem parar. Daí que deveriam ser 12,5 horas. Agora, quanto você ganha traduzindo durante 12 horas? É isso o que você deveria cobrar para traduzir uma hora de fita. No mínimo, porque é serviço de matar.

O cliente vai achar um roubo e talvez não queira o serviço, saia batendo os pés, soltando fogo pela goela e fumo pelas ventas, em busca de alguém que faça algo mais em conta. Gastaram uma fortuna para promover a conferência, na hora de pagar você, não tem dinheiro, entendeu? Esqueceram de botar você no orçamento, não tem verba e é você quem tem que pagar pelo esqueciment de quem orçou os custos.

É até possível que encontrem alguém inexperiente que diga, nossa, que horror, a gente tem que cobrar o preço justo, é ou não é? e faça por bem menos. Mas isso faz parte da vida. Como também faz o você não acreditar na Ana Julia nem em mim, cobrar um preço camarada por um serviço desses e depois se arrepender. Mas eu ao menos avisei. E a Ana Julia contribui com os dados objetivos.

Ah, e tem mais, para fazer uma transcrição sem enlouquecer, precisa ter o equipamento certo. Mas acho que disso vou ter que falar outro dia, porque por hoje é só.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Escreveu a Aleksandra

Então, me escreveu a Aleksandra, pedindo umas informações. Respondi diretamente, o que não é meu costume: mensagens pedindo informações respondo via blog. As razões são muitas e nenhuma delas importa agora, mas a Aleksandra eu respondi em particular, porque uma resposta pública poderia estragar o projeto que ela tinha em mente, que é bonito e para o qual eu lhe desejo muito sucesso.

A mensagem dela era muito bem escrita, talvez um pouco formal, o que se justificava por estar escrevendo a um estranho. Já na segunda mensagem estava mais solta, num português coloquial, mas ainda perfeitamente correto, o que não é realização pequena. Talvez não fosse grande coisa, se ela fosse brasileira. Ela não diz onde nasceu e passou a "mais tenra infância", mas informa que morou no Brasil desde 1991 ate 1999, dos 12 aos 20 anos, e hoje mora na Sérvia.

Tem muita gente que morou no Brasil a vida inteira e não escreve coisa com coisa. O fato de que ela aproveitou os oito anos que morou aqui para aprender português direito é mérito exclusivo dela. Eu sempre falo em virtù e fortuna e é hora de falar de novo: fortuna é passar a adolescência no Brasil, virtù é aproveitar para aprender português.

A Aleksandra é tradutora na Sérvia. A mãe também é, o que prova que filha de peixa é peixinha. Gente, vocês já pensaram o que é ser tradutor de português na Sérvia? Não é que sérvio seja mais ou menos difícil que as outras línguas – para os falantes nativos. Sou da turma da Rainha Vitória, que uma vez disse alemão tem fama de tão difícil, mas os alemãezinhos falam alemão desde bem pequenininhos. O problema é o material de trabalho: mesmo a turma do inglês, a mais privilegiada, pena por falta de material e, muitas vezes, tem de passear pelo espanhol para achar uma solução que preste. Agora, imaginem a turma do sérvio (ou do búlgaro, romeno, japonês, turcomano, venusiano medieval, sei lá, tem línguas a dar com pau neste mundo)! E também não dá para se especializar. O que cair na rede é peixe. Não deve haver tantos tradutores de português em Belgrado que se possa dizer desculpe, mas medicina eu não faça, fala com o fulano, que ele é fera nessas coisas. E nem tanto trabalho que possam se dar ao luxo de esnobar.

Quer dizer esse pessoal não deve penar pouco: um exemplo para os chorões que vivem reclamando de falta de material.

domingo, 23 de março de 2008

Quem pariu Mateus que o embale

É comum a turma reclamar das comissões das agências, dizendo que a agência retêm uma porcentagem exagerada do preço cobrado do cliente final. A conclusão final costuma ser de que a comissão máxima justa ficaria em torno de 25% do total.

Uma vez, perguntei a um colega de onde ele tinha tirado esse número, esses 25%. Indignado, fez primeiro um discurso inflamado contra o que ele chamava minha defesa das agências (tradutor gosta muito de fazer discurso inflamado, principalmente por correio eletrônico, nos diversos fóruns de tradutores que por aí há). Logo eu, que jamais repasso trabalho para ninguém, por que raio estaria defendendo as agências? Mas, feito o discurso, o colega me perguntou se era justo nós ficarmos com três centavos por palavra, enquanto a agência ficava com nove.

Se é justo a agência ficar com nove, não sei. Não pago as contas deles, não sei que encargos têm, não é da minha conta. Não me interessa a vida dos outros. Para mim, chega a minha.

Um amigo dono de agência me fez uma conta onde mostrava que se retivesse menos de 75% do valor cobrado do cliente, não ia dar conta de seus gastos. Pode ser e pode não ser, não me interessa. Ele quis ter uma agência e quem pariu Mateus que o embale. Meu problema é o Mateus que eu pari, ou seja a tradução.

E sei que três centavos por palavra, e mesmo cinco ou oito, para o tradutor são uma quantia irrisória, lembrando que pagamos equipamento do nosso bolso, temos impostos e não temos férias, 13º e mais nenhuma das mordomias de quem tem vínculo empregatício, ou seja, a famosa carteira assinada. Isso sim, é da minha conta.

O que você ganha traduzindo deve ser suficiente para se sustentar e pagar pelo menos parte das despesas de sustento dos filhos. Com três centavos por palavra, só dá para fazer isso trabalhando o dia todo sete dias por semana. Caso contrário, você pode dar uma contribuiçãozinha, mas não paga a sua parte.

Conheci uma senhora que traduzia para uma editora e, a bem dizer, pagava para traduzir: considerando que a empregada ganhava férias, 13º e o que mais seja, o que a tradutora ganhava não pagava a empregada. Quer dizer, do ponto de vista econômico, dava mais vantagem demitir a empregada e assumir a casa. Não que ela quisesse, mas isso é outra conversa. De um modo ou de outro, não cabe pagar para trabalhar.

Então, repito o conselho: procure clientes adoidado e vá fazendo uma listinha deles classificada por valor pago. A cada vez que o pé-de-lista, quer dizer, o que menos paga, oferecer um serviço, diga educadamente gostaria de pegar, mas por esse preço é impossível, todos os meus clientes pagam mais que isso. Vai ver como funciona. Não peça aumento, não pergunte se dá para esticar: simplesmente diga que todos os outros estão pagando mais e você não pode aceitar por aquele preço.

Como é que a agência ou editora vai fazer para pagar mais a você? Não sei, não é da minha conta. Quem pariu Mateus que o embale.

Agora, clique aqui, pode interessar a você. Grátis.

sábado, 22 de março de 2008

Você tem direito de viver melhor

Nossa colega Beta acaba de entregar à Editora Alfa sua mais recente tradução. Junto, uma mensagem dizendo que para o próximo livro, o preço ia ser outro. Recebeu uma resposta do seu contato na editora, dizendo que de ordem da Grande Manda-Chuva Geral, não se mandava mais tradução para ela: há mais tradutores na praça, dispostos a trabalhar por preços razoáveis.

Acontece que a Editora Alfa anda meio que atrapalhada com essa coisa de tradução. Vivem de traduções, porque a produção de livros originais na especialidade deles é pequena. Então, é traduzir ou fechar a barraca. Mas não querem aumentar as taxas. Querem continuar a pagar o que pagam há anos, que sempre foi muito pouco e, com a inflação, virou quase nada.

Porque ainda há inflação. Menos do que no tempo do Sarney, mas há, sim. Então, periodicamente, temos que aumentar os preços. Aumentar para ficar no mesmo lugar, diga-se de passagem. Porque, sem aumentar, ganhamos cada vez menos.

Todos os trabalhadores têm aumentos periódicos, menos o tradutor. A corrida de táxi aumenta todo ano. Nós, espera-se que fiquemos sempre "na taxa", porque a taxa é X e acabou a história. E, nos últimos tempos, ternho recebido circulares de agências que querem reduzir a paga!

Os clientes – não só as editoras – fingem grande surpresa quando falamos em aumento. Alegam mil razões para não conceder o aumento (eles próprios não dispensam o aumentinho deles, claro, mas isso é outra coisa).

Não adianta pedir aumento: não vão dar. Você tem que se autoconceder aumento e comunicar ao cliente: não é mais possível traduzir a X por lauda; o próximo serviço será cobrado a Y por lauda, mantidas as mesmas características de hoje (antes que venha o esperto e duplique o tamanho da lauda para compensar um aumento de 10% na taxa).

E a Beta achou que estava na hora de declarar aumento. Declarou e pronto. Mas a Grande Manda-Chuva Geral não gostou e disse que não mandava mais serviço para a Beta. É, evidentemente, um cabo-de-guerra: o tradutor diz que não faz por menos, a editora diz que mais não paga.

Entretanto, parece que estamos chegando ao fundo do poço: não dá mais para agüentar: o arrocho está forte demais. As editoras que pagam menos estão também com a corda no pescoço, porque está cada vez mais difícil conseguir tradutores que trabalhem por metade de meio centavo a lauda, como elas querem pagar.

É muito fácil induzir alguém a aceitar a tradução de um livro por quase nada. Mostra-se à vítima o livro e diz-se que, pelos cálculos da editora, são tantas laudas, a tantos reais por lauda dando tantos mil reais. E é um bom dinheiro, coisa que faz diferença no bolso de qualquer um. Então, a inocente aceita. Mas quando vê o tempo que toma e o trabalho que dá, desanima e, muitas vezes, simplesmente desiste no meio do caminho. Ou dá uma grande picaretada geral e entrega. Os tradutores religiosos, ainda fazem uma prece antes de entregar; a maioria, nem isso.

A Beta já é tradutora calejada e conhece os truques do ofício. Já tirou mais de uma editora de encrencas, encrencas em que elas próprias se meteram por terem optado pelo tradutor mais barato, sem pensar em qualidade. Agora, quer colher os frutos do seu esforço, ganhando alguma coisa a mais que quase nada. E resolveu que vai dizer um "não" redondo às ofertas que não atingirem um dado piso. Certa está ela.

Aproveite e dê uma olhadinha aqui onde estão os valores recomendados pelo SINTRA, que, a bem dizer, não são nada nababescos. E vamos iniciar a temporada de dizer não. Aprenda a dizer não aos preços ínfimos.

Faça uma lista dos seus clientes, por ordem de preço. Quando ligar o pé-de-lista, diga que agora o preço é outro. Deixa o cara chorar, arrancar os cabelos, o diabo. Fique firme. Ou ele aceita, ou rejeita. Se rejeitar, agüenta firme que vai ter quem te queira. Se ele aceitar, sai do pé da lista – mas fica outro no lugar, certo? Então esse será o próximo. De degrau em degrau. Sempre. Você tem direito a viver melhor.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Convite

Convido para a palestra eletrônica patrocinada pela SBS sobre Profissionalismo na Tradução. O foco da palestra é o que faz de um bom tradutor um tradutor profissional, ou seja , alguém que tira seu sustento da tradução.

O evento é totalmente grátis e aberto à participação dos interessados. Durante uma semana, entre 20 e 30 de março, o texto da palestra fica na Internet, aberto a comentários e perguntas dos interessados, que vou respondendo à medida que são feitos. Os interessados podem acessar a palestra e fazer perguntas a qualquer hora do dia ou da noite, durante o período.

Sim, eu sei, muita arrogância da minha parte fazer uma coisa dessas.

Para mais informações, clique aqui.

Tradução de dieta para uma criança

Às vezes, o sangue sobe à cabeça. Já fui muito cabeça quente, já fui de passar grandes descomposturas nos que ousavam se opor a mim. A idade me fez mais tolerante (ou mais bobão, como queiram) e hoje sou razoavelmente contido. Mas tenho alguns episódios bons para lembrar.

Há muito tempo, fui chamado ao escritório da vice-presidência de uma multinacional para cotar um serviço. Era terrível, aquilo: não havia fax, não havia serviço de motoqueiro, não havia Internet e a gente tinha de vestir a roupinha de ver cliente, pegar o ônibus, esperar para ser atendido e, muitas vezes, como neste caso, sair de mão abanando.

Fui atendido pela secretária do vice-presidente, que me mostrou três folhas de papel e perguntou quanto custava a tradução, frisando que se tratava de uma dieta para uma criança doente. Falar em criança doente, naquele contexto, significava simplesmente pedir um desconto.

Tenho horror a chantagem emocional. Ou a criança era filha do vice-presidente da empresa e o pai tinha dinheiro suficiente para me pagar, ou o vice-presidente estava fazendo gentileza para com um amigo, caso em que seria recomendável fazer a saudação com o próprio barrete, não com o meu. Quer dizer, presente a gente dá com o dinheiro da gente, não com o dos outros. Caridade pede quem precisa.

Mas essas choradeiras todas, eu faço de conta que não ouço. Olhei, dei uma contada no texto, apliquei minha taxa e dei o preço. Nem me lembro qual era a moeda na época, mas lembro claramente que o preço era 180 alguma coisa. A secretária pegou o serviço da minha mão e, segurando as folhas com ambas as mãos, encostou os papéis no peito, dizendo, por esse preço, faço eu.

Aí, ferveu. Deu vontade de estalar uma bofetada na bochecha esquerda da cretina. A mão, deu para controlar; mas a língua assumiu o comando da situação. Disse um – Então, faça! – com a voz mais serena que encontrei no momento, virei as costas e fui embora sem nem um bom-dia nem o famoso passar bem.

Não dou descontos, mas acho normal que peçam. Até para pedir um desconto, entretanto, é necessário um tanto de boa educação.

Nunca mais me chamaram para nada. Ficou bom para todos: eles provavelmente acharam alguém que ficasse satisfeito com menos, eu me livrei de um cliente casca de ferida. Ou quem sabe a moça fez a tradução, sei lá.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Recadinho no Orkut:

Sou estudante do 2º Semestre de Letras, 22 anos e já tenho Inglês fluente. Dou aula em um cursinho intensivo aos sábados, mas vou ser sincero, tô muuuuito duro de grana. Teria umas dicas no ramo de tradução para me dar...se é que tenho currículo pra isso.

Você tem currículo para ser tradutor? Não sei, nem acho que um currículo, bom ou mau, seja a base para julgar competência tradutória. Talvez você até se dê melhor como tradutor do que como professor, mas isso só testes e tempo podem determinar. E juro que não vou testar o seu trabalho. Entretanto, posso dizer que a tua abordagem ao problema é meio capenga. Sabe, tipo assim, pegar umas traduções porque está duro de grana, sacumé.

Acho que não é bem por aí. Eu vivo de traduzir e não vejo nada de excepcional nisso, mas parece (e me perdoe se estou errado) que você está meio que achando que vai lá, pega umas traduções e resolve o teu problema. Criar uma clientela rendosa de tradução é um trabalho demorado, que exige muita dedicação. Mesmo aprender a traduzir exige muita dedicação e é algo bem diferente de ensinar inglês. Quer dizer, o traduzir pode ser até que muito bom para você, mas não é, assim, um quebra-galho: é uma profissão que vai exigir até talvez mais que o ensino.

Agora, clique aqui que tem mais informações para você e apareça na Palestra Eletrônica da SBS, que é grátis.


Agência de Traduções em Santa Paula da Apocalipse

Um colega me escreve perguntando se eu conheço alguma agência em Santa Paula da Apocalipse, onde ele mora ou está para ir morar. Na verdade, não sei. Mesmo que soubesse, não ia fazer grande diferença. A agência poderia não gostar do serviço dele ou não ter serviço para ele ou, pior ainda, ser absolutamente desonesta.

Felizmente, ele próprio agrega que sabe que, como profissional, vive na Internet. É bom que saiba disso. A toda hora aparece no Orkut, no Yahoogroups ou em minha caixa de correspondência alguém dizendo que onde mora não há muito mercado, ou os preços são baixos ou o que seja. Nosso mercado hoje é um dos mais globalizados que há e não faz a mais remota diferença se você mora em Santa Paula da Apocalipse ou São Pedro da Pedra Preta. Você precisa de uma boa conexão com a Internet. O resto, é ralar e suar.

Aproveito a oportunidade para convidar para aparecer aqui. O funcionamento é simples: eu deixo lá um escrito e você faz o seu comentário ou pergunta e eu respondo como melhor posso. Grátis, sem pegadinhas. Dura uma semana, durante a qual você pode acessar o site a qualquer hora do dia ou da noite.

Danilo, você é um escroto

Danilo, você é um escroto, quem não te conheça que te compre. Mentiroso, farsante, ardiloso, fofoqueiro, insidioso, malicioso, invejoso. Você é um desastre ambulante, poço de preconceitos, ególatra, esquizofrênico. Só anda com crianças, porque sua geração não te suporta. Tem a língua ferina, pobreza de caráter e só sabe semear a discórdia e a dissídia. Você é um crápula, um pulha!

O texto acima é de um comentário de alguém que prefere o anonimato. Para ler o artigo e ver o comentário, clique aqui.

Há algum tempo, duas ou três pessoas reclamaram da "censura ao blog", porque os comentários somente são publicados quando eu aprovo. Respondi que o objetivo da "censura" era evitar spam, que destrói qualquer blog e ataques a honra de terceiros, que se enquadram no Capítulo V do Código Penal. Se cometidos por anônimos, os crimes contra a honra no meu blog redundariam em responsabilidade para mim, o que significa que, se o Anônimo aí em cima dissesse que Fulano de Tal é um escroto… o seu Fulano de Tal poderia me processar. Por outro lado, quando a referência é a mim, não vejo problema em publicar, porque a única pessoa que poderia processar seria eu e eu não vou processar a mim próprio.

Por outro lado, mesmo que soubesse quem é o Anônimo, não ia processar. Conheço meus direitos, sei que poderia processar, mas não processaria, entre outras coisas porque reconheço ao Anônimo o direito de pensar de mim o que bem entende. Quer dizer, no fundo, o Anônimo me deu a chance de demonstrar na prática o tipo de triagem que faço dos comentários, pelo que lhe sou grato. Se mais alguém aqui quiser me espinafrar, esteja à vontade.

A espinafração do Anônimo é, digamos, genérica. É a expressão de uma opinião. Todos têm direito á sua opinião e o Anônimo também. Por que não teria? O problema das opiniões é que não têm resposta. Se eu digo que gosto não gosto de Rock 'n' Roll e você diz que gosta, bom, e daí?

Podemos ficar atirando lama um no outro o dia todo, eu dizendo que você é um bárbaro surdo e você respondendo que eu um cretino incapaz de aceitar a modernidade. Disso tudo, nada se deduz.

Por outo lado, se o Anônimo tivesse dito algo de objetivo, do tipo "em tal e tal situação, você disse ou fez tal e tal coisa que causou tal e qual problemas para tal e qual pessoas" eu responderia. Ou me defendendo, ou apresentando minhas desculpas.

terça-feira, 18 de março de 2008

Inglês jurídico

Toda segunda-feira, nossa colega Luciana Carvalho, que também é advogada e professora, publica um breve texto sobre inglês jurídico numa seção chamada "Migalaw English", no Migalhas, um site devotado ao direito. Vale a pena ler. Ainda está começando e, creio eu, quando ela pegar engreno, vai sair até faisca. Vi a Luciana em ação no segundo congresso da ABRATES e fiquei impressionado. Clique aqui para ler um dos artigos dela.

Resposta a uma mensagem de principiante

… estava começando minha carreira… e tinha muitas frustrações por não ser considerada tradutora pela minha inexperiência. Depois… comecei a trabalhar aqui e ali…

… hoje estou mais inclinada a desistir da carreira. Pode ser que aconteça um milagre e surja uma oportunidade legal que realmente pague minhas poucas contas, mas por enquanto, se quero construir minha independência definitiva, a tradução não me dá espaço.

.… vivo adiando essa decisão de largar a carreira.… quero ter minha vida, me estabilizar o mínimo possível pra ter meu cantinho... É natural, não? E a tradução já provou que é sempre "pingada". Tem trabalho mês sim, mês não. E como as contas vêm sempre "mês sim"...

…quis desabafar algo que queria há muito falar com você. Saber o que você acha disso tudo. Se você já passou por isso, como superou... Enfim, uma ajuda para eu definir o que farei daqui pra frente.


Vamos dizer que a autora da mensagem que me chegou ontem se chame Cláudia. Não se chama, e é por isso que a estou chamando assim aqui. Há que preservar a privacidade do pessoal que escreve. Bom, Cláudia, a sua mensagem não é excepcional. Como você há muita gente.

Há uma diferença entre aprender a traduzir e viver de traduzir. Há poucos empregos de tradutor e a maioria de nós, incluindo eu, trabalha por conta própria. Trabalhar por conta própria exige umas tantas habilidades que não se aprendem na faculdade nem nos livrinhos do Venuti. Exige, por exemplo, investir muito tempo na busca de serviço. No início, esse investimento é enorme; cai, com o tempo, mas jamais chega a zero. Até hoje gasto um bom tempo trabalhando o mercado. Não falta serviço, pelo menos do meu lado, mas fico procurando coisa melhor, porque melhorar é preciso. A maioria de nós detesta esse tipo de tarefa, muitos jamais aprendem. Esse, aparentemente, é o seu ponto fraco.

Já passei por épocas terríveis, também. Era casado, aluguel atrasado, geladeira vazia, roupas precisando substituição. Muitas vezes, o único pão que havia era o que o diabo tinha amassado. Tinha muito poucas opções e resolvi insistir. Deu certo e hoje, se não vivo como um nababo, também não posso dizer que viva mal.

Lamentavelmente, não tenho uma receitinha para conseguir serviço. O sucesso profissional, como diria o Maquiavel, é feito de virtù e fortuna, ou, como talvez disséssemos atualmente, de fatores internos e externos.

Do lado virtù, você escreve bem e, creio, deve ter pelo menos a competência fundamental para se tornar uma boa profissional da tradução, o que já é um bom e largo passo dado. Mas te falta a habilidade de conseguir serviço. Esta, entretanto, está indissoluvelmente vinculada à fortuna, quer dizer, aos imprevistos da vida, Cláudia. E são tantos, que não dá para botar numa receitinha.

O que te posso dizer, a guisa de conselho? Se você tem uma opção, já está melhor que eu, que não tinha nenhuma, e isso deve te dar uma segurança maior: na pior das hipóteses, você vai ser recepcionista e refaz a carreira daí. Isso é ótimo, o ter o Plano B. Eu até digo que ter um bom Plano B é mais importante que ter um bom Plano A.

Mas o Plano A é, realmente, ser tradutora, certo? Então comece dando a você um prazo: ou me estabilizo até o mês tal, ou parto para o Plano B. O prazo, evidentemente, depende de como você consegue manejar as suas contas. Durante esse prazo, participe ativamente de todas as atividades de tradutores. Não só da comunidade do Orkut, mas também das listas do Yahoo. Acompanhe as discussões, candidate-se a todas as ofertas de serviço. Inscreva-se no translatorscafe.com, no ProZ e em tudo quanto for canto de onde possam sair ofertas de serviço. Faça as inscrições grátis. Tem gente que diz que a inscrição paga do ProZ vale a pena, mas acho bom começar pela grátis. E rale, claro; rale até os dedos sangrarem.

Raros são os serviços bons saídos dessas inscrições. Costuma ser muita carne de pescoço. Mas é por aí que se começa. Serviço bom vai para as mãos de quem já provou que sabe, porque ninguém quer arriscar uma desconhecida para traçar um filé.

Por outro lado, tem muita gente que, depois de uns anos do "Plano B" e com uma vida mais estabilizada, resolve atacar a tradução de novo e se sai bem. Nunca se sabe.

Você diz, num dos trechos de sua mensagem que apaguei, que freqüenta aqui o blog. Por isso, provavelmente não precisa da informação, mas os outros novatos que caírem de pára-quedas na mensagem talvez precisem: onde diz "pesquisar blog", lá em cima, digite "iniciantes" e veja o que eu já disse sobre o assunto. Depois, repita com "principiantes". Tem coisas a dar com pau.

Finalmente, um abraço e boa sorte. Eu sei como você se sente, porque já passei por tudo isso. Agüentei o tranco e não me arrependo.