domingo, 3 de agosto de 2008
Quanto representam as editoras no mercado de tradução brasileiro?
A ver se me explico melhor agora.
Não existe dimensionamento preciso de nosso mercado. Por isso o se tanto. Há algumas observações empíricas de gente que se tem por bem informada.
Ninguém sabe quantos livros são traduzidos no Brasil e, mesmo que soubesse, não ia resolver, porque o que conta, do ponto de vista do volume de serviço, é o número de palavras (ou laudas, se quiserem), não o número de títulos. Também ninguém sabe quantos filmes são traduzidos para o setor cinema-TV-DVD nem muito menos quantos são traduzidos para o setor de publicidade e treinamento e nunca aparecem nas emissoras de TV, locadoras ou cinemas.
O mercado de juramentada é igualmente complicado: é fácil saber quantos TPICs há, mas é segredo de polichinelo que muito da tradução juramentada é e sempre foi feito por gente que não é TPIC. A quantidade de traduções juramentadas feita para atender às exigências da lei das licitações, por exemplo, é enorme e uma grande parte delas vai diretamente do tradutor para o lixo, porque ninguém vai ler mesmo. Mas são feitas e quem faz é remunerado.
Mas esses setores são a ponta do iceberg.
Muitos profissionais trabalham quietinhos em suas casas, para empresas comerciais industriais e para agências, no Brasil e no exterior. Eu sou um deles. Há cerca de 35 anos não aparece um trabalho meu assinado e, nesse período, traduzi milhões de palavras. Faça a conta: digamos que eu traduza só duas mil palavras por dia, que trabalhe somente 300 dias por ano. Multiplica isso por 35 e vê o que dá. Sou mais a regra que a exceção.
O setor de localização tem uma verdadeira usina de tradução. Os manuais, menus e telas de ajuda de todos os programas hoje vêm em português e isso representa uma montoeira de trabalho de tradução.
Muitas firmas e empresas, nos setores de auditoria, engenharia, advocacia, manufatura, têm suas equipes internas e ainda subcontratam gente de fora para os picos de serviço.
Existe uma fímbria do mercado, de tradutores eventuais (muitos deles exercendo também o magistério) trabalhando para clientes eventuais, que nunca foi nem vai poder ser quantificada. Uma miríade de pequenos fornecedores atendendo clientes com pequeno volume de serviço. Ainda a semana passada, uma sobrinha professora numa franquia de escolas de inglês da grande São Paulo me disse que várias de suas colegas ensinam em empresas e acabam pegando traduções que assumindo uma participação cada vez maior em sua renda.
Fora o que se faz, no meio acadêmico, para pessoas físicas.
Para não esticar este comentário por mais duzentas laudas, gostaria de lembrar que o grosso do mercado é de traduções do inglês, seguido pelo espanhol e, mais de longe pelo francês, alemão e italiano. Mas há os mercados para tradução de outras línguas (chinês, japonês, russo, grego, árabe e o que mais seja) de que as editoras praticamente não participam. E existe também o importante mercado de "versões", ou seja, tradução para línguas estrangeiras, de que as editoras praticamente não participam.
Quem participa das listas Trad-prt, Tradutores, Trad-livros, Profissaotradutor e da Comunidade 50302 do Orkut nota quanta gente há ativa que está fora do setor editorial. Na Litterati, evidentemente, é o contrário: é quase que só pessoal de editora. Mas a Litterati é uma lista especializada.
É por isso que alguns colegas chegaram à conclusão de que o volume de trabalho representado pelo setor editoria é exíguo, em torno lá dos seus 5%, a despeito de sua grande importância para a cultura. Aliás, o fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Muito pelo contrário, até que aqui as editoras representam muito para nós tradutores. Em países como EUA e RU, sua presença é comparativamente menor e há inúmeros países onde se faz muita tradução sem que jamais alguma seja publicada em livro.
Antes que me esqueça com volume, quero dizer quantidade de palavras, caracteres ou laudas oferecidos à tradução, não número de clientes.
Agora, por favor, dê uma olhada aqui.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
O que é necessário para ser tradutor profissional
Minhas línguas são o Português e o Espanhol. Quero muito de ser Tradutora. E necessito saber como funciona.... Como é valida uma tradução, já seja ela literária, legal, técnica, comercial, etc?
Em resumo preciso de um diploma? Sendo assim, que estudo, onde estudo? Existe Especialização ou Pós Graduação para Tradutor? Que necessito para me registrar? Como e onde me registro? Diferença de Tradutor Juramentado. Onde posso trabalhar? Serve em outros países?
Adriane,
Não é necessário diploma de nada para trabalhar como tradutora em país algum do mundo, mas fazer faculdade, direitinho, na faculdade mesmo, em vez de no boteco da esquina, ajuda muito, por mais que você fale português e espanhol bem e mesmo que, oficialmente, seu diploma não seja reconhecido no país onde você morar. A exceção são as traduções juramentadas, que somente podem ser feitas por TPIC (na caixa "pesquisar blog", aí em cima, escreva TPIC e dê Enter para descobrir que bicho é esse). Existem mil cursos para tradutores em diversos níveis. Você deve procurar nas instituições de ensino superior da região em que mora.
Registro como tradutor não existe (salvo se você for TPIC). Mas você vai ter de se registrar como profissional autônoma na prefeitura de sua cidade e no INSS ou então constituir uma empresa. Mas isso é coisa para conversar com um contador, não comigo.
Nossa profissão é globalizada e a maioria de nós trabalha na Internet. Eu, por exemplo, tiro cerca de 90% de minha renda de clientes de fora do Brasil.
Oficinas de Procedimentos e Técnicas de Tradução
Se você clicar aí do lado, onde tem um texto rolando, onde aparecem os cursos via Aulavox, vai encontrar Procedimentos e Técnicas de Tradução - Inglês>Português
Estas Oficinas de PTT são um projeto antigo. Há tempos venho fazendo palestras e experiências com técnicas de tradução e, inclusive, já até montei uma experimental por correspondência. Agora, creio que chegou o momento de fazer via Aulavox.
A gente vive dizendo que saber inglês é uma coisa, traduzir é outra. Pura verdade. Mas como é que se traduz? Uma pergunta que muitos fazem e poucos respondem. Pois é. Tradução não é ciência exata e, por isso, não dá para reduzir a uma série de algoritmos e fórmulas. Antes assim, porque se desse, o Babelfish já traduziria melhor que qualquer um de nós.
Então, na Oficina de PTT você vai fazer uma série de exercícios, que tratam de problemas clássicos de tradução e mostram caminhos que muitos de nós nunca tínhamos notado. Seu trabalho vai ser comentado imediatamente e você vai receber informações úteis sobre mil coisinhas relacionadas com tradução. O evento é altamente interativo, com discussões entre os participantes e com o instrutor.
Mas tenho de falar um pouco sobre o que NÃO vamos fazer:
- Não vou dar listas de falsos cognatos: para isso, tem o Guia Prático da Tradução Inglesa do Agenor Soares dos Santos.
- Não vou dar listas de termos difíceis de traduzir: para isso, tem o Vocabulando, da Isa Mara Lando.
- Não vou dar listas de expressões idiomáticas: para isso há mil livros excelentes na praça.
- Não vou dar listas de erros dos outros. Pode ser muito divertido, mas não acho que adiante coisa alguma.
Quer dizer, vamos falar de procedimentos e técnicas de tradução.
Pretendo apresentar a OPTT várias vezes, cada uma delas com conteúdo diferente. Os participantes recebem uma apostila e, se quiserem, um certificado.
Ah, tinha esquecido: uma boa idéia é fazer junto com algum colega. Duas pessoas no mesmo computador pagam uma só matrícula e o aproveitamento – se ambas tiverem nível de conhecimento semelhante – é até melhor. Mas esse é o limite. E emitimos no máximo dois certificados por computador ativo durante a Oficina.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Como escolher entre duas traduções:
- Dentre duas traduções, prefira a que mais precisamente refletir o sentido do original.
- Dentre duas traduções que satisfaçam a condição anterior, prefira a que estiver menos aberta a falsas interpretações.
- Dentre duas traduções que satisfaçam as condições anteriores, prefira a que for mais correta gramaticalmente.
- Dentre duas traduções que satisfaçam as condições anteriores, prefira a que melhor refletir a forma do original.
- Dentre duas traduções que satisfaçam as condições anteriores, prefira a que melhor fluir na língua de chegada.
- Dentre duas traduções que satisfaçam as condições anteriores, prefira a que usar o vocabulário mais conhecido.
- Dentre duas traduções que satisfaçam as condições anteriores, prefira a mais breve.
Espero que você goste e comente. Este é um dos processos que vamos aplicar nas Oficinas de Tradução a Distância. Depois falo um pouco mais delas. Se eu não bater o meu bumbo, ninguém mais vai bater – mas um pouco de suspense não faz mal a ninguém.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Revisar “versões”?
Eu já acho fazer “versão”, quer dizer, traduzir da minha língua para uma língua estrangeira, uma temeridade. A maioria das “versões” para o inglês feitas por brasileiros que tenho visto é de péssima qualidade – e olhe que inglês não é minha língua materna. Se fosse, provavelmente acharia ainda mais besteiras.
Já fiz muita “versão”, entretanto e, ao que tudo indica, não me dei de todo mal. Porém, de tempos para cá, só tenho feito “versões” para clientes cuja língua nativa é o inglês. Quer dizer, se ele aprova, não tenho o que temer do meu tupiniquinglish. As outras, tenho recusado. Fico mais tranqüilo, assim.
Uma vez, uma colega me pediu a revisão de uma “versão”. Fiz e me arrependi. Não acredito que eu tenha competência para revisar o inglês alheio e garantir que o resultado tenha nível profissional. Não aceito mais esse tipo de serviço.
No tempo em que eu ainda fazia muita “versão”, tinha um funcionário de um cliente que insistia em escrever “direto em inglês”, para minha revisão, para se ganhar tempo e ele ir “treinando”. Aqui, temos um problema inicial: eu presto serviços de tradução, não de ensino
O segundo problema deixaria alguns teóricos da tradução irritadíssimos. Para mim, toda tradução (ou “versão”) pressupõe um original, dele depende e a ele tem de ser fiel. Não é possível revisar uma tradução (ou “versão”) sem ter ao lado o original, que nos esclareça se o texto que o cliente nos enviou é fiel. Então, tive um pega com o sujeito. Fiz pé firme. Ele disse que eu era teimoso e eu dei a famosa resposta de Mário Covas: teimoso é você, que teima comigo! Cravei os cascos na lama e não aceitei. Não aceitei e não aceitei. E quando eu digo que não aceito, é porque não aceito e pronto.
Como revisor, eu sou o goleiro e, quando a bola entra no gol, o culpado sou eu. Não adianta dizer que o texto do cliente estava confuso e tal. Se der meleca, sou eu o acusado de incompetente. Por isso, não aceito. Prefiro perder o cliente. Mas não perdi. Havia muito serviço de “versão” na casa e era eu quem fazia. Só havia um cara que queria escrever direto em inglês.
Um dia, o cara saiu da firma e foi trabalhar em outro lugar. Tempos depois, me ligou e perguntou se eu estava disposto a aceitar um novo cliente. Eu já previ o que era, mas deixei que ele se enforcasse na própria corda. Aceitei. Ele mandou o texto via e-mail. Com todo jeito de inocente, pedi o original. Ele disse que não tinha. Então eu disse que não podia revisar e, de novo, cravei os cascos na lama. Ele desistiu e nunca mais tentou fazer contato. Não fez falta.
terça-feira, 29 de julho de 2008
O que engorda o gado
Foi enquanto pensava nesta segunda interpretação que me veio à mente a história do serviço fácil. O cliente liga e oferece um serviço. Já vai dizendo, logo de cara, que é fácil, pouca coisa, meia dúzia de pagininhas, nada de muito técnico, você faz num instante. Claro, em clientês isto significa que ele está cavando um desconto.
Mas você vai ver é uma meleca dos demônios, um daqueles textos enfezados, escritos por algum disléxico com mania de grandeza e que a meia dúzia de pagininhas é um pdf borrado em Arial Narrow 4 e que, de fato, não é técnico. Antes fosse, porque, se fosse técnico, era até capaz de fazer algum sentido.
Podem chorar o que quiserem, podem fazer o discurso que quiserem, não dou desconto. Não dou desconto por texto fácil porque nenhum cliente jamais vai aceitar adicional de texto difícil. Então, os extremos se cancelam e pronto. Aliás, não acredito na existência de textos fáceis de traduzir, mas isso é outra conversa.
A maior prova de que tem carne debaixo do angu é que normalmente esse cliente quer um desconto sem que você veja o texto. Não quer, porque está escondendo alguma coisa.
Eu não dou descontos por facilidade nem cobro acréscimos por dificuldade. Se for difícil, azar meu; se for fácil, sorte minha. Quando o cliente insiste no desconto de facilidade eu digo isso e acrescento que o risco de dificuldade é meu e que se, em um serviço dele, der algum pepino, eu não vou cobrar a mais. E encerro a conversa. Ponto final. Não cedo. Não cedo um centímetro. Principalmente, tenha em mente que, se você disser se o texto for fácil mesmo, dou um desconto, até o fim dos tempos o cliente vai dizer que você prometeu um desconto e vai esquecer a primeira parte da frase.
Uma vez, uma colega me disse que eu não cedo porque já conquistei meu lugar ao sol. Errado! Eu conquistei meu lugar ao sol por saber dizer não, por saber quando dizer não e por saber como dizer não.
Para terminar, uma história divertida: a secretária me diz que tinha um serviço de uma meia dúzia de páginas e pergunta quanto ficava. Dei o preço por palavra, explicando que poderia haver páginas muito cheias ou muito vazias e, por isso, o número de páginas, em si, não fazia diferença. Depois de resmungar um pouco, mandou o serviço. Era, de fato, uma meia dúzia de páginas cheias de texto e mais uma boa vintena de páginas com uma meia dúzia de linhas em cada uma. Eu, sempre muito espírito de porco, fiz o serviço e mandei anexo em um e-mail onde dizia: prezada fulana, aqui vai sua meia dúzia de pagininhas, numeradas consecutivamente de um a vinte e cinco.
E, por hoje, é só. Espero eu continuar a escrever todos os dias. E dê uma olhada aqui do lado, onde está escrito Texto e Contexto, para ver os cursos a distância via Aulavox.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Quanto paga uma editora
A este artigo a Ana Cristina postou este comentário:
Serviços repetitivos
Começou lá no Orkut uma bela discussão, em cima de um texto do Stephen Kanitz sobre casamentos duradouros, que foi falsamente atribuído ao Arnaldo Jabor e me levou a uma observação de natureza conjugal-tradutória. Aqui, vou deixar de lado o aspecto conjugal da história e me dedicar ao tradutório, que é disto que trata (ou deveria tratar) este blog.
Muita gente se queixa que tradução técnica é repetitiva, que é chato demais fazer todo dia a mesma coisa, que as áreas não-técnicas são menos chatas.
Depende um pouco da situação, claro. Porque existe muita literatura de massa que segue moldes altamente repetitivos. Durante muitos anos li Perry Mason e a quantidade de repetição é espantosa, Bianca, Sabrina e Júlia deve ser ainda mais repetitivo. Mas, de modo geral, há que concordar que os textos financeiros que traduzo há quase 40 anos guardam entre si grande semelhança. Com o tempo, a lei (textos financeiros dependem muito de legislação: muda a lei, muda o texto) e as modas, foram mudando, mas, mesmo assim, ainda encontro expressões com que topei na minha primeira semana de tradutor.
Mas, note, os textos são repetitivos, o que não significa que as traduções devam ser. Muito do que aprendi sobre técnicas de tradução vem, exatamente, do ter traduzido mil vezes as mesmas coisas.
Da mesma forma que a cada vez que você revisa uma tradução aparece uma solução melhor para o mesmo problema, a cada vez que eu traduzo, de novo, uma frase cujo esqueleto já traduzi mil vezes, tenho uma chance de apurar a forma, testar novas soluções. Um processo absolutamente contrário ao de muitos colegas que dizem ter aprendido com a variedade de textos, com o em um dia traduzir um filósofo e no outro traduzir literatura erótica.
Ensinei inglês muitos anos e, às vezes, ainda penso como professor de inglês, vendo os meus textos repetitivos como um tipo de pattern drill em que se repete, à saciedade, um padrão sintático, com o objetivo de melhorar a cada repetição. É mais ou menos assim que vejo as minhas repetições.
Em suma, a repetição pode existir no original, mas não é obrigatória na tradução. Tradução não se repete: melhora-se. Cada sugestão da memória de tradução é um desafio que me ri na cara e diz: Vai, melhora o que você fez antes! Você não diz que é tradutor? Então? E a cada vez que não consigo aperfeiçoar uma tradução antiga, me sinto um derrotado.
Quer dizer, coincidências totais, os famosos e famigerados 100% matches, existem somente na memória de tradução. Mas quem diz que memória de tradução tem cérebro? Ou coração?
domingo, 27 de julho de 2008
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
O problema menor, a meu ver, são os erros de português encontrados nas traduções. É muito mais grave o problema dos tradutores que começam a escrever tradutorês nos seus textos originais em português. Vou dar dois exemplos, ambos do inglês e ambos mascaradinhos, para não criar caso demais da conta. Mas o essencial está preservado.
Uma colega escreve eu fui oferecida um trabalho de revisão. Santo Deus! Misericórdia! Eu fui oferecida um trabalho é tradução literal de I was offered a job e é coisa que, em boca de gringo tem lá sua graça. Mas brasileiro nascido e crescido aqui, que estudou aqui toda sua vida e que se considera profissional da língua (e revisora!), escrevendo uma barbaridade dessas – e, tenha certeza – não foi brincadeira.
Outro me escreve falhei em lembrar. Ora, pipocas, falhei em lembrar, em língua de quem come arroz e feijão, significa lembrei e isso foi uma falha da minha parte. O que o colega quis dizer é não lembrei, mas achou chique copiar o inglês I failed to remember.
Que essas coisas se escrevam numa tradução já é mau, já revela um grave problema de contaminação. Que se escrevam em mensagens e recados e cartas e coisas escritas originalmente em português, é alarmante. Daqui a pouco, vão dizer faz você gostar para comer panquecas?
Mas, se a gente corrige, ficam zangados, somos acusados de falta de coleguismo, arrogância, o diabo – e lá vem aquele sarcasmo internético irritante do tipo peço humildes desculpas pelo meu terrível erro… Instalou-se, lamentavelmente, a cultura da crítica construtiva, que muitos interpretam como só dizer coisas boas e nunca apontar os erros.
Então, vou começar esta nova fase do blog sendo destrutivo, arrogante, antipático e espírito de porco: gente, é o seguinte: quer ser tradutor? Estude português. Leia menos inglês e mais português. Ame menos o inglês e mais o português. Compre o Lições de português pela análise sintática do Evanildo Bechara e leia de ponta a ponta. Consulte um dicionário antes de escrever subtotal para não bota hífen onde não deve. Aprenda a usar maiúsculas direito, em vez de acompanhar o hábito americano de salpicar o texto de maiúsculas como se fosse ketchup. Em outras palavras, não escreva português como gringo. Português é português, inglês é inglês. Ou, na expressão da moda, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Até amanhã.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Reunião na Sala 7 - Grátis, a Distância
Um encontro mensal para discutir aspectos profissionais da tradução. Coisas como preços, mercado, clientela, formas de atendimento, enfim, todas aquelas coisas que interssam a nós que vivemos para traduzir e, por isso, queremos viver de traduzir.
Sempre na Sala 7 da Aulavox. O moderador é Danilo Nogueira, profissional com 37 anos de carreira e que já fez inúmeras palestras em vários estados do Brasil, na Argentina e nos Estados Unidos.
O formato agora está mais dinâmico e interativo, com mais oportunidades para discutir as questões propostas no chat.
A participação é grátis, mas você precisa se inscrever antecipadamente. É permitida a inscrição de grupos. Compareça e avise seus colegas.
Data: 26 de julho de 2008
Horário: 14h às 16h
Carga horária: 2 horas
Investimento: gratuito.
http://www.aulavox.com/2008/07/danilo-n/sala7-2607.htm
(Divulgue, por favor - se receber em duplicata, desculpe)
terça-feira, 15 de julho de 2008
Uma dica, por favor
A dica, de certa maneira, corresponde ao pulo do gato, àquela informação que faz uma grande diferença. O problema está na tendência de achar que tudo nesta vida se resume a uma meia dúzia de dicas, que estão em algum lugar e que é necessário descobrir para progredir. Rápido e rasteiro, meia dúzia de linhas em um e-mail e pronto.
As dicas originais do Objetivo vinham no meio das apostilas, em destaque. Com ou sem elas, a turma tinha que estudar feito loucos e eu me lembro disso porque um conhecido estava se preparando para medicina e vivia com o nariz nas apostilas e enchia resmas de papel com exercícios. Alguns, claro, os mais espertos, liam somente as dicas. A diferença é que meu conhecido entrou na faculdade e os espertos ficaram para trás.
É raro o dia em que não me pedem dicas, geralmente dicas de como conseguir serviço. Aliás, é disso que vamos falar na próxima Reunião na Sala 7, no dia 26 (VOLTOU!!!!). O fato é, entretanto, que não há dicas que substituam o trabalho árduo. Uma série de boas dicas pode facilitar as coisas, mas aprender línguas no nível necessário para traduzir, ingressar no mercado e viver de tradução exigem muito esforço e os que pensam que vão viver de traduzir em torno de mesas de chope na Vila Madalena podem esperar algumas boas surpresas na vida.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Estou sendo explorada?
Uma colega me faz essa pergunta. Conta que tem um grau de doutora e, por qualquer motivo, resolveu se dedicar à tradução em vez de à profissão em que se havia doutorado. Diz que recebe entre R$ 0,03 e R$ 0,04 por palavra da agência para que trabalha.
Pergunta se está sendo explorada.
Não gosto da palavra explorada neste sentido e não vou mais usar aqui. Mas sempre há algumas coisas que posso dizer à colega.
Comecemos dizendo que o fato de ela ser doutora não diz nada sobre a qualidade de sua tradução. Tradução é como pudim: precisa provar para saber se está bom - e eu não vi a tradução dela. Aliás, nem tenho como ver.
Por outro lado, a faixa citada é a mais baixa que as agências pagam. Portanto, se você está nessa faixa, ou precisa melhorar a qualidade de sua tradução ou procurar clientes que paguem melhor.
Resposts Mal-educadas
Já faz tempo, pelo menos em termos de Internet. No dia 7 de junho de 2004, acordei com espírito de porco e postei o texto abaixo, em inglês, na TCR-D uma lista de discussão internacional. O texto andou por aí, de seca em Meca e, hoje de manhã, uma amiga me avisou que tinha sido repostado em uma lista espanhola. Eu tinha completamente perdido o texto e fiquei satisfeito de recuperar, por cortesia dela. É uma série de respostas mal-educadas que eu usei em um outro momento da minha vida profissional. O LSD$ é uma moeda imaginária, o Lower Slobovian Dinar, ou Dinar da Baixa Eslobóvia, que eu inventei para não ter que dar preços reais. Espero que você goste das historinhas.
–O que você faz?
–Sou tradutor.
–É mesmo? Bacana, mas eu queria saber o que você faz para viver.
–Você quer dizer trabalhar? Eu não trabalho. Ganho tanto dinheiro com as traduções, que não preciso trabalhar.
–Dá para fazer esta tradução em três dias? Estou com uma pressa danada.
–Claro.
–Quando vai custar?
–LSD$ 1500.
–Não é demais para três dias de trabalho?
–Posso fazer em uma semana, se você preferir.
–Dá para fazer um precinho mais camarada para a gente?
–Por quê?
–Você ganha mais que eu!
–É mesmo? Então, porque você não vira tradutor?
–Temos uma cotação mais razoável para este pedido. Tem muito tradutor disposto a pegar o serviço a taxas mais razoáveis.
–Tem sim. Mas também tem muito cliente disposto a pagar a taxa que eu cotei.
–Temos uma cotação uns bons vinte por cento mais baixa que a sua.
–… [Silêncio]
–Oi! –Eu disse que temos uma cotação uns bons vinte por cento mais baixa que a sua.
–Sim, eu ouvi.
–E o que você me diz disso?
–Nada.
[para um cliente estrangeiro]
–Qual é sua menor taxa? –LSD$ X.
–Taxa muito alta para o Brasil.
–Sim, eu sei disso. É bem por isso que eu não trabalho para clientes brasileiros. Eu só vivo no Brasil, mas não trabalho aqui. O melhor dos dois mundos, sabe? Viver no Brasil, trabalhar no exterior.
–Qual é sua menor taxa?
–LSD$ X.
–Santo Deus, como é que você chegou a esse valor astronômico?
–Oferta e demanda.
–Qual é sua menor taxa?
–LSD$ X.
–Tudo isso por uma folha de papel?
–Não, o papel é grátis. É simplesmente a embalagem da tradução. O preço é pelo trabalho de pôr as palavras no papel.
–Os espaços não se traduzem, Por isso, a gente não paga os espaços.
–Muito bom. Vou entregar a tradução sem espaços.
–Conheço uma pessoa que cobra menos que você.
–E eu conheço muita gente que cobra menos que eu.
–Eles são bons tradutores?
–Não faço idéia. Nunca vi o trabalho deles.
–Tá bom, eu conheço um tradutor muito bom que cobra menos que você.
–Então, você tem o problema de decidir quem vai fazer a sua tradução.
–Fulano cobra menos do que isso.
–Você está falando comigo, agora.
–Você ficou maluco!
–Sim, sei disso. Meu psiquiatra cobra uma fábula. Por isso que minhas taxas são tão altas.
–Lamento muito, mas LSD 0,0001 por palavra é o máximo que podemos oferecer. É um projeto muito grande. Estamos fazendo uma proposta para 25 línguas.
–Minha proposta é só para português.
–Lamento muito, mas LSD 0,0001 por palavra é o máximo que podemos oferecer. Vamos ter prejuízo com este projeto.
–Fala comigo quando conseguir um contrato lucrativo.
–Vai ter mais trabalho no futuro.
–Então, vai se acostumando com o preço.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
O Leão está Doente II
O Ivan, num comentário aí abaixo, diz Com certeza! No caso de uma empresa, são necessárias outras competências e habilidades para que o negócio não afunde... Certíssimo, Ivan. Traduzir é uma coisa, dirigir uma agência de tradução é outra.
Aí, então, vem uma das minhas birras prediletas, que é a confusão entre os dois papéis. Alguns tradutores são excelentes administradores, da mesma forma que alguns tradutores são excelentes cozinheiros ou trombonistas, mas não tem nada que ver uma coisa com a outra. Uma das coisas que me irritam é o tradutor que critica o dono de agência dizendo vi traduções horríveis dele. E daí?
O que eu espero do dono da agência é que me pague bem e no prazo e não me atormente a vida com perguntas e exigências idiotas. Se o sujeito sabe traduzir, cozinhar ou tocar trombone, não faz a mais remota diferença.
Mas o caso da Lionbridge, que é uma sociedade de capital aberto e, portanto, deveria estar nas mãos de gestores profissionais, parece ser outro. Não se trata de tradutores metidos a gestores, trata-se de gestores profissionais que não conseguiram entender como funciona a tradução.
Estamos sofrendo muito com as Lionbridges todas, porque nos pagam mal e tardiamente e porque consideram o pagar cada vez menos a única estratégia possível. Não sei muito bem onde isto tudo vai dar, mas fico pensando nos dinossauros, que foram crescendo, crescendo, até se tornarem inviáveis, enquanto as baratas continuam aí. Não que eu goste de baratas ou me considere uma, mas acho que você entendeu o que eu quis dizer.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
O Leão está Doente
O Leão está doente
Um colega me chamou a atenção para esta notícia. Trocado em miúdos, a Lionbridge, que está entre as maiores agências de tradução do mundo, uma das que menos paga aos tradutores e uma das que mais investe em tecnologia, teve um prejuízo de US$ 4 milhões – e isso para o primeiro trimestre de 2008. O que vem pelo resto do ano, só Deus sabe.
O que deu errado? Saber, assim, de saber sabido, não sei. Mas sempre se podem fazer algumas observações:
- Agência não é mina de ouro, como pensa tanta gente. A despeito do diferencial entre o que nos pagam e o que cobram dos clientes, as despesas são tantas que, se não forem bons, o bicho pega.
- A Lionbridge, como tantas outras empresas, sobrestimou o retorno proporcionado pelo investimento em tecnologia. Há retorno, sim, mas não é o que a turma pensa.
- A política deles era maximizar vendas: cobra o mínimo, para pegar o serviço de uma forma ou de outra, e depois dá um arrocho nos tradutores e revisores. Mas, a despeito do fato de que o mercado está cheio de gente disposta a aceitar serviço a taxas baixíssimas, há um limite para tudo.
- Esse pessoal se impressiona muito com serviço grande. Vêem um serviço de megalhão de palavras, arquitrocentos fyzzy matches, e acham que dá para conceder um desconto bom. Mas acontece que controlar um serviço muito grande custa uma fábula e, na verdade, as agências deveriam cobrar um acréscimo de volume, em vez de dar desconto. Salvo se você juntar tudo o que os tradutores mandaram fizer uma prece a São Jerônimo e mandar para a frente, com casca e tudo.
- O sistema de pagamentos deles tem sido muito criticado, o que também contribui para afastar os bons tradutores.
Claro, nem todas as agências são um fracasso econômico, mas, também, nem todas são o sucesso que se pensa. Aliás, se eu achasse que ter agência de tradução era lucro certo, já tinha montado uma.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Preço de microsserviço
Tenho uma dúvida que é a seguinte: me ofereceram um trabalho onde eu tinha que traduzir 3 frases que eram textos de rótulos de produtos do tipo: leve "X" produto e ganhe uma "mochila". A tradução, além de técnica, exigia uma adaptação pois era do português para um idioma estrangeiro, e no idioma estrangeiro a frase tinha outra estrutura. A agencia me ofereceu R$ 0,10 (dez centavos de real) por palavra com um total de 70 palavras(+/-), ou seja, eu receberia 7 reais pelo trabalho.Não é possível determinar um valor justo para serviço algum. Quer dizer, não há como eu possa dizer, baseado, nos dados que você me dá ou em quaisquer outros, considerando isto e aquilo, o que deveria ser pago. O que se pode falar é se o valor pago está de acordo com o mercado. Isso, na melhor das hipóteses, porque os preços no nosso mercado variam muito e o que está "dentro do mercado" para Alfa, pode estar "fora do mercado" para Beta.
Gostaria de saber quanto um profissional cobra por esse tipo de trabalho e se a agencia ofereceu um valor justo.
Minha experiência é que, tirando fora os casos realmente extremos, a proporção entre os que cobram mais e os que cobram menos chega a dez para um, situação que leva a muito azedume sempre que a gente se põe a discutir essas coisas. Não há um procedimento padrão e, evidentemente, que paga luta por paga o mínimo, quem cobra luta por cobrar o máximo.
Dez centavos de real por palavra, preço de agência brasileira, para traduzir para uma língua estrangeira, não está de todo mau e tem gente ganhando bem menos que isso. A tradução para uma língua estrangeira, normalmente chamada versão é paga a uma taxa superior à da tradução para o português, mas a minha experiência é que não vale a pena, porque, se sua língua nativa for o português, dá uma trabalheira de todos os diabos. Além de que pouquíssima gente faz "versão" que preste – mas isso é outro problema.
O problema é o ser um microsserviço. A praxe do mercado é usar uma taxa mínima para essas coisas. Menos do isso, independentemente do trabalho que a tradução der, não cobre o trabalho de discutir o serviço, cobrar, emitir nota e quetais. Os clientes detestam e procuram sempre negociar essa taxa. Há tempos não tenho microsserviços no Brasil e, portanto, nem tenho taxa mínima em real. Mas diria que, algo em torno de R$ 50 – 75 seria de bom tamanho. Ou seja, se o cliente mandar uma frase de dez palavras, são R$ 50 e pronto. É também um meio de coibir abusos, o cliente que te pega meia hora no telefone para mandar um serviço de dez reais.
Entretanto, quando se trata de um cliente que manda montes de serviço, a gente às vezes nem cobra uma coisa dessas. Quer dizer, cada caso é um caso.
Pelo que me diz a missivista, o texto talvez seja de natureza publicitária e esses textos são dificílimos de traduzir, não importa para qual língua. O pessoal de criação da agência de publicidade fica um mês para bolar uma frase, cobra um preço condizente com o tempo gasto, mas se espera que o tradutor ache o equivalente em outra língua em menos de um minuto e cobre cinco reais pelo serviço.
Uma vez, eu estava no escritório de uma agência e ligaram da Secretaria do Governo do Estado do Paraná, pedindo uma traduçãozinha rapidinha, só três palavrinhas. Quando o dono da agência fez pé firme, sustentando que precisaria de pelo menos um dia para traduzir aquilo e cotou um preço condizente com um dia de trabalho de um tradutor, desistiram. Ainda bem, porque a frase – não me esqueço – era o slogan do governo do Paraná, na época: Paraná: aqui se trabalha.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Uma mensagem quilométrica
Recebi uma mensagem quilométrica de um rapaz que tem uma história rocambolesca e estapafúrdia, para dizer pouco.
Resumindo, resumindo, resumindo, o Carlos (não é realmente esse o nome dele) só tem curso médio, feito meio que aos trancos e aprendeu inglês sozinho, de teimoso. Emocionalmente, tem fases estáveis e instáveis, por vários motivos. Mora nos cafundós do Judas, só consegue trabalho braçal e acha que se sentiria melhor em trabalho intelectual.
Pergunta se tem futuro como tradutor e tal, aquela coisa de sempre.
Bom, Carlos, se você tem curso médio completo, já tem mais do que eu, que nunca terminei o meu. Meu inglês também foi aprendido meio que no susto, lendo livros e revistas sobre música, já que as possibilidades de fazer um curso eram zero. Minha família provavelmente era menos pobre do que a sua, mas eu jamais fui algum magnata.
Já vivia de traduzir há anos quando fui a primeira vez aos EUA. Ao todo, fui cinco vezes lá e uma à Inglaterra. Somando todas as estadas, não deu trinta dias. Meu inglês falado, até hoje, é uma lástima. Quando vou para lá, sempre procuro sair com amigos que falem melhor que eu, porque até pedir comida em restaurante é uma tortura.
Mas nada disso me impede de viver de tradução.
Você escreve muito bem, o que já é um excelente ponto de partida. Se o seu inglês é bom ou mau, não sei, nem vou procurar saber. Você diz que, como professor, não é grande coisa. Não se preocupe com isso: professor é uma coisa, tradutor é outra e nem todos os que são bons numa dessas atividades se dão bem na outra. Da mesma forma que nem todos os tradutores são bons intérpretes e vice-versa.
Resta, então, comentar o aspecto tradução. Acho que você deveria começar a fazer testes para tradutor. Veja, aqui do lado direito, os nomes das listas de tradutores na internet e da nossa comunidade no Orkut. Inscreva-se. Inscreva-se, mas não entre de sola. Fique quieto, ouvindo, lendo, aprendendo, durante pelo menos quinze dias, para pegar o jeitão da coisa. Depois, comece a participar.
Periodicamente, eu faço a tal da Reunião na Sala 7, via Internet, sempre grátis, um evento que tem, entre outras coisas, a função de criara contatos entre tradutores. Participe. Não paga nada, mesmo.
Nesses lugares, nunca se pede serviço. Mas nunca mesmo. Mas sempre surgem oportunidades e ofertas e sugestões.
Este artigo está já longo demais, mas amanhã volto ao assunto, com algumas sugestões sobre onde procurar trabalho. Nada é garantido, mas tudo ajuda um pouco.
Ah, Carlos, antes que me esqueça, criar um pouco de juízo não ia fazer mal nenhum também – e você me parece estar tão consciente disso quanto eu próprio. Mas, aí, meu caro, já não posso fazer nada: fica exclusivamente por sua conta. Você é que sabe o que quer da vida.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Colega sem sorte
Um recadinho no Orkut tem uma queixa de um colega que se queixa da falta de sorte. A história toda eu conheço já há algum tempo e vou resumir para você, mascarando um que outro pormenor.
O colega teve a sorte de arranjar um emprego único, para uma combinação de qualificações que ele tinha e que incluía a capacidade para atuar como intérprete. Como o emprego exigia uma combinação de conhecimentos especial, a remuneração era alta. Além disso, havia a garantia de um contrato. O contrato não foi renovado e o nosso amigo se viu meio perdido. Já faz tempo que está tentando se reorganizar, mas não consegue.
O primeiro problema, aqui, é o contrato, que dá uma falsa segurança. Você não pode ser demitida, mas, por outro lado, quando acaba, acabou e não tem choro. Mesmo o vínculo empregatício regido pela CLT, a famosa carteira assinada, que dá alguma garantia a mais, garante muito pouco. O que garante a segurança, para quem tem emprego, é a liquidez do mercado local. Quer dizer, se você tem o único emprego de tradutora existente na sua cidade, se perder o emprego ou arranja outra profissão ou muda de cidade.
Quando se trata de um emprego que combina duas funções, digamos tradutora e editora de vídeo e, por isso, paga mais, a chance de você manter o esquema em outro lugar é baixíssima, porque poucas empresas vão precisar dessa combinação.
Além disso, mesmo em cidades grandes, poucas empresas contratam tradutores ou intérpretes como funcionários: dada a oscilação constante do volume de trabalho, a grande maioria prefere terceirizar esse tipo de serviço.
Não quer dizer que um tradutor tenha de viver nos grandes centros, mas quer dizer que, se você mora fora dos grandes centros, é melhor procurar trabalhar como independente, via Internet, do que procurar um emprego. Emprego de intérprete tem menos ainda. Não quer dizer que não haja serviço, quer dizer que intérprete que marca cartão e tem carteira assinada é raridade. A maioria trabalha como independente e acaba viajando muito. É esse o mercado.
Então, o colega não é realmente desprovido de sorte. Simplesmente, achou uma agulha em um palheiro e não consegue achar a segunda.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Mary is a native
Tenho uma conhecida, a Mary que nasceu na anglofonolândia, aquele aglomerado de países onde as criancinhas falam inglês desde bem pequenininhas. Essa minha conhecida não perde a mais leve chance de lembrar que sua língua-mãe é o inglês e, ipso facto, é autoridade no assunto. Leu algumas traduções para o inglês feitas por brasileiros e morreu de rir com o tupiniquinglish.
Dessas observações, tirou algumas conclusões válidas e outras nem tanto, porque baseadas em generalizações exageradas. Como esse assunto é discutido tão freqüentemente onde quer que se reúnam pessoas interessadas em tradução, deixa eu cá dar meu palpite.
Minha conhecida tem, de fato, um inglês impecável, embora os ingleses mesmo provavelmente torcessem o nariz para uma que outra construção que ela usa, assim como os portugueses torcem o nariz para torneios de frase que, para nós brasileiros, parecem perfeitos. Fosse ela inglesa, seriam os americanos, canadenses e o que mais seja que achariam algumas das frases dela algo estranhas.
Nem todos os nascidos na anglofonolândia, entretanto, escrevem bem. Lá como cá, há uma cambada de semi-analfabetos que dá dó, fato suficientemente discutido na imprensa de lá, e não é de hoje. Quer dizer, a Mary escreve bem porque estudou e se esforçou por aprender a escrever bem e porque tinha talento para tanto, não por ter nascido lá. É fato indiscutível que quem nasceu do lado de cá jamais pode esperar atingir a perfeição no inglês, mas também é indiscutível que o ter nascido lá não garante nada.
A Mary morre de rir do tupiniquinglish, e não sem razão. Nenhum de nós brasileiros vai jamais dominar o inglês perfeitamente. A maioria dos brasileiros que acha que tem inglês perfeito tem mesmo é falta de autocrítica.
Lamentavelmente, para o cliente brasileiro, que sabe pouco inglês, o tupiniquinglish parece bem melhor que o inglês mais autêntico e essa turma tem serviço adoidado. Sei de uma história divertidíssima de uma empresa onde uma tradução esmerada, de um colega nosso nascido e criado na Inglaterra, com um inglês magnífico e sólidos conhecimentos de português, foi reescrita pela diretoria da empresa em tupiniquinglish, que eles achavam mais claro e correto.
Por outro lado, o estrangeiro que traduz do português muitas vezes não entende o original suficientemente bem e escreve umas coisas estranhas, que o autor nunca pensou em dizer. Já vi isso mais de uma vez. A Mary mora aqui e sabe das coisas, mas, principalmente na Europa, tem uma turma que estudou francês na faculdade, pegou espanhol como segunda opção, acha que sabe português porque passa as férias no Algarve e vem traduzir português brasileiro. As interpretações dessa turma são muito divertidas.
Por fim, e para não me estender demais sobre um assunto do qual já tratei mil vezes, sempre existe o risco de contaminação. Quer dizer, se o cara não for bom, mesmo, se não for firme na sua língua materna, vai acabar deixando o português contaminar seu inglês e vai escrever tupiniquinglish como nós.
Quer dizer, ter nascido lá é uma indicação, mas não uma certeza.
Meu computador primário está em manutenção e estou escrevendo do reserva. Às vezes fica complicado, mas eu não desisto fácil.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Comentário de uma pré-principiante
Escreveu a Tamara, num comentário a este artigo:
Eu tenho 17 anos e estou cursando o 3° ano do ensino médio. Sou uma pessoa que sempre tive um fascínio por línguas estrangeiras. Sei que em tradução existem os bons profissionais e os ruins também. Gostaria muito de ser tradutora principalmente de filmes e canais de TV á cabo. Será que existe um bom mercado para esse ramo em um outro país além do Brasil? O senhor acha que é preciso encarar esse tipo de profissão como um segundo emprego e estar trabalhando como professor de línguas por exemplo, para conseguir um bom retorno financeiro?
Tamara, você está começando cedo, não? Ainda no 3º ano do curso médio e já se preocupado com coisas como mercado! Parabéns! Vamos ver se consigo dar uma resposta adequada à sua mensagem.
Eu vivo exclusivamente da tradução desde 1970. Mesmo meus cursos, que me trazem algum retorno financeiro, são sempre voltados para a tradução. Não gosto da idéia de ser professor de línguas e tradutor ao mesmo tempo. Primeiro, porque são atividades diferentes, que exigem habilidades e formações também diferentes e nem sempre o bom professor é bom tradutor e vice-versa. Segundo que, devido aos compromissos fixos do professor (aula a tais e tais horas em tal e tal lugar) e a correria constante da tradução, conciliar as duas profissões é cada vez mais difícil. Terceiro, que o tradutor atualmente é obrigado a dominar um arsenal informático de bom porte, o que exige um bom esforço e só compensa se você se dedicar exclusivamente à tradução.
O mercado de filmes e TV está crescendo, mas é o mercado da moda e onze entre cada dez candidatos a tradutor quer participar dele, o que o torna um mercado difícil e complicado. Há muita coisa boa a fazer como tradutor fora desse mercado, creia-me, e, mesmo que você não consiga um lugar nele, vai encontrar muito com que se divertir.
Finalmente, a tradução hoje é a mais globalizada das profissões, profissionalmente todos nós moramos na Internet e não faz a mais remota diferença se você tem sua residência aqui ou na Conchinchina. Conheço gente que mora no Canadá e traduz filmes para exibição no Brasil, por exemplo. Por outro lado, o mercado internacional espera que você traduza para sua língua materna, o que quer dizer que (presumindo-se que você seja brasileira) você pode estudar inglês, tornar-se uma excelente tradutora de inglês, ir morar na Eslobóvia e, de lá, atender clientes em qualquer lugar do mundo que desejem traduções para o português do Brasil.
terça-feira, 10 de junho de 2008
Uma boa notícia?
Não sei se você vai considerar uma boa notícia, mas os cursos Aulavox devem recomeçar logo e, provavelmente, teremos também uns cursos presenciais em São Paulo. Para mim, é muito bom, porque gosto muito desses cursos e sempre são uma fonte de renda.
Fique ligado para saber das novidades.
Revisão de tradução automática
Um colega conta que tem recebido propostas para revisar tradução automática.
Para evitar mal-entendidos, tradução automática é aquela feita com programas tipo Babelfish, que não tem nada, mas nada mesmo, que ver com tradução feita com auxílio de Wordfast, Trados, DéjàVu, etc.
Isso dito, podemos voltar ao assunto. Então, um colega conta que tem recebido propostas para revisão de tradução automática. Um grande progresso, porque não faz muito tempo o consenso era que tradução automática se mandava para a frente com casca e tudo.
Aqui, então, o problema é quanto cobrar. Há anos estão dizendo que está para sair um programa de tradução automatizada que vai acabar com a raça dos tradutores, mas ainda estamos esperando. Entretanto, estão cada vez melhores. E nem todos são tão toscos quanto o Babelfish e o Powertranslator. Com isto e mais aquilo, uma coisa e outra, tem mais de uma agência testando esses recursos, para tentar reduzir custos, já que não têm mais como segurar a paga dos tradutores, que já anda baixa o suficiente.
Acho essa tentativa legítima. Todos, incluindo nós e nossos clientes, têm o direito de procurar reduzir custos. Eu estou agora procurando mexer numas coisas aqui no escritório para reduzir meus custos e aumentar meu lucro também. Por que os meus clientes não podem fazer o mesmo?
O fato é, por outro lado, que revisar textos traduzidos automaticamente demora mais e, portanto, deve custar mais. Se, no fim das contas, juntar tradução automatizada com revisão humana sair mais barato para a agência, sorte deles.
Mas eu não vou reduzir meus rendimentos para fazer gracinha para agência. Se aparecer pela minha frente um serviço desses, vou fazer uns testes e, em seguida, cotar um preço condizente com o tempo que vai me tomar. Esse preço vai variar desde aproximadamente o que eu já cobro por revisão de tradução humana até meu preço para fazer a tradução total do texto de novo. Posso errar da primeira vez, mas, com o tempo, vou aprender.
Aliás, mesmo quando se trata de tradução humana, vale a pena dar uma boa olhada antes de cotar um preço, porque tem uma turma por aí que é pior que o Babelfish. Mas isso já é outra história.
Obrigado pela visita e volte sempre. Agora, vou procurar atualizar este blog todos os dias com algo de interessante. Antes de ir embora, por favor, clique aqui e deixe seu comentário.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
O que você gostaria de ver neste blog?
Mais tarde, posto mais alguma coisa.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Agradecimento pelas mensagens
Mais de 300 colegas me escreveram após a morte da Vera. Muitos com mensagens públicas, outros
Nenhuma dessas mensagens me trouxe a Vera de volta, mas cada uma delas trouxe um pouco de alento e, somadas, foram uma grande ajuda. Emocionante ver a caixa postal inundada por mensagens afetuosas. Mesmo com elas, é um momento difícil; sem elas, a dificuldade seria ainda maior.
Boa parte das mensagens contava a experiência de cada um com suas perdas dolorosas. Falava do vácuo que fica quando alguém importante se vai para sempre. Da sensação esquisita que é passar em algum lugar, ver algo e dizer-se preciso contar isso ao fulano, ele vai achar divertido e, em seguida, dar-se conta de que fulano não existe mais.
Tive essa sensação no domingo. Para desemperrar os ossos, enferrujados pelos últimos seis meses de prisão domiciliar, ambulatorial e hospitalar, aproveitei a tarde de domingo para fazer um programa que a Vera e eu adorávamos fazer aos sábados: caminhar pela Avenida Paulista até a Livraria Cultura, ficar um tempo lá, e regressar pelo mesmo caminho.
Cheguei à Livraria Cultura e notei que a antiga loja geral tinha voltado à vida, agora como a loja de música e arte. Sorri e disse para mim próprio: a Vera vai gostar dessa nova expansão da Cultura. Mas logo me dei conta de quando voltasse para casa, encontraria só o silêncio, não mais a Vera.
Muita gente me perguntou como estou me arranjando, onde faço minhas refeições, quem cuida da minha roupa e coisas do mesmo jaez. Do ponto de vista material, arranjo-me muito bem, obrigado, com ou sem Vera. Faz pouca diferença.
A diferença, a grande diferença, é a falta do braço na minha cintura, do ombro para eu pousar a mão direita, do beijo roubado quando o carro parava num sinal vermelho (para espanto hilário dos que acham cômico e absurdo sexagenários se beijando em público), das pequenas brincadeiras particulares, das alusões que só nós entendíamos, das trocas de olhares cúmplices, dos jogos de palavras que só para nós tinham significado. Da garrafa de vinho lentamente compartilhada. Do dormir de conchinha.
Por outro lado, sou um felizardo: quantos terão tido 40 anos de vida rica em amor como eu? Reclamar do quê, se muitos nunca tiveram um momento sequer dessa felicidade?
A revista Época tem uma seção de entrevistas que sempre termina com a mesma pergunta: Se o céu existir, o que você gostaria de ouvir de Deus ao chegar lá? O que eu gostaria de ouvir é a Vera está esperando por você.
Não tenho como responder a todas as mensagens individualmente, agradeço a todas, de público, aqui. Peço agora, um favor: se você soube do falecimento da Vera e repassou a notícia a alguém conhecido, por favor, avise também sobre este artigo do blog. Gostaria que todos soubessem da minha gratidão aos que me ofereceram conforto.
Durante o fim de semana, este blog volta à vida como publicação profissional.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Falecimento
Atendendo ao desejo dela, as cerimônias funerais serão restritas aos familiares.
Na semana que vem, volto a escrever no blog e às minhas atividades habituais.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Você traduziria este texto?
Pulei uns dias, não é? Chato. Mas de vez em quando acontece. Hoje, para variar, gostaria de falar um instante sobre ética. Ética é – ou deveria ser – a base de toda a atividade humana. Vou começar com uma história real, mas, veja bem, não conheço todos os detalhes. Nem é importante. O importante é analisarmos a situação.
Ofereceram a um colega nosso um livro sobre religião para traduzir. Somos todos tradutores, certo? E tradutores traduzem, certo? Certo! Mas acontece que o colega é ateu. Então, como é que fica? Ateu pode traduzir livro sobre religião? Não era um livro contra a religião. Se fosse, estaria de colher. Mas não era.
Imagine que fosse um livro de proselitismo, um livro de propaganda religiosa e você fosse ateu. Você traduziria? Ou se você fosse religioso e o livro fosse de proselitismo ou propaganda de uma religião diferente da sua. Lá sei eu, se você fosse judeu, ficaria à vontade para traduzir um panfleto das Testemunhas de Jeová?
Questões de ética são questões de foro íntimo e não posso dizer a você o que fazer. Mas posso dizer como eu agiria. Mas antes do antes, tenho de dizer que sou agnóstico, o que não é o mesmo que ser ateu, embora muita gente tenha dificuldade para perceber a diferença.
A primeira pergunta, para mim, é para quem o texto vai ser traduzido. Por exemplo, de modo algum eu traduziria qualquer coisa que fosse para uma organização que advogasse o ódio ou a perseguição de natureza religiosa. Como a maioria dos agnósticos, sou a favor da liberdade religiosa e não quero o dinheiro de quem promove perseguições ou intolerâncias.
Mas, por exemplo, traduziria de bom grado uma verrina contra uma determinada religião para uso em um trabalho acadêmico sério sobre perseguição religiosa ou, para dar um exemplo mais forte, para que fosse juntada aos autos de um processo judicial. Acho que a análise do cliente é mais importante do que a análise do conteúdo do texto.
Mas vou terminar este artigo amanhã. Por hoje chega.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Qualidade de tradução juramentada
Escreve um leitor irritado com a qualidade de uma tradução juramentada que leu. Não vi a tradução e, mesmo que tivesse visto, não ajudaria nada, porque é para uma língua que não conheço direito. Mas, sim, há traduções juramentadas de baixa qualidade. O missivista acha que o TPIC signatário da tradução foi nomeado por ter amigos influentes. Pode ser e pode não ser. Vamos ver se consigo colocar as coisas nos seus devidos lugares.
O TPIC não é um supertradutor e não jura que a tradução é perfeita. Jura, unicamente, que é o melhor que consegue fazer e que é a expressão do que diz o original. Então se o documento diz que o Brederodes Brunzundungas era auxiliar de aprendiz de laçador de cachorro da carrocinha de alguma obscura cidade no Alasca, a tradução não pode dizer que ele era coordenador do curso de direito
Além disso, são especialistas na tradução de certos tipos de documento. Esperar que um deles faça boas traduções de comerciais de TV é querer demais – embora sempre haja as exceções. Cada macaco no seu galho, de modo geral, embora haja os polivalentes, ou talvez devesse dizer poligalhentes.
Lamentavelmente, entretanto, há traduções juramentadas de qualidade muito má, sim. Por quê? Mil razões. Em alguns estados, há uma série de tradutores ad hoc e nomeados a título precário que nunca foram concursados e mesmo os concursos, que não se realizam há muitos e muitos anos, podem não ter sido dos mais estritos. Deus sabe o que sabia o primeiro colocado entre os que se candidataram a TPIC de alemão no Estado de Baixo Solaranjas do Oeste em 1965. Alguns desses profissionais podem ser de alta categoria, mas nem todos serão e os critérios para nomeação são algo obscuros.
Mesmo em SP, as coisas deixam a desejar. O último concurso foi honesto e disso parece que ninguém duvida. Parece que o penúltimo também foi. Não há acusações de suborno ou favorecimento conhecidas e comprovadas, embora haja quem diga que muita gente boa foi reprovada. Mesmo assim, conheço um par de pessoas aprovadas a quem eu jamais confiaria uma tradução. Como terão passado? Por quê? Sabe Deus. Mas tenho certeza de que não foi à custa de suborno nem de amizades.
Alguns dos TPICs também repassam serviços a terceiros, jurando que revisam tudo direitinho, palavra por palavra, algo que pode estar mais nas intenções do que nas ações de cada um. Essa prática é combatida por muitos, porém bastante comum. E é bem possível que quem recebe esses serviços ainda os repasse a outros. Nunca se sabe, realmente, quem fez uma tradução.
Mas é bom não generalizar: há uma elite de TPICs que presta serviços de alta qualidade. Pena que não seja fácil, para o usuário, saber quem é o melhor profissional para a língua que lhe interessa.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Línguas de menor demanda
Descobri o blog ha' pouco tempo, e desde então tenho feito constantes visitas.
Gostaria que você escrevesse um pouco sobre o mercado para os tradutores de língua não inglesa, como o francês, espanhol etc.
Abraços
Fernando
Fernando, ninguém tem dados precisos, mas, assim, de orelhada, acho que mais de 50% do mercado é de e para inglês. No segundo pelotão vem o espanhol, que tem crescido muito, depois o francês, italiano e alemão e depois as outras línguas. Há serviço, mas é pouco, salvo para o espanhol. A falta de serviço é parcialmente compensada pela falta de tradutores e há gente ganhando bom dinheiro com francês, por exemplo.
Dois problemas, entretanto: Primeiro, que fora do inglês, a possibilidade de especialização é pequena: se você faz italiano, um dia é de matemática, no seguinte e mecânica e no terceiro é metafísica. O investimento de tempo em pesquisa é enorme. Segundo que o mercado de traduções é muito pouco transparente: achar o serviço é sempre complicado e mais complicado ainda para as línguas de menor demanda. Por isso, encontrar os clientes para italiano, por exemplo, exige muita virtù e fortuna. Existem, mas são difíceis de encontrar.
Para as línguas de expressão ainda menor, a coisa complica e é importante ser realista. Há tempos, havia uma jovem que dizia pretender dedicar-se à tradução da poesia polonesa, pela qual era apaixonada. Nada contra, mas disso é difícil viver.
Obrigado pela visita e volte sempre.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Vale a pena trabalhar direito a 3 centavos por palavra?
Uma tradutora conhecida minha disse que quando pegava serviço mal pago, picaretava. Como justificativa, afirmava que não valia a pena trabalhar direito a 3 centavos por palavra.
Complicado, isso. Faz lembrar da história daquele cozinheiro de restaurante que, por ser mal pago, cuspia na comida. O dono continuava pagando pouco, o cozinheiro continuava recebendo pouco: quer dizer, não adiantava nada. Mas o infeliz que comia no restaurante, coitado, que não tinha nada que ver com o peixe, comia comida com cuspe. E quem come a nossa comida não é nem a agência nem o cliente da agência, mas sim o leitor. Quer dizer, pagam os inocentes pelos pecadores.
Entendo a posição dela – e que dá vontade de dar uma bela duma picaretada na tradução, lá isso dá. Mas, independentemente do problema ético, vem lá um problema estratégico.
Minha estratégia é diferente: faço uma força enorme para conseguir mais um tostão por palavra mas e, muitas vezes, recuso o serviço porque acho o preço baixo demais. Porém, quando aceito, faço sempre o melhor que posso.
A maioria (quer dizer, muitas mas não todas) as agências não está muito disposta a pagar um tostão a mais por qualidade, mas, mantido o preço, procuram primeiro quem possa fazer no prazo e, em seguida, quem tenha a melhor qualidade. No quesito prazo, a gente nunca sabe. Hoje você pode atender, amanhã talvez não possa. Então nem é bom pensar.
Se puder, certamente, a agência vai preferir o melhor tradutor disponível –mantido o preço. Quer dizer, num primeiro momento, trabalhar bem granjeia mais serviço. E, claro, mas convites para próximos serviços. E assim, aos poucos, você enche o seu tempo todo. E aí chega a hora de recusar serviço com preços menores, ou dos que demoram para pagar, ou dos que são chatos demais da conta. E, claro, quando surgir algum serviço que exija mais responsabilidade e pague mais, vão procurar quem?
Nunca esqueça que, quem avalia uma tradução jamais leva em conta o quanto foi pago. O cliente não diz, essa infeliz recebeu três centavos por palavra, o que você esperava? Diz quem foi a irresponsável que fez esse serviço porco? Nós pagamos isso?
Para finalizar, eu acho que cuspir na comida é coisa de porco, mesmo. Tem dó! Coisa nojenta!
terça-feira, 6 de maio de 2008
Tradução técnica, científica, pragmática....
Sou estudante de tradução francês, curso o segundo semestre. Estou perdida com os termos tradução técnica, especializada, pragmática, científica... não consigo defini-los nem diferenciá-los claramente. Agradeço se poder me ajudar.
Abraço, Sara!
Antigamente, falava-se em tradução literária e técnica. O que não era uma, era outra e estava acabado. Mas é uma posição simplista demais, porque tradução técnica, no ver de muitos, se refere exclusivamente a assuntos, digamos, industriais, coisas de engenharia, mas não incluiria finanças, direito ou mesmo ciências puras.
Então, foi proposta a oposição entre tradução literária (textos com valor estético, mas sem utilidade prática) e tradução pragmática (textos com utilidade prática mas sem valor estético). Mas esta classificação também é frágil, porque deixa no limbo coisas importantes, tais como a tradução de textos religiosos, área dificílima e objeto de estudos muito avançados, bem como diversos tipos de tradução na área de humanidades, onde a mistura entre considerações estéticas e pragmáticas é grande. Sem falar na área de publicidade, desdenhada pelos teóricos, porque envolve "comércio", mas que tem uma problemática extraordinariamente interessante, para quem não tem o cérebro tolhido e atrofiado por ideologias.
Então, começa-se a falar em tradução especializada. Ou seja, eu faço especializada, porque só lido com algumas áreas específicas, como finanças e tributação. Outros colegas fazem engenharia, medicina, ciências puras e assim por diante. Outros, ainda, fazem psicologia e por aí
Na verdade, a maioria dessas classificações foi criada por teóricos que se interessam basicamente pela tradução do que consideram grandes obras literárias (o que exclui Bianca, Sabrina & Júlia, e ficção de massa, como Harry Potter) e têm um desprezo mal escondido pelo que faz a maioria dos tradutores, que é exatamente a tradução de textos que não se classificam como grandes obras literárias. Essas classificações desprezam o fato de que toda tradução envolve considerações estéticas e estilísticas, mesmo a tradução da mais seca lista de peças. Basicamente, lá no fundo, no fundo, querem dizer "tradução da grande literatura e o resto". "Resto" é o que faz a maioria de nós.
Na verdade, em vez de compartimentos estanques, há uma gama, onde, em um extremo, há certos tipos de poesia lírica e no outro as listas de peças, mas as transições entre um tipo de outro jamais são claras e precisas. Quanto mais se conhece sobre tradução, menos confiança se deposita nesses rótulos.
Finalmente, temos a tradução científica. Num momento em que se falava em literária (alto status) versus técnica (baixo status), a turma que fazia ciências puras preferiu se autodenominar tradutor científico, para ganhar um pouco mais de cacife, destacando-se da turma "meramente" técnica. O mesmo aconteceu com o pessoal que fazia jurídica, médica e assim por diante, num desejo claro de se divorciar da pecha de meramente lidar com porcas e parafusos. Quer dizer, química teórica é tradução científica, não técnica. Certo. Mas um texto de química industrial, o que é?
Se você adotar o termo tradução pragmática ou tradução especializada, qualquer um dos conceitos abarca tradução técnica, científica, jurídica, financeira, médica e que mais seja.
Aliás, Sara, se você faz francês (Onde? A gente gosta de saber dessas coisas. Poste um comentário informando, por favor.) essas coisas têm muito menos interesse que para a turma do inglês. O mercado francês é menor e menos diferenciado que o do inglês e, se você pretende se profissionalizar, quer dizer, ganhar a vida exclusivamente traduzindo francês, provavelmente vai ter que fazer um pouco de tudo.