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quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Respondeat superior

Um latinzinho faz sempre bem. Esse, aí em cima literalmente quer dizer “responda o superior” e, daquele jeito superconciso peculiar aos romanos, significa o chefe é responsável pelos erros dos subordinados. Esse é um ponto que eu já lembrei muitas vezes: não há maus tradutores, há gente incompetente que confia serviços de tradução a quem não está preparado para a função.

Por que o escolhido não recusa o trabalho? Muitas vezes por não poder, ou por lhe faltar coragem. Pode ser um funcionário da empresa, sem coragem de negar algo ao chefe, pode ser um aluno da faculdade momentaneamente ofuscado pelo "precisamos da colaboração para o sucesso do evento”. Pode ser um coitado vaidoso sem autocrítica, que ache que seus dois milréis de conhecimento de uma língua estrangeira lhe permitem se arvorar em tradutor ou intérprete. Sei lá, pode ser mil coisas. Pode, inclusive, estar desesperado atrás de dinheiro. Não faz diferença: cabe a quem escolhe escolher direito o tradutor/intérprete, como lhe cabe também escolher direito a sala onde se realiza o encontro, o serviço de som, de bufê e o que mais seja. No caso de texto escrito, cabe escolher bem o diagramador, impressor, encadernador, capista, ilustrador, enfim, toda essa turma de profissionais que conjugam seus esforços para o sucesso de um empreendimento de publicação ou de comunicação com o público.

Acontece que, na hora de pagar o tradutor/intérprete, acaba o dinheiro. Tem dinheiro para tudo, menos para o tradutor/intérprete. Então, procura-se alguém que faça o serviço grátis ou, ao menos, a preço vil ou meramente simbólico. Outro dia, aconteceu de novo: trouxeram um filósofo de origem tunisiana, um tal Pierry Lévy, de quem eu jamais tinha ouvido falar, mas deve ser alguém de substância, ao que dizem. Puseram o tal do seu Pierre num evento público, com tudo preparado a esmero, mas o intérprete era amador e arruinou o evento. Parece o intérprete era pessoa honesta, mas, foi prejudicado pela inexperiência e por uma outra agravante: era um interessado pelo assunto e ficou dividido entre dever de exercer a função de intérprete e o desejo de ser um participante ativo da platéia. O próprio intérprete malgré lui reconheceu sua falha, o que é grande prova de maturidade e se desculpou de público. Mas aí é que está o erro: quem deveria ter se desculpado era quem o escolheu.

Se você sabe quem foi o intérprete, por favor, diga a ele que eu mandei um abraço.

O relato está aqui.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Circularidade em dicionários

Os filósofos da escola cética afirmavam que o conhecimento é um círculo vicioso: para provar qualquer afirmação, é necessário fazer outras afirmações, as quais, por sua vez, carecem de prova, que se faz com outras afirmações e, no devido tempo, voltamos ao ponto de partida. A isso, chamamos dialelo em português, de diallelon em grego.

Esse fenômeno não afeta os dicionários bilíngües, mas é particularmente notável no caso dos monolíngües. Escolha qualquer palavra e o dicionário vai dar uma definição na qual, muitas vezes, vai usar um termo semanticamente homólogo ao termo definido. Por exemplo, o Aurélio, diz que, entre outras coisas,

tradutor: Que ou aquele que traduz.
tradução: Ato ou efeito de traduzir.
traduzir: Transpor, trasladar de uma língua para outra.

Poderia ter definido traduzir como fazer uma tradução, o que não seria errado, mas ia criar um circulo vicioso, do qual se livrou com o uso de transpor e transladar. Se formos procurar transpor e transladar, vamos chegar a outros grupos de verbetes e assim por diante. Há um limite para isso: vamos inevitavelmente nos aproximando de um número reduzido de palavras e, lá pelas tantas, forma-se um círculo vicioso em que cada pouco voltamos a um verbete já consultado. Embora um dicionário grande sempre ofereça várias definições para várias acepções e, de certo modo, disfarçar o problema, uma olhada na definição de existir e existência do Aurélio ou do Houaiss exemplifica a dificuldade.

Alguns dicionários monolíngües muito pequenos, para aprendizes iniciantes, simplesmente não definem esses termos: espera-se que o usuário já os conheça e dispense definições. Essa é a única solução, aliás, a mesma usada por Euclides na sua geometria: há um pequeno grupo afirmações basilares que não são demonstradas.

Uma solução, entretanto, considerada inaceitável para dicionários de grande porte: quem abre um dicionário grande, espera encontrar definições para coisa, existência, ser e outros termos semelhantes, membros de um grupo difícil de tratar sem cair em círculo vicioso. Em outras palavras, um tanto de circularidade é inevitável nos dicionários mais completos. Entretanto essa circularidade é somente admissível no núcleo definitório do dicionário. Fora daí, cabe ao dicionarista fugir aos círculos viciosos, usando ou a técnica mostrada acima, ou alguma das outras que os lexicógrafos competentes conhecem.

Lamentavelmente, há muitos dicionários, até lá com sua fama, onde esses círculos viciosos ocorrem onde não seria de admitir. Por exemplo, aqui, há um interessante artigo, escrito por um português, que menciona um dicionário onde prostituta é definido como uma mulher que se entrega à prostituição, prostituição se define como o acto de prostituir-se, e prostituir-se fica definido como entregar-se à prostituição. Uma série absolutamente perfeita em sua inutilidade.

Parece que estou conseguindo voltar ao ritmo de postar todos os dias. A ver se consigo manter a andadura. Já que está aqui, dê uma olhada aqui para ver os cursos a distância para tradutores via Aulavox.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Por que implico com o Dicionário Noronha?

Dizem que eu implico com o Noronha e quem sou eu para implicar com um dicionário desses escrito por um advogado famoso e tudo e eu sou um semiletrado que nem concluiu o curso médio nem nada porque foi expulso da escola porque era burro demais.

Então, abri o tal dicionário aleatoriamente e caí na página 144. Podia ser qualquer outra. Não faz muita diferença. Minha edição é a 3ª, de 1998 e a página 144 vai de hidden inflation até holiday. A página coisa de 60 verbetes, provavelmente a média do dicionário.

Não vou fazer comentários sobre a estrutura nem sobre as falhas de técnica lexicográfica. Mas vou apontar umas traduções com que, desculpem, não consigo concordar. Os verbetes sem nada a comentar não vão ser citados.

hidden inflation – inflação ocultada
• Deveria ser inflação oculta.

hidden tax – impostos ocultos
• Por que o plural?

high – alto, termo de endereçamento de dignidade
• Algém sabe o que possa ser termo de enderençamento de dignidade?

highest bidder – maior oferta
Bidder é o licitante, não a oferta. Deveria ser licitante que fizer a melhor oferta. Maior oferta é highest bid.

highway robbery – assalto, furto
• O highway significa que o ilícito se deu especificamente em estrada, informação que some na tradução.

historic site – bens pertencentes ao patrimônio público
• Sítio histórico, local de valor histórico. Nem todos os bens pertencentes ao patrimônio público são historic sites.

hobby losses – imposto sobre lucro que incide em atividade que não geral lucros
• O que é um imposto sobre lucro que incide em atividade que não gera lucro? Se a atividade não gera lucro, como pode estar sujeita a um imposto sobre lucro? Losses são perdas, não impostos. Neste caso, são perdas com atividades que não são exercidas profissionalmente.

hold responsible – ser responsável por
• Para mim, é responsabilizar por, o que é bem diferente de ser responsável

Oito cincadas dessas em menos de 60 verbetes, dá coisa de 13% de falhas. Quem conhecer direito melhor que eu talvez ache outras. Depois, dizem que eu sou implicante.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

How much do you snake?

Hoje de manhã, perguntei ao Babelfish como se diz quanto você cobra e ele, mais que depressa, me respondeu how much do you snake. Não acredita? Tente você mesmo. Se não mudaram, está ainda desse jeito. Se você não sabe inglês, snake é cobra, nas não do verbo cobrar: é o substantivo cobra, que significa o animal, ou, também, o presente do verbo snake, que significa colubrejar, serpentear.

Aqui, há três pontos a ponderar: primeiro, que há programas melhores que o Babelfish; segundo, que esses programas estão melhorando a cada dia que passa; terceiro, que este mundo está cheio de maus tradutores, alguns deles piores do que um tradutor eletrônico de boa qualidade. Por outro lado, um bom tradutor garante uma qualidade que o melhor dos tradutores eletrônicos está longe de alcançar e talvez nunca alcance. Essa é a realidadede hoje, com a qual temos de conviver. Amanhã, as coisas podem ser diferentes, claro.

Desde que me conheço por gente – e faz tempo – ouço falar em um magnífico programa de tradução automática que faz maravilhas e tal e que está aí em testes finais, para ser lançado no mercado o ano que vem e acabar com a raça dos tradutores de uma vez por todas. Conheço até gente que viu o programa, usou, achou uma maravilha. Mas ainda não consegui falar com ninguém que estivesse usando. Limitação minha, certamente. Pode ser, mas pelo que nos apresenta a Microsoft, talvez ainda demore uns dias, sei lá.

Esses programas estão roubando o nosso serviço? Um pouco sempre hão de tirar, por certo. Mas não acredito que venham a ser concorrência séria para os bons profissionais, a turma que cobra mais caro porque tem um bom produto a oferecer.

Pretendo escrever mais um pouco sobre este assunto, se os turbilhões da vida o permitirem.

domingo, 19 de agosto de 2007

LIBRAS

Ontem, na Reunião na Sala 7, tivemos na nossa sala virtual um grupo que trabalha com LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, usada para comunicação entre e com surdos.

O termo tradução é muito impreciso: aplica-se tanto especificamente à tradução de texto para texto, que é o que faço eu, como, em sentido mais genérico, a uma ampla gama de outras atividades que não envolvem texto. Algumas, podem ser chamadas tradução intermodal, como é o caso da legendagem, que é a tradução linguagem falada para a escrita, ou a interpretação de e para LIBRAS, que é a tradução da linguagem falada para a gestual e vice-versa.

Um desses mil teóricos da tradução de cujo nome jamais consigo me lembrar, propôs, em francês, o uso de translation (que seria translação em português) para o termo mais genérico, reseservando traduction (tradução) para a tradução de texto a texto. Nesse caso, o trabalho dos intérpretes de LIBRAS, assim como o dos que fazem interpretaçao simultânea, ou para dublagem, legendagem e que mais seja, visto em conjunto com o trabalho de texto-para-texto, seria um caso de translação e seríamos todos translatores (singlular translátor, com o a pronunciado normalmente em português, como Deus manda) e poderíamos restringir tradução/tradutor para o texto-para-texto. Não pegou, mas eu lamento: seria muito prático.

A interação e integração com os colegas que trabalham com LIBRAS tem importância crucial. A troca de experiências vai ser útil para ambas as partes, assim como útil tem sido a troca entre o pessoal que faz legendagem e o pessoal que faz texto-para-texto, por exemplo.

Espero que a Angela e seus alunos apareçam mais uma vez. Há muita coisa que discutir com esse pessoal. Se você trabalha com LIBRAS ou com qualquer outro tipo de atividade de natureza tradutória que escape do que a gente tem discutido aqui, saiba que é bem-vindo na Sala 7, que é sempre grátis, por definição. Além disso, durante as reuniões, que são virtuais, jamais constragemos os participantes a fazer um dos cursos pagos. A reunião na Sala 7 é um espaço para confraternização e troca de idéias, numa gentileza do Aulavox, que nos cede o equipamento e sistema grátis..

Aproveite e clique aqui para saber dos eventos a distância, grátis e pagos.


terça-feira, 14 de agosto de 2007

De dicionários e plágios

Este artigo foi postado ontem de noite com um erro meu, que foi notado mas não pode ser corrigido imediatamente. Passou a noite substituído por uma nota seca dizendo que tinha sido retirado temporariamente, mas agora está aqui, corrigido. Pretendo voltar ao assunto posteriormente.

Quando saiu, em 2004, minha casa estava o caos, o escritório nas garras de pedreiros e pintores, eu trabalhando num canto da nossa microssala de visitas – e achei que comprar mais um livro seria loucura no momento. Mas fiquei chateado, frustrado mesmo, porque o dicionário foi anunciado como o resultado de longos lavores de especialistas, com direito a elogios na imprensa e tudo.

Passada a tempestade da reforma comprei outras coisas, mas aquele tal do "Dicionário Jurídico e de Finanças", de autoria de Maurício Faragone e de Ricardo Pignatari, jamais comprei. Não que me faltem dicionários, porque tradutor velho tem carradas deles, mas, se era como diza a editora,

Um dicionário criado por profissionais da área de tradução em conjunto com profissionais da área jurídica;

- Aproximadamente 40 mil verbetes e 160 mil definições;

- Mais de 1.000 siglas de órgãos dos governos Brasileiro e Americano em Português/Inglês e Inglês/Português;

não seria de pouca ajuda para mim. O livro foi muito elogiado, inclusive por gente que sabe das coisas.

Só faltou dizerem que era a salvação da lavoura. De qualquer modo, tenho o Maria Chaves de Mello, gentileza da autora, e o Noronha, que comprei com meu dinheiro, e fui resolvendo meus problemas com eles.

A verdade é, entretanto, que jamais concordei com muita coisa que o Noronha diz. Mas eram meras opiniões impressionistas e subjetivas: nunca tinha me debruçado sobre o livro, para fazer uma análise detida e aprofundada. Quem fez foi Luciana Carvalho Fonseca Corrêa Pinto, (ou Luciana Carvalho, como é mais conhecida), que resumiu suas conclusões no congresso da ABRATES em 2005, numa apresentação feita com o ímpeto natural da alguém jovem como ela e uma firmeza intelectual que muita gente não atinge nem em idade madura. Mais dia, menos dia, a Luciana publica algo mais carnudo sobre seu trabalho, o que vai ser bom para todos nós. De qualquer maneira, sua análise foi útil e confirmou o que eu já pensava.

Como eu dizia, não gosto muito do Noronha. Entretanto, se eu não gosto muito do Noronha, o Noronha gosta ainda menos do Faragone e do Pignatari, tanto que ingressou em juízo contra eles. Não por achar o dicionário deles ruim, mas por achar que era plágio do seu.

Alegar plágio é fácil. Provar plágio é mais complicado do que parece. Plágio de dicionário bilíngüe, então, é questão mais que complicada. Deixe dar um exemplo: pegue as definições de qualquer verbete em dois dicionários unilíngües e vai ver que diferem. Se o Aurélio dá como primeira acepção de mesa “Móvel, comumente de madeira, sobre o qual se come, escreve, trabalha, joga, etc.”, o Houaiss, para descrever exatamente o mesmo objeto, diz Rubrica: mobiliário. móvel composto de um tampo horizontal, de formatos diversos, repousando sobre um ou mais pés, e que ger. se destina a fins utilitários: refeições, jogos, escrita, costura, apoio etc. Quer dizer, não pode usar a mesma definição. Se usar, é plágio e encrenca na justiça. O caso dos bilíngües é mais complicado: não há como ter mesa sem a tradução por table. Então, fica assim: o autor da ação reclama que foi plágio, os réus dizem que não foi plágio coisa nenhuma e perguntam: se não puder traduzir “mesa” por “table”, vou traduzir como? Foi mais ou menos isso que alegaram os réus da ação.

É assim mesmo que funciona. Um diz que sim, outro diz que não e o juiz diz quem tem razão. Neste caso, o juiz da 24ª Vara Cível de SP, Wagner Roby Gídaro, encarregado de julgar a ação, decidiu que, antes de dizer quem tinha razão, deveria perguntar algumas coisas para quem sabia e nomeu uma perita. Lamentavelmente, não tive acesso ao laudo pericial. Entretanto, o juiz faz várias citações na sua sentença, que se encontra aqui e, pelo que se lê, o laudo deve ser verdadeiramente suculento.

O juiz fala em “a Senhora Perita”, sem citar o nome. Curioso por saber quem poderia ter dado cabo da reputação de dois dicionários com uma só cajadada, perguntei à Luciana Carvalho. Não que ela tenha obrigação de saber, mas como ela é interessada nesses assuntos, talvez soubesse. A verdade é que sabia. A “Senhora Perita” se chama Rena Singer e um dos seus assistentes foi Stella Tagnin, que evidentemente a Luciana conhecia por ser sua orientadora.

Adotaram uma estratégia de trabalho interessante: catalogaram as falhas encontradas nos dicionários e rotularam as coincidências de falhas como indícios de plágio. Quer dizer, quando ambos estão certos, poder-se-ia alegar que chegaram à conclusão correta independentemente. Mas quando há falhas, é difícil crer que sejam coincidências: só se pode crer que sejam casos de plágio. E as falhas coincidentes encontradas não foram poucas, algumas das quais a sentença menciona:

A Sra. Perita Judicial também verificou a existência de termos não técnicos e absolutamente dispensáveis que foram encontrados exclusivamente nas obras elaboradas por autores e requeridos, comparando com outras obras do gênero: abrasion, annoyance, commotion, (defeat, to), injustice e neophyte (fls. 1571/1572). Nesse ponto esclareceu a Sra. Perita Judicial: A apreciação do Quadro leva a supor que um exame seqüencial da obra dos réus em relação ao do autor Noronha teve em vista a presença de termos não jurídicos presentes exclusivamente nas duas obras (fls. 1571).

As últimas manifestações da Sra. Perita Judicial então trazem a conclusão irrefutável a este Juízo. Descreve inicialmente que deve ser privilegiada a informação a respeito dos dados qualitativos da comparação das obras, ainda que este Juízo tenha utilizado essa informação para abrir esta fase de fundamentação.

Segue, entretanto, relacionando as mesmas falhas de revisão e apresentação dos mesmos termos que “não cumprem seu papel de ordenar as denominações de seus sistemas de conceitos”.

Além disso, “a primeira parte das obras não é um espelho às avessas da segunda parte”, ou seja, os mesmos termos que serviram para a tradução do inglês para o português não foram utilizados para a tradução do português para o inglês. A Sra. Perita Judicial também alerta para a existência de “denotativos” e “lista de falsos cognatos” e “conotativos” “pouco usuais, incomuns ou impróprios em uma obra de referência especificamente jurídica e de finanças, e peculiares exclusivamente às duas obras” (fls. 1582), nesse ponto exemplificando: O termo beleguim consta da seguinte forma: - na obra de Noronha: bailiff’s official; police agente / esses termos não existem no vice-versa – na obra de Pignatari/Faragone: bailiff’s official / no vice-versa existem. A Perita não conhecia o significado do termo e recorreu ao Aurélio Século XXI, que apresenta as seguintes acepções: “agente de polícia; esbirro; galfarro; malsim, mastim, meirinho, quadrilheiro, tira”. A primeira acepção, agente de polícia, consta da seguinte forma: - na obra de Noronha: agentes de polícia – policiman; constable; - na obra de Pignatari/ Faragone: agentes de polícia – policeman; constable. (Negrito da Perita) Nas duas obras verificam-se os mesmos erros: plural em português e singular em inglês. Não consta em nenhuma obra de referência que na língua portuguesa a forma plural seja a usual e, na inglesa, o singular seja a norma. (fls. 1582). Com isso, a Sra. Perita Judicial foi analisando as falhas e constatando a coincidência delas nas duas obras e com exclusividade, eis que seu trabalho se pautou pela análise qualitativa e comparativa (fls. 1582/1586).

Perante um laudo desses, o juiz evidentemente decidiu que se trata de plágio e condenou os réus a recolherem do comércio sua publicação e a mais outras obrigações, além da sucumbência. Sucumbência significa que os réus além de tudo tiveram de fazer um pagamento de honorários aos advogados dos autores, ente outras coisas.

Quem clicar aqui, vai ver que a editora dá o livro por esgotado, o que é um eufemismo dos bons.

Quem sabe, agora, alguém, talvez o próprio Dr. Noronha, aproveita os conselhos da “Senhora Perita” para fazer um bom dicionário jurídico. Ou, melhor ainda, contrata os serviços de um lexicógrafo profissional para fazer as tarefas que lhe cabem.

Há males que vêm para bem, ou, ao menos, podem vir.

Por hoje, é só. Espero você no sábado de tarde, na Reunião na Sala 7, que é a distância e grátis.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

O tradutor e os impostos

Um colega escreve, irritado e confuso, como tantos, com o fato de que o cliente faz questão de uma documentação em boa forma para os pagamentos de honorários. Pode ser uma nota fiscal de pessoa jurídica, pode ser um RPA. Diz ele que faz uns “frila” de tradução e revisão e que o ganho é pouco e tal.

Não é o primeiro nem será o último que me escreve nessas circunstâncias.

Em traços largos, a história é a seguinte: clientes que são pessoas jurídicas precisam informar ao Leão para onde foi o dinheiro deles: tanto para isto, tanto para aquilo, tanto para aquele outro. Para tanto, precisam documentar a transação e o documento exigido pela lei tem de ser fornecido por um trabalhador autônomo (Nota Fiscal de Autônomo ou RPA, o que dá no mesmo) ou uma outra pessoa jurídica (Nota Fiscal de Pessoa Jurídica). Não é ranhetice do cliente. É a lei. Sem isso, encrespa.

Há umas soluções heterodoxas por aí, mas nada disso funciona direito. É possível pagar por fora, mas dá um problema danado: ou se faz pelo caixa dois, o que é ilegal, ou o valor pago tem de ser contabilizado como lucro da empresa cliente e, portanto, está sujeito à tributação. Também o tradutor pode comprar uma Nota Fiscal de alguém, mas isso é crime contra a ordem tributária. Mesmo que não fosse, tem mil conseqüências negativas. Tem mais umas tais de associações etc., mas é bom tomar cuidado com tudo isso. O Leão pode ser manso, mas não é bobo. E adora carneirinhos.

O jeito, se você quer mesmo se dedicar à profissão de traduzir, é regularizar a situação, ou se inscrevendo como autônomo, ou constituindo uma pessoa jurídica. Mais grave: cada vez menos clientes aceitam RPA porque a tributação sobre RPA é altíssima. Então, o que o cliente quer mesmo é Nota Fiscal de Pessoa Jurídica e ponto final.

Quanto custa isso? Caro, lamentavelmente caro. Tem que pagar imposto de renda sobre o que recebe. O IR sobre RPA é progressivo, quer dizer, a alíquota (porcentagem) aumenta com o valor do pagamento. Quanto maior o ganho no mês, maior a alíquota. Se for Nota Fiscal de Pessoa Jurídica, o imposto de renda cai, mas tem que pagar uma cacetada de outras coisas – e o contador, ainda por cima. De um modo ou de outro, tem ISS, que é municipal e, portanto, varia de uma cidade para outra, e INSS, que tem um valor máximo mensal. É uma confusão dos diabos e que, além de tudo, muda a toda hora. Varia barbaramente conforme seu faturamento mensal, principalmente se você for autônomo e estiver submetido à tal tabela progressiva.

Dá para trabalhar desse jeito? Claro que dá! Mas o teu preço tem que pagar essas coisas. Trabalhar a três centavos por palavra, não dá. Claro que, se você faturar pouco no mês, vai pagar pouco de imposto. Mas pouco faturamento menos pouco imposto dá quase nada no bolso e você chega a conclusão de que camelou o mês inteiro o que sobrou no bolso não paga a mensalidade da Internet: há uma diferença significativa entre o que você cobra do seu cliente e o que fica no seu bolso. É preciso pensar nisso, antes de contar um preço.

Se você está pensando em se dedicar à tradução ou revisão como profissional, vá a um contador e pergunte o que vai acontecer se, num determinado mês, você faturar, digamos R$ 5.000,00 pela tradução de um manual leve um mês para fazer. Tenho certeza de que, quando sair, você já aumentou o preço para R$ 7.000,00.

Espero você na Reunião na Sala 7. É grátis e isento de tributação. A distância. Veja detalhes aqui abaixo.



Reunião na Sala 7, link errado

Gente, foi mau. Desculpem, link errado para a Reunião na sala 7: em vez de dar o de agosto, dei o de setembro. Agradeço à Iara Regina Brazil, pela correção.

É este aqui, para sábado, agora, dia 18 de agosto. O que eu dei é para setembro. Já corrigi também a postagem anterior.

À Iara, sempre amiga, até debaixo d'água, um grande agradecimento.

O tradutor e seu status

Voltando ao assunto, é importante discernir entre o estatuto conferido pela lei, o estatuto que a sociedade nos confere e nossa situação econômica. Não se obtém respeito da sociedade por lei. A conquista do respeito é uma tarefa longa e árdua. Exige, principalmente, que se prove ao cliente e ao público, cuidadosa e educadamente, que nós fazemos o que eles não conseguem fazer e adotando uma postura plenamente profissional em qualquer situação.

Por exemplo, tratando os clientes com cortesia, mas também com firmeza profissional. Se o cliente liga e pergunta quanto você cobra para fazer uma tradução e a resposta é um cambaleante, bom, sabe, a gente aqui procura cobrar o justo, mas, sabe como é, teve aí um reajuste... em vez de um firme tanto por palavra do original, para os textos enviados em arquivo eletrônico formato Word. Outros formatos ou material em papel têm acréscimo ou coisa semelhante, já deu um passo atrás na conquista do respeito.

Além disso, é importante ter a coragem de dizer não. Um não educado, mas, mesmo assim, um não, firme, redondo, indiscutível. Não trabalho por esse preço. Não trabalho nessas condições.
É importante, também cumprir a palavra empenhada: se você promteu entregar o serviço na quarta-feira às doze horas, que o serviço esteja pronto na quarta-feira, às doze horas, chova ou faça sol.

E, para não ter que ouvir que a filha da amiga da cunhada do cliente podia fazer o serviço, procure aprender a fazer as coisas que os amadores não são capazes de fazer. Quero ver a filha da amiga da cunhada dar conta de um ttx ou de um ppt endiabrado.

Lembre, também que essa lei de direitos autorais só se aplica, a rigor, a tradução de livros, que é coisa muito importante, aparece no jornal e tal, mas representa muito pouco para nós, provavelmente menos de 5% de todo o volume de serviço.

Finalmente, JAMAIS TRABALHE DE GRAÇA PARA QUEM PODE PAGAR. Essa é a primeira regra do profissionalismo, a primeira característica que distingue o profissional do amador e a que nos conquista o respeito da sociedade. Na sua porta, talvez forme fila de gente querendo abatimentos e descontos e gratuidades, porque é para uma boa causa, para a escola, para o raio que os parta. Quem tem dinheiro para comprar roupa, para tomar chope, para a balada, tem que ter dinheiro para pagar tradutor. Num evento onde todos ganham, também o tradutor tem de ganhar.

Todos amam um voluntário, mas vuluntário é voluntário, profissional é profissional.

Uma vez, dizem, pediram a Cacilda Becker, ilustre artista de teatro, para fazer um espetáculo grátis. Ele respondeu não me peçam para fazer de graça a única coisa que tenho para vender.
Ah, não, ainda tem uma coisinha: não faço a menor questão de ser igualado ao autor. Não sou autor nem me considero igual ao autor, como também não faço a mais remota questão de ser considerado igual a advogados, pilotos de jato ou tocadores de marimba. Sou tradutor e isso me basta. Quer dizer, não vejo razão para me comparar a outros, sejam o autor ou seja lá quem for. A minha tarefa é a minha, a deles é a deles.

Reunião na sala 7 - evento grátis e a distância

Terminadas as férias, recomeçam as "Reuniões na Sala 7", palestras a distância sobre assuntos de interesse do tradutor profissional e do estudante de tradução. A próxima vai ser dia 21 de setembro às 19h30, com duração de duas horas. O tema é "Tradutor Profissional – 2007". Como é palestra a distância, você participa de sua própria casa, onde quer que esteja.

A participação exige inscrição prévia, pelo link abaixo, mas é absolutamente grátis e ninguém vai tentar vender a você coisa nenhuma. Nem temos intervalos para comerciais.

Para participar, você precisa ter um PC conectado à Internet, com Windows e Internet Explorer. Também precisa de caixas de som ou um fone de ouvido. Não precisa de microfone. O sistema tem um recurso de bate-papo eficiente, que permite a cada participante fazer perguntas ao palestrante e trocar idéias com os outros participantes.

No início da semana entrante, vamos marcar uma Reunião para um sábado de tarde.

Para se inscrever, clique aqui.

Se você puder divulgar o evento, fico muito grato.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Tabela de preços para traduções do SINTRA

Apareceu na minha página de recados no Orkut, assinado por Zanzibar, que eu não sei quem possa ser:

Tenho um texto, em inglês, de 6708 palavras e 40271 caracteres (com espaço). Se para traduzi-lo para o português um tradutor fosse me cobrar por palavras, o serviço sairia, pela tabela do Sintra, R$ 1475,76 (R$ 0,22 x 6708). Se o tradutor fosse me cobrar por lauda, vejamos: 40271 dividido por 2100 (tamanho da lauda) = 19,17 laudas x R$ 24 cada lauda = R$ 460,08. A diferença é de 1000 reais! Por favor, qual a lógica de se usar dois critérios?

Para responder, melhor reproduzir um pedacinho da Tabela do SINTRA:

Tradução / Versão

  • Tradução R$ 0,22 por palavra de um idioma estrangeiro para o português
  • Tradução literária R$ 24,00 por lauda com 30 linhas x até 70 caracteres com espaço por linha (igual a cerca de 2.100 caracteres por página, com espaços) de um idioma estrangeiro para o português (direitos autorais à parte)
  • Versão R$ 0,32 por palavra do português para um idioma estrangeiro
  • Versão de um idioma estrangeiro para outro R$ 0,35 por palavra de um idioma estrangeiro para outro

Vamos começar dizendo que quem fez a tabela não fui eu e a pergunta talvez devesse ser encaminhada ao próprio SINTRA. Mas, aparentemente, quem mandou o recado queria saber minha opinião. Então vamos ver se nos entendemos.

Se você fizer uma tradução, cobra R$ 0,22 por palavra. Isso significa R$ 0,22 por palavra do original ou da tradução? São coisas diferentes: mil palavras de original dificilmente vai dar mil palavras de tradução. Faz uma diferença e, então, precisa ficar claro do que estamos falando.

Tentei entender. À primeira vista, me pareceu que era do original, por causa do de um idioma estrangeiro para o português. Cobrar R$ 0,22 por palavra de um idioma estrangeiro me pareceu que era por palavra do original. Mas logo me dei conta de que não deve ser isso, porque a mesma frase aparece no segundo item e não me parece provável que alguém vá cobrar com base no número de laudas do original. Quer dizer, não vejo alguém pegando um texto em inglês e dizendo “aqui há X laudas”. Já vi empresas calculando preços e dizendo “este texto em inglês vai dar X laudas em português”.

O segundo item é interessante porque diz que tradução literária se cobra por lauda. Deve ser porque tradução literária se faz para editora e editora gosta de lauda. Tudo bem, cores e gostos não se discutem. Também, como apontado pelo Zanzibar, indica uma enorme diferença entre o preço da tradução inespecífica e da tradução literária. Por outro lado, diz que na tradução literária, há, ainda, os direitos autorais à parte, como está lá dito. Esse último pedacinho faltou combinar com as editoras, que juram, de pés juntos e apoiados em portentosos pareceres jurídicos, que o pagamento por lauda é o pagamento pelos direitos autorais e acabou a história. Isso é briga de cachorro grande e não vou me meter nela. Mas estou avisando e quem avisa, amigo é.

Mas o segundo item me fascina: primeiro que fala em tradução literária em oposição ao simples tradução do primeiro item. Será que para o SINTRA existe tradução e tradução literária? Ou será que eles simplesmente saíram pela tangente e não quiseram definir o que é a tradução que não for literária? Sei lá. Melhor perguntar a eles, não a mim.

O que é tradução literária? Shakespeare é, sem dúvida. Os famosos Bianca, Sabrina & Júlia serão? Conheço gente que diz que isso não é literatura. Lobsang Rampa e a turma toda da auto-ajuda, isso é literatura? Não é? Paulo Coelho, é ou não é? Bíblia é literatura? Corão? Os Diálogos de Platão? Coisa difícil, isso, de dizer o que raio é literatura e o que não é.

Mas a fascinação não termina aí, Zanzibar. O que acontece se eu traduzir um livro sobre, digamos, finanças – que é minha área – e que dificilmente alguém classificaria de literatura? No segundo item, certamente não cabe. No terceiro e quarto, muito menos. Então cai no primeiro. Quer dizer que, se eu traduzir um livro sobre finanças para uma editora, devo cobrar R$ 0,22 por palavra (do original ou da tradução, não sei), mas abrir mão dos direitos autorais à parte?

Veja, Zanzibar, você me faz uma pergunta e eu te devolvo uma dúzia delas. Mundo estranho, o nosso.

Agora, se você me perguntar como é que eu cobro, vou dizendo logo de cara: pelo número de palavras do original. Sei que são normalmente menos palavras que na tradução, mas minha tabela de preços já leva em conta esse fato. Antes que me esqueça, Zanzibar, ninguém é obrigado a acompanhar a tabela do SINTRA. Aliás, até é bom. Porque se eu fosse obrigado a cumprir, estava perdido: até hoje não consegui entender direito como funciona. E olha que há anos eles só trocam os valores.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Paga um e quer levar dois? – suplemento

caraca, mas converter um doc para pdf é a coisa mais simples do mundo, nao exige tudo isso nao, vc baixa de graça na net... afe

O que você leu acima é um comentário, deixado para o artigo Paga um e quer levar dois? A admiração de quem comentou demonstra que o artigo não foi bem escrito. Vou tentar de novo, a ver se consigo me fazer claro.

Converter um doc em pdf, de fato, é a coisa mais simples do mundo e eu converto para meus clientes sem esperar pagamento adicional. Aliás, minhas faturas para clientes estrangeiros vão todas em formato pdf: tenho um modelinho sem vergonha em MSWord, preencho com os dados corretos, converto em pdf e mando. Se você usar um OpenOffice, que é grátis, é só save as e acabou a história.

O problema é que, quando o cliente pede o pdf, está – sem o dizer – pedindo que o tradutor reproduza a formatação do original, tarefa que pode ser extremamente simples, e também exequível sem custo adicional, ou um verdadeiro pesadelo, para acomodar gráficos e figuras e texto nos lugares corretos e usar as fontes apropriadas, mais mil coisas que, na verdade, devem ser feitas usando um InDesign ou um QuarkXPpress, não o MSWord.

Manter a formatação do original quando se traduz um documento em MSWord é geralmente muito fácil, principalmente quando usamos programas de tradução assistida por computador. Se o cliente quiser o texto em pdf a conversão é simplicíssima. Mas receber um daqueles pdfs que reproduzem arquivos diagramados em QuarkXPpress por um profissional da editoração eletrônica e botar tudo em um outro pdf do jeitinho que estava é coisa para cachorro grande. Ou, ao menos, para um cachorro maiorzinho que eu.

O tradutor e seu status

Podem os tradutores exigir os mesmos direitos autorais do autor sobre a obra traduzida?

Essa é a pergunta que me manda uma estudante. Não sei se consigo responder, mas vou tentar.

O estatuto jurídico do tradutor é governado pela lei nº 5.988, que você encontra aqui http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/Leis/L5988.htm, da qual colho alguns excertos:

1. As adaptações, traduções e outras transformações de obras originárias, desde que, previamente autorizadas e não lhes causando dano, se apresentarem como criação intelectual nova.

2. Depende de autorização do autor de obra literária, artística ou científica, qualquer forma de sua utilização, assim como: [...] a tradução para qualquer idioma.

3. É titular de direitos de autor, quem adapta, traduz, arranja ou orquestra obra caída no domínio público; todavia não pode, quem assim age, opor-se a outra adaptação, arranjo, orquestração ou tradução, salvo se for cópia da sua.

Os três parágrafos acima não são meus, são da lei. Deles se depreende que:

(1) o tradução é obra intelectual nova, da qual o tradutor é autor. Quer dizer, a autora dos livros da série Harry Potter é J.K. Rowling, a autora da tradução da série para o português, que você encontra em todas as livrarias, é Lia Wyler.

(2) Como J.K. Rowling é a autora da série, a obra é dela, e Lia Wyler somente pôde traduzir porque foi autorizada pela autora. Na prática, a editora brasileira negociou os direitos de tradução, e, tendo obtido esses direitos, contratou a Lia para fazer a tradução. O contrato, que eu não vi, certamente faz menção a exclusividade. Nenhum editor vai adquirir direitos autorais sem a certeza de que não vão ser vendidos, igualmente, a um concorrente: qualquer edição que você encontrar por aí e não for da Rocco, é ilegal.

(3) Se, em vez de traduzir uma obra que ainda tem sua propriedade intelectual protegida, como é o caso da série Harry Potter, a decisão fosse traduzir algo que já tivesse caído no domínio público, não seria necessária autorização de ninguém. Por outro lado, se alguém cismar de retraduzir Shakespeare, que está no domínio público, e descobrir que tem alguém mais traduzindo exatamente a mesma obra, não tem do que reclamar.

A lei não diz que a Lia deva ganhar tanto quanto a Rowling, não que a Lia fosse reclamar, claro. Nem diz quanto a Lia deve ganhar. Nem diz que deve ganhar alguma coisa. Diz que ela é autora da tradução. Isso significa que quem quiser publicar a tradução da Lia tem que se entender coma Rowling, que é dona da obra original e com a Lia, que é dona da tradução.

Teoricamente, a Lia poderia ter traduzido e procurando quem lhe pagasse melhor. Na prática, foi o editor que a encarregou de traduzir e contratou com ela uma remuneração. Volto ao aspecto remuneração amanhã – se conseguir voltar a escrever todos os dias. Entretanto não quero encerrar sem mencionar outro ponto: A Lia ganhou grande notoriedade com o HP. Se tivesse traduzido alguma obra desconhecida escrita por algum autor obscuro e que fosse se juntar à longa lista dos encalhes editoriais, dificilmente estaria sorrindo para nós no jornal de domingo. Por outro lado, se tivesse feito uma tradução de má qualidade, não adiantaria o sorriso, porque ia tomar paulada de tudo quanto é lado.

domingo, 15 de julho de 2007

Paga um e quer levar dois?

O cliente pede uma cotação, você dá, ele aceita e, quando você pensa que acabou a conversa, ele diz "você me entrega no pdf?". "Entregar no pdf" é um eufemismo para "fazer serviço de editoração eletrônica". É um serviço especializado, totalmente distinto do serviço de tradução. Exige programas especiais, como Adobe PageMaker, por exemplo, e mais uma carrada de outros aplicativos. E consome tempo, tempo que eu poderia usar para traduzir. Alguns tradutores são ótimos na editoração eletrônica, como alguns são exímios motoristas, cozinheiras ou trombonistas. Outros, como eu, nem chegam perto.

Não há nada de errado em prestar serviços de editoração eletrônica, como não há nada de errado em animar festas de aniversário ou ensinar línguas. Mas é bom lembrar que não faz parte integrante da tradução: é um serviço separado, independente e que, por isso, deve ser cobrado separadamente. Quer dizer, se você entende de editoração eletrônica, quando o cliente perguntar "você entrega no pdf?" a resposta é "claro, o serviço de editoração custa X". Não tenha medo de cobrar. Explique ao cliente que é igual a restaurante: filé simples tem um preço, filé com fritas tem outro.

O mesmo com atualização de documentos. Você faz uma tradução, dias depois vem o cliente e diz "tem umas alteraçõezinhas" e, geralmente, completa com "é pouca coisa, as principais estão aqui". Aí, eu pergunto: "é para fazer todas ou só as que estão nesta lsita?". O cliente costuma vir com mil evasivas, mas eu sou teimoso como uma mula: fico o pé e repeito, "não, desculpe, ainda não entendi, tem que fazer todas as alterações ou só estas aqui da listinha?" até ele desembuchar. Se ele disser que é só as da lista, então o preço é um, e talvez bem pequeno, dependendo do número de alteraçoes. Se ele disser que tem que fazer todas, então são dois serviços: o primeiro é identificar as alterações, o segundo é implantar. Para idetificar, precisa ler tudo, original e tradução, um trabalho fácil, mas que consome tempo, tempo que eu poderia usar para traduzir. Logo, hora por hora, preciso cobrar um preço que não me dê prejuízo. Então, a gente cota um preço para identificar as alterações. Identificadas as alterações, a gente cota um preço para a implantação. Para alguns serviços, a ferramenta de comparação do Word resolve o problema num instante. Entretanto, agora mesmo estou identificando as alterações a serem feitas em uma tradução feita por outro tradutor, com original em pdf. Não tem saída, tem que ler e cotejar e, princpalmente, não se esquecer de cobrar.

Por hoje é só, que eu tenho que voltar ao cotejo. Obrigado pela visita.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Nota fiscal, RPA, nota da prefeitura, recibo simples...

De vez em quando, pipoca a conversa de novo, aqui ou ali.

O cliente, seja ele agência ou cliente final, pede nota fiscal de pessoa jurídica, tradutor olha com cara de espanto: não tem, não sabe onde tem, não sabe onde compra. Sai por aí, adoidado, fazendo perguntas. Já falei disso mil vezes, esta vai ser a milésima primeira, mas não será a última.

Todo serviço prestado deveria ser refletido ou em um RPA ou em uma Nota fiscal. Essa é a lei. São esses os documentos que permitem ao governo administrar e gerir os tributos. Para quem paga, são o comprovante real do pagamento, que permite a dedução do valor na hora de preparar a declaração de imposto de renda. Se não tiver comprovante hábil, tipo RPA ou nota fiscal, não pode dizer que pagou e, teoricamente, ficou com o dinheiro no bolso. Não pode ser um recibo comum? Não, não pode, o leão não gosta.

Pessoas físicas costumam não se preocupar muito com comprovantes de pagamento a tradutores, porque não podem deduzir o pagamento da sua renda.

Pessoas jurídicas, quer dizer, agências e outros clientes, precisam de um comprovante hábil, quer dizer RPA ou nota fiscal de pessoa jurídica. Se fizerem pagamento sem nota, ou é porque trabalham pelo regime de lucro presumido, que pode ser extremamente oneroso para uma empresa de médio ou grande porte, ou é porque pagam pelo caixa dois, o que é ilegal. Mesmo empresas que têm caixa dois preferem evitar esse recurso, pelos problemas que ocasiona. Quer dizer, entre pagar um tradutor pelo caixa dois e pagar outro que tem nota fiscal de pessoa jurídica direitinho, a empresa vai preferir o que entrega a nota fiscal de pessoa jurídica.

Não há nada de errado ou ilegal com RPA, mas a carga tributária do cliente que contrata autônomo é altíssima, muito maior do que a carga de quem contrata tradutores que operam como pessoas jurídicas, quer dizer, se dois tradutores cobram o mesmo preço, mas um oferece RPA e outro oferece nota fiscal de pessoa jurídica, o cliente vai preferir o que tem a nota fiscal de pessoa jurídica.

É possível comprar notas de terceiros? Sim, mas é ilegal, além de forte indicação de falta de profissionalismo. Algo como médico usar receituário de outro. Tem quem venda nota fiscal? Eu não vendo, mas deve ter quem venda, porque se ninguém vender, ninguém vai ter como comprar.

É possível comprar nota fiscal na prefeitura? Sim e é perfeitamente legal. Mas são notas de pessoas físicas, equivalentes ao RPA, e não eximem o cliente do pagamento de todos os tributos devidos quando se paga contra RPA. Quer dizer, não refresca nada.

Amanhã, volto ao assunto. Por hoje, é só.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Madame d'Anjou responde: curso superior

Madame d’Anjou anda atrasada nas respostas, pelo que pede desculpas. A coisa aqui anda braba.

Fico sempre atrapalhado quando alguém me pede informações sobre cursos de nível superior, entre outras coisas porque nunca fiz curso superior na vida. Pior ainda quando me perguntam o que fazer depois da graduação. Entretanto, não gosto de me furtar a dar algum tipo de orientação.

Outro dia me escreveu alguém que tinha feito algum tipo de graduação e queria agora se devotar a tradução. Estava entre fazer graduação de novo ou fazer pós. Não é uma questão que eu possa resolver. Ao menos, entretanto, posso esclarecer alguns pontos.

Sucesso profissional é o resultado do que militarmente se chama "movimento de pinça": de um lado, você procura adquirir competência (e um curso, se bem feito e numa boa escola, aumenta sua competência), de outro, você precisa batalhar o mercado. Quer dizer, só fazer curso não resolve nada. Além disso, precisa ver se o curso é o que serve para você. Meus amigos que estão mais envolvidos que eu nessa história de faculdade dizem, e me parece que têm razão, que um curso de especialização prepara melhor para a profissão, ao passo que o mestrado prepara melhor para a academia.

Mas há também os cursos livres e, para quem tem formação em outra área, podem ser uma excelente opção.

Talvez valha a pena lembrar de um outro ponto: todas as pessoas que me escrevem dizendo que querem ser tradutoras dizem que estudaram uma língua estrangeira X anos, moraram no exterior, enfim, aquela coisa de sempre. Mas uma parte delas, uma parte muito grande, tem graves dificuldades com o português. Então, vai um conselho final para todos: se você quer se dedicar à tradução, comece dando um bom trato no seu português.

Antes de ir embora, clique aqui, para saber que cursos ando oferecendo via Aulavox. Como são a distância, você pode fazer onde quer que esteja, no Brasil ou no exterior. Caso você ainda não tenha percebido, um dos objetivos mais importantes (talvez o mais importante de todos) deste blog é atrair participantes para os cursos. Se não percebeu, deveria ter percebido: tradutor precisa saber ler nas entrelinhas.

Obrigado pela visita e volte amanhã.

domingo, 8 de julho de 2007

250 artigos

Minha vida tem andado tão maluca que nem notei que já passei dos 250 artigos postados. Tampouco contei os visitantes do mês passado. Paciência. Não dá, mesmo, para fazer tudo o que a gente quer.

Continuo me divertindo muito. Parece que tem sido útil para muita gente, o que me deixa ainda mais satisfeito. Agora, é mirar os trezentos.

Obrigado a todos os que têm vindo aqui para ler este ciberdiário.

Até amanhã.

Mandame d"Anjou responde: cursos a distância

Então, me perguntam o que eu acho dessa coisa de cursos de tradução a distância. Sou suspeito para dizer, claro, porque eu próprio estou me expandindo nesse campo e estou achando muito bom. Há coisas que não é fácil aprender a distância. Natação e cirurgia são dois exemplos óbvios, mas longe de serem os únicos. Não vejo problema com cursos de tradução, entretanto, nem vejo razão para serem menos eficientes que os presenciais. Exigem uma outra técnica por parte do instrutor, é verdade, mas funcionam direitinho.

Quer dizer, tanto quando se fala de cursos a distância como de presenciais, há que entender que sempre houve e sempre haverá os bons e os maus. Também é importante ver se o conteúdo programático do curso corresponde ao que você necessita. Não adianta fazer um tremendo de um curso de tradução se teu inglês é capenga. E, mais ainda, lembrar que há muito de subjetivo nisto: o curso que sua amiga detestou pode ser aquele que sirva para você como uma luva.

Lamento, mas viver é arriscado.

Mas, já que você falou em curso a distância

sábado, 7 de julho de 2007

Hoje estou abrindo espaço aqui para a nossa colega Sonia Augusto, que, faz uns dias, postou esta mensagem lapidar na lista trad-prt:

Eu normalmente peço ao cliente para confirmar se entendi corretamente o que ele quis dizer. Se foi um erro, ele corrige sem se sentir mal. Se queria mesmo escrever aquilo, eu traduzo (e fico com imagem de tradutora cuidadosa e minuciosa).

Sou psicóloga de formação e o primeiro livro que traduzi era de psicologia, mas de outra linha. Aí caiu a ficha de que naquele momento eu era tradutora, não psicóloga, e não precisava concordar com a autora, "só" traduzir o que ela escrevera da melhor forma possível. Nesse momento também decidi que se algum dia eu encontrasse um trabalho que considerasse prejudicial ao leitor, não traduziria. Traduzi vários textos com que não concordava ou que julgava bobagem, mas só uma vez recusei um trabalho que considerei irresponsável e perigoso.

Em 130 palavras, provavelmente escritas às pressas, como a maioria das mensagens que todos nós postamos, ela nos dá uma grande lição de profissionalismo. É bom ler de novo. Vale a pena.

Começa dizendo que, quando encontra algo que lhe parece errado em um texto, pede ao cliente para confirmar. Um modo elegante de evitar constrangimentos que, ainda por cima, ajuda a construir a imagem de profissional cuidadosa e minuciosa, como ela mesma diz. Um pouco de savoir faire não faz mal a ninguém.

A segunda parte da mensagem, a história do livro da psicóloga de outra linha também é emblemática. Quando encarregaram a Sonia de traduzir o livro, pediram que ela levasse ao leitor de língua portuguesa as idéias de quem escreveu o livro, não as dela própria. Transmitindo, cuidadosamente, as idéias do original, por menos corretas que possam ter sido ou possam ter a ela parecido, prestou à psicologia brasileira um serviço maior do que se tivesse se arvorado em censora de obras alheias e reescrito o livro "com as idéias corretas". Se fosse professora, poderia, inclusive, na sala de aula, rebater as idéias do livro que tinha traduzido e quanto mais fielmente tivesse traduzido o livro, melhor seria rebater as idéias que julgasse falsas.

Por fim, conta que se recusou a traduzir um livro que considerava irresponsável e perigoso. Foi só um, poderiam ter sido muitos. O que ela quer dizer com isso é que para tudo há um limite e que há certas coisas que ela não faz e pronto, posição com a qual também concordo plenamente.

Tem uma turma aí que acha que traduzir não é suficiente, talvez tenham um tanto de vergonha de serem "só" tradutores. Geralmente, não são tão bons tradutores quanto pensam, porque traduzir bem é mais difícil do que conseguem perceber. Mas isso é outra história. Até amanhã, que talvez eu fale disso.

Por favor, não se esqueça de dar uma olhada nos cursos Aulavox


sexta-feira, 6 de julho de 2007

Saudade dos tempos de traduzir para o inglês

Durante muitos anos, traduzi mais para o inglês do que para o português. Essa história acabou quando comecei a trabalhar para agências americanas: lá, como na Europa, a regra é cada um trabalha da língua estrangeira para sua própria língua materna. Há muitos anos que a tradução para o inglês deixou de ser significativa na minha carteira. Curiosamente, um dos poucos clientes de tradução para o inglês é uma agência em Nova York que, um dia, no sufoco, apelou para mim porque não tinha opção e, depois, ficou freguesa. Mas é pouco serviço.

Pouco serviço e, muitas vezes, pouco rendoso, embora a paga unitária costume ser maior. Pouco rendoso porque dá um trabalho diabólico e não sei se o diferencial de pagamento compensa. Se levado a sério, é um serviço terrível, extremamente desgastante, mesmo que você domine o inglês. Escrever tupiniquinglish, aquelas coisas esquisitas que você vê nos sites em inglês das nossas empresas, não chega a ser difícil, chamar o LALUR de book of real profit ascertainment, é moleza. Difícil é achar uma terminologia decente para as nossas coisas e escrever umas coisas que não deixem o leitor atônito com um texto em que todas as palavras estão em inglês, mas o texto, em si, não está em inglês; onde todas as palavras fazem sentido mas o texto em si não faz.

Mas é um excelente treino, inclusive para a tradução do inglês para o português. Porque, se ficar atento, ao traduzir para o inglês vai começar a perceber quantas coisas esquisitas você escreve ao traduzir para o português. E vai poder crescer muito como profissional. Ao traduzir para o inglês, li milhares de páginas de textos em português, escritos por "profissionais da área" que jamais teria lido se trabalhasse exclusivamente do inglês para o português.

Às vezes, sinto falta desse tipo de serviço. Mas o mercado anda exigindo de mim outras coisas e há que fazer o que o mercado quer.

Obrigado pela visita e volte amanhã, que tem mais. Aproveite que está aqui e dê uma olhada nos cursos para a semana que vem, O Uso de Programas Freeware como suplemento as Memórias de Tradução e Wordfast Avançando – Pandora Box. Como os cursos são via Aulavox, você pode fazer, não importa onde esteja. Para mais informações, clique aqui.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Tradução para legendagem

Um dos passatempos nacionais é falar mal de legendagem. Encontrar erro no serviço dos outros é fácil e divertido. Fazer serviço sem erros é mais difícil e, provavelmente, menos divertido.

Essa história de ficar catando erro em serviço dos outros é perda de tempo. Quando você encontra um erro no serviço de um colega, não aprende nada: se você encontrou uma tradução e notou que estava errada, é porque já sabia.

Melhor ficar procurando os acertos, aquelas sacadas em que você jamais tinha pensado, soluções que nunca tinham passado pela tua cabeça. E legendagem é sempre uma lição extraordinária para todos nós, mesmo quando não é nenhum primor de trabalho.

Legendagem tem terríveis limitações quantitativas: duas breves linhas de texto que têm de ficar um certo tempo na tela, se não, o espectador não consegue ler. Nem todos neste mundo fizeram curso de leitura dinâmica e, além disso, o espectador não pode se dedicar exclusivamente à leitura da legenda: precisa ver o filme, também. Por isso, salvo se for um daqueles filmes tipo Ingmar Bergman em que só se diz uma palavra a cada quinze minutos, é bom nem pensar em traduzir tudo: você precisa aprender a ouvir duzentas palavras e traduzir tudo aquilo com, digamos, cinqüenta. Aquela historinha de que a tradução em português é mais longa simplesmente não funciona para legendagem. A legendagem tem de ser mais curta, muito mais curta.

O truque é fazer com que a mensagem fundamental passe, o que exige do tradutor uma capacidade extraordinária para selecionar e resumir. E ficar rezando para o leitor não ser surdo e perceber o tom de, digamos, ironia, alegria ou tristeza do artista, que você não tem como mostrar na legenda.

Para piorar, não se pode usar vocabulário muito complexo. Tem uma palavrinha porreta que cabe exatinho ali, mas os limites do vocabulário do expectador têm de ser respeitados e ninguém fica vendo filme de dicionário na mão. Então tem de se virar com uma coisa mais simples e pronto.

Para rematar, em legendagem, não há notas do tradutor. Quem quer fazer legenda, tem de aprender a se virar sem essa muleta tão amada de alguns colegas que traduzem livros.

Embora não tenha a mínima vontade de trabalhar com legendagem, tenho vontade fazer um curso, para aprender as técnicas. Deve ser muito divertido e útil para qualquer um de nós, independentemente do nosso tipo de trabalho.

Por hoje, é só. Amanhã, deve ter mais. Passou um furacão dos bons por aqui, furacão capaz de furar um Rothweiler, mas parece que está amainando: acho que vou poder voltar a postar todos os dias, o que é uma delícia para mim. Obrigado por ter dado uma chegadinha. Se gostou do que viu, conte para os colegas. Se não gostou, conte pelo menos para mim, para ver seu eu consigo melhor este negócio todo. Sugestões são bem-vindas.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Edição Extra - "Guia Prático" do Agenor

Lá pelo dia 20, sai o Guia Prático da Tradução Inglesa, do Agenor Soares dos Santos. Vai custar 159 reais e ter 880 páginas. Editora Elsevier.

Uma grande notícia para todos nós.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Censura no blog?

Alguém que prefere se maner anônimo, ao comentar o artigo anterior, disse que faria um comentário realmente pertinente se o blog não tivesse censura. Como a afirmação pode dar uma impressão incorreta, vou explicar um pouco melhor.

Os comentários, aqui, estão sob o que se chama “moderação”. Chame censura, se quiser. Para mim, tanto faz. Na prática, isto significa que, se você fizer um comentário, ele vai primeiro para mim, que posso aceitar, rejeitar ou editar.

Assim, evita-se a turma que só aparece para esculhambar e spammers. Também se pode usar para evitar infrações ao código penal. É muito fácil fazer denúncias, verdadeiras ou falsas, quando se esta protegido pelo anonimato, mas o responsável legal pelo blog sou eu e, se alguém violar uma das disposições do Capítulo V do Código Penal, que trata dos crimes contra a honra, quem encara o meritíssimo sou eu. Por isso me cabe o direito de controlar o que aqui se diz. Não pensem vocês que nunca tive vontade de xingar a mãe de uma meia dúzia. Nas minhas veias, além de sangue, corre molho de tomate do carregado, à boa moda napolitana, que adquiri nos meus anos de morar no Brás.

Até agora, para minha satisfação, não tive de vetar nem adoçar comentário algum. Se alguém fez um comentário e não o viu publicado, deve ser em razão de um problema ocorrido com o servidor, que, durante um certo tempo, simplesmente matou todos os comentários. Até falei disso aqui, alertado que fui por duas boas amigas que não viram seus comentários publicados. Pode ainda estar ocorrendo esporadicamente. Mas fique certo de que, até agora, desde que o blog foi criado, jamais vetei um só comentário. Se você escreveu um comentário e não foi publicado, não foi por minha causa e se quiser tentar de novo, eu agradeço.

Nunca se esquecendo que os que acharem minha política quanto aos comentários muito restritiva podem facilmente criar seus próprios blogs, com outras políticas. É grátis. Mas aviso: é sempre mais fácil falar mal do blog dos outros do que fazer um melhor.

Vamos ver se, mais tarde, posso postar algo sobre tradução, mesmo.

domingo, 1 de julho de 2007

Homenagem a uma guerreira vitoriosa

Meu primeiro artigo, depois de vários dias sem conseguir postar nada, é uma homenagem a minha amiga Dayse Batista.

A Dayse, faz uns dias, avisou que está encetando a tradução de seu centésimo livro. Outros terão traduzido mais, outros terão traduzido livros mais longos ou mais importantes, mas a Dayse está traduzindo o centésimo e, com isso, nos dá uma grande lição, uma lição principalmente aos que vivem se queixando.

Ensina que se pode viver de traduzir. Porque vive de traduzir. Taquetataquetaque no seu computadorzinho, ganha o seu sustento e o sustento da Letícia, uma filha bonita e com ar inteligente, que só conheço de fotografia e espero um dia ainda poder abraçar, como um dia abracei a mãe.

Não vai ficar rica traduzindo, não passa as férias em Paris, não sai à rua arcada ao peso de jóias. Mas vive à própria custa e ainda lhe sobram uns trocados para algumas boas ações que não me cabe comentar aqui. Quando sai à rua, seja a pé ou cavalgando sua bicicleta, é sempre de cabeça erguida, com justo orgulho da sua independência.

A Dayse também nos ensina que é possível viver de tradução fora do eixo Rio–São Paulo. Mora em Porto Alegre e foi conquistando um cliente aqui outro lá, dando duro, se esforçando, estudando, aprendendo e formou sua clientela, dentro e fora do Brasil. E essa clientela lhe manda serviço. Manda serviço porque ela trabalha direito, só por isso. Não porque tenha amigos influentes. Os amigos que a recomendam são os que conhecem a qualidade do serviço dela.

Deve ter tido seus dias ruins, como todos nós. Mas foi à luta e está aí: cem livros, vinte anos de profissão. E está só começando.

Se você está no Orkut, visite o perfil da Dayse e deixe um recadinho de parabéns, que ela bem merece. E, esteja ou não no Orkut, se precisar de um exemplo de profissionalismo, lembre dela.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Pedidos, emendas, exigências de clientes

Hoje ocorreu um incidente que me fez interromper o comentário sobre faculdades para falar um pouco de comentários, sugestões e exigências do cliente.

Há, que eu entenda, quatro graus de interferência do cliente:

Melhoras. Por sua experiência na área, muitas vezes o cliente pode ter soluções melhores que as minhas. É aceitar e agradecer.

Seis por meia dúzia. Eu escrevo "entender", o cliente troca por "compreender". Mais adiante, onde eu escrevi "compreender", ele troca por "entender". Muitas vezes, é serviço de um funcionário subalterno que se sente mal se não mudar nada. Se a forma escolhida pelo cliente estiver certa, aceito, deixando claro que tanto faz uma quanto outra e que respeito a escolha do cliente, porque o texto sai com o nome do cliente, não com o meu.

Pior a emenda que o soneto. O cliente muda, mas muda para pior, embora ainda aceitável. Continua sendo direito dele ter no texto o que quiser: o logotipo no alto da página é o dele, não o meu. Hoje mesmo, fiz um serviço para um cliente que manda deixar um termo perfeitamente traduzível em inglês e, ainda por cima, quer uma nota explicativa que me parece inútil e ridícula. Argumentei, o cliente não aceitou meus argumentos. Tudo bem, faço como ele quer. Errado, a bem dizer, não está. Só absurdo, idiota e ridículo. Se fosse tradução assinada, como a dos livros, é bem possível que eu fincasse o pé. Mas é serviço anônimo e o único nome que aparece é o do cliente, que tem todo o direito de ver seu burro amarrado da maneira que prefere.

Inaceitável. Mas, para tudo há um limite e há certas coisas inaceitáveis. Pode ser um glossário sem pé nem cabeça, pode ser uma emenda que torna o texto ininteligível, pode ser uma alteração que distorça o sentido do texto. Uma vez, por exemplo, um cliente exigiu de uma amiga minha que traduzisse "Buyer may" por "obriga-se o comprador". A colega se recusou. Entre outras coisas, porque se tratava de tradução juramentada, com o nome dela lá no alto da folha. Mas, mesmo quando não é juramentada, tem hora que a gente precisa fincar o pé e dizer que não faz e, se for o caso, recusar o serviço.

O que não se pode fazer é ter ataques histéricos por causa de sugestões de cliente. E, antes que me esqueça, se o revisor cometer algum erro de ortografia, é bom corrigir com boa educação, sem sarcasmos nem ironias. É bom tomar cuidado: pode haver erros de ortografia na sua tradução também.

Obrigado pela visita.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Vida de tradutor

O blog esteve meio abandonado estes dias. Estou vivo, é fato, mas foram dias difíceis, porque tive que combinar excesso de serviço com mil problemas particulares. No fim do dia, não tinha coragem para escrever. Parece que a tempestade amainou e vamos ver se volto ao ritmo de uma abobrinha por dia. Abobrinha é rica em cálcio, fósforo e vitamina A. Se não sabem, deviam saber.

Agora, leia, por favor, o artigo abaixo, que acabo de postar, e volte amanhã.

Essa coisa de faculdade

De tempos em tempos, me aparece a história da faculdade, de novo. Parece que este é o assunto menos entendido da nossa área. Vamos ver se consigo esclarecer um pouco ou se vou causar uma confusão demoníaca.

Quando se discute esse assunto, normalmente cai-se em dois pecados: o da generalização excessiva e seu irmãozinho, o de selecionar exemplos a dedo para provar uma tese.

Então, tudo começa com a tese. Por exemplo, o sujeito quer demonstrar que os bacharéis são umas azêmolas. Então, conta uma história, provavelmente verdadeira, sobre alguma tradução feita por bacharel que estava um horror. Daí, conclui que todo bacharel em tradução é um incompetente. No mesmo momento, alhures, há um outro sujeito contando história semelhante, só mudando o protagonista, que passa a ser alguém que não tem bacharelado em tradução e fez uma tradução hilariante.

Santa falta de lógica, não é? Na verdade, a gama dos cursos de tradução varia de excelente a deprimente e, dentro de cada curso, a gama dos alunos vai de genial a débil mental. E todos nós temos nossos bons e maus dias. Quer dizer, entre a tradução feita em condições favoráveis por um excelente aluno de uma faculdade de primeira linha e uma correria infernal feita sem recurso algum por um coitado que mal conseguiu terminar o curso numa faculdade meio frágil, pode haver uma grande diferença.

Agrega que, como já afirmei aqui mais de uma vez, quem assina a tradução nem sempre é quem a fez. Então, não é muito fácil tirar conclusões.

Por outro lado, há os montes de engenheiros, médicos, advogados, jornalistas e – por que não mencionar? – os vendedores de cachorro quente que, numa hora de sua vida decidiram se meter a tradutor. Alguns desses caras, também, são bons, mas outros deixam a desejar.

Na verdade, a maioria dessas discussões sobre "fazer ou não fazer bacharelado em tradução" se baseia em posturas cujo objetivo principal não é chegar à verdade, mas sim vender o próprio peixe. Por exemplo, quem é bacharel, defende, até a morte, a idéia de que sem um bacharelado em tradução, não é possível ser tradutor, porque só no bacharelado em tradução se aprendem as coisas que precisam ser aprendidas para ser um tradutor que se apresente. E diz isso, repete, esbraveja, até ficar roxo, mesmo que tenha passado seus quatro anos de servidão acadêmica reclamando que naquela porcaria daquela faculdade não se aprende nada.

Amanhã, volto ao assunto. Agora, talvez você se interesse por algum dos meus cursos via Aulavox, sempre a distância:

21 de junho - 19.30h - Da Faculdade ao Mercado (Grátis, direcionado para estudantes)
23 de junho - 14h - Introdução ao Wordfast
28 de junho - 19h - Wordfast Avaçando: Gestão de Memórias
Mais informações: http://www.aulavox.com/eventos/textoecontexto/index.htm

quinta-feira, 14 de junho de 2007

O que é uma boa tradução?

No artigo anterior, disse que não se pode dar por errada uma tradução exclusivamente por ser literal. Fica, então, a pergunta: quando se pode dizer que a tradução esteja errada?

Falando baseado exclusivamente em minha experiência e observações, quer dizer, sem recurso a qualquer escrito teórico, na minha opinião, o primeiro requisito da boa tradução é a fidelidade ao sentido do original. Uma boa tradução deve dizer tudo o que diz o original, nem mais nem menos.

Já vi muita gente dizer que isso não é verdade, que fidelidade (e "original") são conceitos ultrapassados. Pode ser, mas, para essas pessoas, tenho duas respostas: a primeira é que meus clientes comparam minhas traduções com os originais e ai de mim se não estiverem fieis, se não disserem direitinho o que está no original. Como são meus clientes que pagam o feijão, prefiro fazer como eles querem. A segunda resposta é que essas são as mesmas pessoas que ficam assistindo televisão para apontar aqueles lugares onde a tradução "não é o que o artista disse".

O segundo requisito, ainda a meu ver, é português que se preze. Este quesito não vale se o tradutor revirar, contorcer e distorcer o português, com o objetivo de reproduzir algum traço específico do estilo do autor, que também viole a norma da língua original. Português que se preze também significa fluência, idiomatismo, propriedade para o gênero textual e outras coisas que não vou discutir aqui.

O terceiro requisito, por fim, e ainda a meu ver, é compatibilidade com o estilo do original. Quer dizer, se o original é um artigo complicadíssimo sobre filosofia, escrito num estilo altamente complexo, dirigido para especialistas, não cabe a nós tradutores traduzir num estilo accessível para adolescentes. Isso já deixou de ser tradução para ser adaptação e, evidentemente, assunto para amanhã.

De qualquer modo, então, e voltando ao nosso exemplo, o meninou comeu um pedaço de bolo é uma tradução boa para the boy ate a piece of cake, porque reflete o que diz o original e não há como mudá-la para que reflita melhor; não tem erros de português e tem estilo compatível com o do original. O fato de que é literal não prejudica nenhum desses atributos. Claro que não se pode traduzir literalmente o tempo todo. Sempre que a tradução literal ferir um desses atributos deve ser descartada.

Por hoje, é só. Não se esqueçam, por favor, da visita a Aulavox para ver o que há por lá. Se estiver fazendo faculdade, veja o "Da Faculdade ao Mercado", que é grátis e, sendo a distância pode ser acompanhada de qualquer lugar do mundo.

Obrigado pela visita.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Tradução literal

Está rolando, na trad-prt uma discussão sobre o que possa ser tradução literal, um termo que tem diferentes definições para diferentes pessoas. Então, algumas vezes, se recomenda que uma tradução seja feita literalmente, ao passo que, em outras, critica-se uma tradução por ser literal. Vamos trabalhar com alguns exemplos, a ver se nos entendemos.

The boy ate a piece of cake > O menino comeu uma fatia de bolo

Esta é uma tradução literal. A cada palavra do original, corresponde uma da tradução e ambas têm idêntico sentido e idênticas características morfossintáticas. Nesse caso, geralmente, uma retrotradução igualmente literal vai nos conduzir de volta ao original.

O menino comeu uma fatia de bolo > The boy ate a piece of cake

A retrotradução não nos conduz ao original quando a língua de partida tem duas possibilidades e a de chegada tem só uma:

O que o senhor disse? > What did you say? > O que o senhor/você disse?

Há quem prefira chamar essas traduções de "palavra por palavra" e chamar literais, àquelas que sofreram pequenas alterações, para atender às normas morfossintáticas da língua de chegada:

The boy ate a piece of chocolate cake > O menino comeu uma fatia de bolo de chocolate > The boy ate a piece of chocolate cake.

Note que todas as traduções acima estão corretas, embora sejam literais. Em outras palavras, não se pode acoimar uma tradução de incorreta exclusivamente por ser literal. Quando se pode dizer que uma tradução é incorreta, então?

É disso que vamos falar amanhã. Antes de ir, dê uma passadinha aqui, para saber dos meus cursos e, se você estiver fazendo um curso de Tradutor, não deixe de ver as informações sobre "Da Faculdade ao Mercado", que é grátis.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Madame d'Anjou responde: diferença entre intérprete e tradutor

Tem lá, na minha página de recados do Orkut, alguém perguntando a diferença entre intérprete e tradutor. Boa pergunta. Nós, que sempre falamos mal da imprecisão terminológica dos outros, fazemos uma grande barafunda com nossa própria profissão.

Tradutor, por exemplo, pode ser usado especificamente para quem trabalha com texto, ou genericamente para incluir também os que trabalham com a língua falada. Já houve, entre os franceses, que propusesse translation como termo genérico, e traduction e interpretation para as duas vertentes da nossa profissão. Não pegou. Então, ficamos com um termo, tradutor, que, ao mesmo tempo, é gênero e espécie.

Mas o pior não é isso. O pessoal que fica naquelas cabines falando uma língua enquanto o orador fala outra, se intitula intérpretes e, de vez em quando, olham meio de cima os tradutores, quer dizer, a turma que trabalha com texto, como se fosse um tipo de arte menor. O livro do Ewandro sobre a profissão dele se chama sua majestade o intérprete, mas a lista de discussão que ele próprio criou se chama trad-sim, de tradução simultânea, termo que, aliás, aparece 285.000 no Google, contra 19.500 de interpretação simultânea. De qualquer maneira, parece que o simultânea é exclusivo deles. Curioso é que, quando eles cometem algum erro, é comum dizer que o intérprete traduziu errado.

Do lado da turma que trabalha com texto, como eu, a coisa talvez seja mais simples: para meu serviço, sempre vi e ouvi o termo tradutor. Mas é também comum dizerem que um de nós interpretou mal o original.

E nós reclamamos tanto da imprecisão do que traduzimos e interpretamos! Casa de ferreiro, espeto de pau.

Agora, que já respondi, posso apagar o recado.

Obrigado pela visita e té amanhã, que tem mais, se meu resfriado permitir. Estou gastando mais tempo assoando o nariz do que digitando.

Não se esqueça de dar um pulo na Aulavox para ver os cursos. O "Da Faculdade ao Mercado" é absolutamente grátis. Como é tudo a distância, não importa onde você esteja, nos estamos lá.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Recado à Adriana e outros inciantes.

Lamento que não tenha funcionado o link.

Não era pegadinha, não faço isso.

Tente, por favor, http://tinyurl.com/2txqts

Abaixo o tradutorês!

A turma reclama do legalês, do economês, do propagandês do não-sei-que-mais-quês e ridiculariza essas linguagens. Mas eu prefiro, como é meu hábito, dedicar-me ao exame da minha própria cauda e me dedicar ao estudo do tradutorês. Gente, vocês já viram que tem umas coisas que a gente só encontra em tradução? Não são realmente erros, mas é uma coisa esquisita, um português meio marciano. O cliente aceita e não reclama, porque adquiriu o hábito de ler essas coisas e acabou por aceitar. Mas, meu São Jerônimo, que textos ruins!

Está tudo de acordo com a gramática, sem dúvida, pronominhos do caso oblíquo onde os portugueses colocam e nenhum brasileiro gosta de ver, mas a tia da quarta série dizia que não se inicia frase com pronome do caso oblíquo e a gente não inicia. Tudo bem. Mas, ainda que mal pergunte, precisa traduzir todos os pronomes? Quer dizer, sempre que o inglês tiver um pronome, você precisa botar um pronome em português?

Você não se lembra que a tia de inglês ensinava que toda frase inglesa precisa de um sujeito e de um objeto expressos e que a gente custava para aprender que tinha que botar pronome em tudo? E tinha porque tinha porque se não pusesse, perdia nota? Então! Isso não te faz pensar que, como corolário dessa regra que nos fez penar tanto, ao traduzir do inglês para o português, não é necessário preservar todos os pronomes?

Antes de escrever um pronome em português, pergunte a você próprio se o pronome é realmente necessário, se, em sã consciência, ao escrever português, você usaria um pronome ali. Uma coisinha simples dessas pode melhorar muito a qualidade do seu texto.

Volte amanhã, que tem mais. Não se esqueça de clicar aqui, para saber dos nossos eventos. Tem, inclusive, um grátis voltado para o pessoal que está fazendo faculdade.

Se for iniciante estiver meio desarvorado CLIQUE AQUI (a Adriana me escreveu dizendo que o Link não funcionava, corrigi, vamos ver se funciona agora. Obrigado, Adriana.)

terça-feira, 5 de junho de 2007

Um minuto para nossos comerciais

Menos que um minuto, realmente, salvo se você for estrangeiro e estiver procurando no dicionário, palavra por palvra. Os novos cursos estão aqui. Espero que algum deles tenha interesse para você.

São todos a distância, quer dizer, você não vem a nós, mas nós vamos até você, via Intenet. Especial atenção ao "Da Faculdade ao Mercado", que é grátis.

Pronto. Agora pode passear pelo resto do blog. Obrigado pela visita.

Uma tradução ruim

Esta me contaram hoje de manhã e achei que merecia ir para o blog. Nada de extraordinário, mas é interessante.

A Agência A, aqui de SP, tinha um cliente que pedia muitas traduções de documentos em uma certa área. Essas traduções iam sempre para o Tradutor 1, que era, sabidamente, competente. Um dia, o cliente começou a reclamar de qualidade e, depois de algum tempo, mudou de fornecedor, procurando a Agência B. A Agência B procurou o melhor tradutor possível para o serviço, e encarregou dele o próprio Tradutor 1, que continuou usando a mesma memória de tradução para atender aquele cliente. Quer dizer, trocaram seis por meia dúzia. O cliente, aparentemente, está mais do que satisfeito com a "melhora de qualidade".

Isso diz muito da subjetividade das avaliações dos clientes. Neste caso, o dono da Agência A e o Tradutor 1 são amigos, o dono da agência conhece inglês e português e, embora a agência tenha lamentado perder o cliente, manteve sua confiança no tradutor e até acharam até graça na história. Se não fosse por isso, talvez o Tradutor 1 ficasse totalmente queimado com a Agência 1.

Como disse no acima, não há nada de extraordinário, porque acontece muito. Mas aponta para um problema para o qual não há solução fácil: a subjetividade dos julgamentos sobre tradução. O problema não é nem a perda do cliente, mas sim o fato de que, quando se perde um cliente, ou se recebe uma crítica, ficamos sem saber se nosso serviço estava mal feito ou se foi mero enjoamento do cliente.

Fica, então, muito difícil a gente saber quanto vale uma crítica. Quer dizer, podem dizer que a tradução está ruim porque a tradução está ruim ou porque ruim está a cabeça de quem falou e a gente precisa equilibrar a auto-estima com a autocrítica, o que não é tarefa fácil.

Por hoje é só. Volte amanhã, que tem mais. Se você está na faculdade, dê uma olhada no tópico imediatamente abaixo deste. Se não estiver, talvez queira recomendar a um amigo.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Da faculdade ao mercado

Como prometido...

Palestra grátis, a distância, via Aulavox, direcionada para estudantes de tradução.

Duas horas para entender melhor como funciona o mercado, como ingressar nele, como divulgar seus serviços e como aumentar suas probabilidades de sucesso.

Todos os interessados são bem-vindos. Para participar, você só precisa um computador ligado à Internet e um par de alto-falantes.

  • Se sua faculdade quiser, pode usar um computador e um telão para apresentar o evento a um grupo de estudantes. Nesse caso, o evento se qualifica como "atividade extra-curricular" e a faculdade pode emitir um certificado, com validade perante o MEC.
  • Caso sua faculdade não se interesse pelo evento e você queira o certificado, a Aulavox e a Texto&Contexto podem emitir um certificado, mas, como a palestra é grátis, vamos ter de cobrar um preço simbólico de R$ 12,00 para cobrir nossos custos e você vai ter de nos remeter um resumo da palestra, para satisfazer exigências legais e regulamentares. Mas preferimos que sua faculdade cuide desse aspecto.

21 junho, 19.30–21.30, horário de Brasília.

Fico grato a quel divulgar o evento.






domingo, 3 de junho de 2007

Se você faz faculdade...

Se você está fazendo faculdade, procurando um bacharelado como tradutor, acho que vou ter uma notícia interessante para você, lá para segunda ou terça-feira. Fique de antena.

Não, não tem emprego para todo mundo. Eu disse notícia interessante, não milagre.

Estou todo prosa

Estou todo prosa. Mais de 4000 pessoas visitaram o blog nos últimos 30 dias, o que não me parece nada mal. Não sei quem são: você pode entrar mil vezes que jamais vou saber quem você é. Mas sei que quantos entraram, quanto tempo cada um ficou e mais uma série de outras coisas fascinantes.

Muitos entraram por engano. Tem gente com pouca experiência em pesquisas no Google e vem parar no aqui por engano. Outro dia, alguém digitou onde vende meia para coto no rj no Google e veio parara aqui. Claro que o visitante tinha pensado em coto como parte restante de membro amputado, enquanto que, para mim, era o presente do indicativo do verbo cotar. Esses fazem um bate-e-volta, porque logo notam que nada há para eles aqui. O mesmo aconteceu com alguém que procurou no Google crack sdlx, que também saiu frustrado.

Porém, mais de 60% dos visitantes é de gente que já esteve aqui ao menos uma vez e, se volta, deve ser por ter gostado. Nada mau, para um blog feio que só ele.

Obrigado por vir aqui, me visitar. Deve ser muito frustrante manter um blog com carinho e não vir ninguém.

sábado, 2 de junho de 2007

Início de carreira (2)

Prometi, para hoje, o segundo capítulo da novela "como me meti nesse troço de tradução". O primeiro capítulo está aí abaixo. Bom, então, eu cheguei na Arthur Andersen, às oito e meia da manhã, me apresentei e me deram um pedaço de um livro, um Michaelis, um Altmann (avô do Dicionário do Orlando Pinho), um Dictaphone. Me ensinaram como usava a trapizonga do Dictaphone e disseram "quando encher a fita, liga para a Dulce que ela vem pegar". Pronto, eu era tradutor profissional, com registro em carteira e tudo.

Peguei o livro e fui "lendo em português". De tempos em tempos, chamava a Dulce, que "batia" as fitas numa IBM de esfera, para que depois um dos auditores revisasse. Almoçava no centro e ia dar aula de inglês. Depois de uns quinze, disse para a Vera que ia procurar serviço numa editora e deixar as aulas. Tinha todo o necessário: uma escrivaninha e uma máquina de escrever Olivetti 44. Pouca gente, naquela época, tinha telefone. Foi para o posto telefônico que havia na 7 de abril, comprei um pacote de fichas telefônicas (não havia cartões, na época, eram umas fichas de metal), sentei numa cadeira em frente a um telefone público, com uma mesinha onde colocar um caderno e a lista telefônica. Telefonei para todas as editoras, de A a Z. Algumas estavam com o telefone ocupado e, por isso, dei uma segunda rodada. Na segunda rodada, logo de cara peguei a Editora Atlas, que, eu sabia, era especialista em livros sobre contabilidade. Atendeu a telefonista, pedi para falar com a pessoa encarregada das traduções. Me passaram para o encarregado. Ele disse "se você realmente souber traduzir, temos serviço", sem muito interesse. Respondi, com arrogância: "Sou só tradutor da Arthur Andersen. Interessa?". A resposta veio em voz mais mansa: "Venha amanhã, para conversarmos".

Fui, conversamos, me deram um teste. Fiz o teste, a Vera revisou. Levei. O encarregado, de modo geral gostou, mas marcou a vermelho uma frase. Levou ao diretor editorial, elogiou o trabalho, disse que tinha um erro só, pequeno. O Diretor Editorial, que não sabia inglês, leu o texto pelo sentido geral e disse que estava tudo certo. Que a correção feita fazia o texto perder o sentido e que eu estava aprovado. Aí é que eu peguei o teste e vi o "erro": Estava escrito substitute machines for men, que eu traduzi por trocar homens por máquinas e o revisor, sem saber que substitute for significava o inverso de ser substituído por, tinha dado uma escorregada na maionese. Virei tradutor de editora. De manhã, Arthur Andersen; de tarde, editora.

Tempos estranhos, aqueles: ninguém me deu prazo para traduzir. Quando estiver pronto, entrega, é o que me disseram. Traduzi, papel formato ofício, espaço duplo, três centímetros de margem de cada lado. Laudas numeradas em cima, à direita. Correções a tinta. Depois, para a revisão, para a composição, três provas, impressão, encadernação. O livro se chamava "Análise das Demonstrações Financeiras", de um tal de John Myer. Foi publicado em 1972.

Durante a semana, conto como deixei a Arthur Andersen, para trabalhar inteiramente por conta própria.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Início de carreira

De vez em quando alguém escrever perguntando como comecei e como divulgo meus serviços. O objetivo é, evidentemente, tirar alguma idéia. Vou contar algumas coisas, aqui, mas não acho que vá ajudar muito. Comecei em outra época, numa situação diferente, o que valia então, pode não valer hoje. Mas, enfim, para não dizerem que estou escondendo o leite, lá vai.

Em 1970, eu trabalhava numa escola de inglês que tinha vários professores ensinando na Arthur Andersen, naquela época uma respeitadíssima firma de auditoria. Um dia, a Arthur Andersen perguntou se havia algum professor que pudesse fazer uma tradução e fui eu o escolhido. Naquele tempo, o mercado era muito restrito e havia poucos tradutores profissionais, fora os juramentados e um que outro que trabalhava com vínculo empregatício. A maioria tinha a tradução como bico. Eram professores, funcionários públicos (que trabalhavam somente meio período) aposentados ou "senhoras". Aqueles, eram, certamente, outros tempos. Havia as "senhoras", cujos maridos tinham bons empregos e, filhos criados e crescidos, queriam fazer alguma coisa de útil na vida, mas não queriam ou não podiam ser professoras. Muitas senhoras achavam que "não ficava bem" ir trabalhar no comércio nem queriam se comprometer com uma semana de 48 horas. Então, as que podiam, eram tradutoras. Todos trabalhavam muito devagar, não havia pressa. O fato de que nenhuma delas travalhava mais de 3–4 horas por dia, não prejudicava a ninguém.

Mas estou me me desviando do assunto. Do ponto de vista da escola, o serviço na Arthur Andersen eram aulas externas, pagáveis com adicional de 50%. Quatro horas por dia, cinco dias por semana, igual a vinte horas por semana, aproximadamente 90 por mês, com os 50%, pagamento, equivalente a 135 horas por mês. E, claro, o serviço terminava às 12.30, quando eu ia almoçar e começar a dar aula de verdade. Quem dá aula em curso livre de inglês, sabe que isso é um filé. Agarrei com as duas mãos.

Já tinha feito uma que outra tradução esporádica, mas nem de longe podia me chamar tradutor.

O que aconteceu quando eu cheguei na Arthur Andersen, eu conto amanhã.

Aliás, amanhã tem Reunião na Sala 7. Mais informações, clicando aqui.